Alexandre Rocha
São Paulo – O Brasil já é utilizado como plataforma de exportação por multinacionais da indústria automobilística, mas de uns tempos para cá o país vem se tornando também cada vez mais referência em pesquisa e desenvolvimento. Várias montadoras criaram ou estão instalando no país centros de design e engenharia destinados à criação de carros que serão produzidos aqui e no exterior, além de protótipos que vão influenciar o setor nos próximos anos.
É o caso da Fiat, que há quatro anos abriu um Centro de Estilo no Brasil, o único do gênero fora da matriz na Itália. No 24º Salão Internacional do Automóvel, que começa hoje (19) em São Paulo, a empresa vai mostrar um carro conceito totalmente concebido por sua equipe brasileira de designers. Trata-se do FCC Adventure, um cupê futurista com jeitão de off-road. "Este carro tem elementos que serão utilizados futuramente nos modelos de linha", disse à ANBA o diretor do centro, Peter Fassbender.
De acordo com o diretor, quando as operações foram iniciadas, seu departamento contava com quatro profissionais. Hoje já são 30. E eles não se dedicam apenas a criar protótipos. As versões "Adventure" com cara de fora-de-estrada de carros criados na Itália, como as peruas Idea e Doblò, foram desenvolvidas no Brasil. "É possível que no futuro a gente venha a fazer o desenvolvimento completo de carros que vão entrar em produção", acrescentou Fassbender.
A Fiat do Brasil também está investindo em combustíveis alternativos, com o lançamento do Siena Tetrafuel, que funciona com álcool, ou gasolina misturada com álcool, ou gasolina pura, ou gás natural; e o protótipo do Pálio Elétrico, criado em parceria com a Hidrelétrica de Itaipu e a empresa suíça KWO.
A Volkswagen é outra que investe na criação de carros no Brasil. A empresa, segundo sua assessoria de imprensa, tem no país 900 profissionais trabalhando no desenvolvimento de produtos, nas áreas de design e engenharia. É o maior centro de pesquisa da empresa fora da Alemanha.
Carros totalmente desenvolvidos pela Volks no Brasil são fabricados em outros países, como é o caso da perua SpaceFox produzida na Argentina. O compacto Fox, criado e fabricado no Brasil, por sua vez, hoje é exportado até para a matriz na Alemanha.
De acordo com a assessoria de imprensa, a subsidiária brasileira tem aval total da Volks alemã para o desenvolvimento de novos produtos por causa de seu know-how em veículos adaptados às condições dos países emergentes. Exemplo disso são as unidades do Gol exportadas para o Marrocos, que contam com dois radiadores para agüentar o calor da região.
Na mesma linha, o centro de pesquisa e desenvolvimento da General Motors do Brasil agora é responsável pela criação de todas picapes médias da marca, independentemente de onde elas serão fabricadas ou vendidas. No Salão, a empresa vai mostrar mais um carro totalmente desenvolvido no Brasil, o sedã compacto Prisma. Entre os protótipos, ela vai apresentar o Prisma Y, uma perua esportiva também desenhada no país a partir do sedã.
A Ford, por sua vez, instalou na Bahia um dos cinco centros de desenvolvimento que possui. No Salão do Automóvel ela vai apresentar alguns modelos que já passaram nas mãos dos profissionais do setor, como o Ecosport com câmbio automático e um protótipo feito com base no Fiesta. A unidade brasileira é responsável pelo desenvolvimento de veículos para toda a América do Sul.
A Peugeot também está começando a trabalhar com pesquisa e desenvolvimento no Brasil. A perua 206 Escapade, uma versão com jeito de off-road da 206, já foi criada por aqui. A marca francesa produz a linha 206 no Brasil e a 307 na Argentina, mas com alto índice de componentes brasileiros.
100% nacional
Mas não são só as multinacionais que investem em criação. Companhias 100% nacionais também estão entrando no mercado. É o caso da catarinense TAC, que está lançando o jipe Stark, que quer dizer "força" em alemão, antes conhecido como Projeto A4. O 4×4 de linhas futuristas é equipado com um motor Volkswagen 1.8 bicombustível, ou seja, que funciona com gasolina ou com álcool. "É um diferencial no setor de veículos 4×4, que geralmente oferece modelos que funcionam somente com gasolina ou diesel", disse o diretor administrativo da empresa, Luiz Alberto Cavalheiro.
Outro exemplo é o da Lobini, empresa que fabrica os esportivos de mesmo nome e recentemente foi comprada pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, um dos maiores do país. A produção regular começou em agosto, em Cotia, na Grande São Paulo, com quatro unidades por mês. Até o final de 2007, no entanto, a companhia espera atingir o patamar de 10 carros fabricados por mês.
Equipado com um motor Volkswagen 1.8 turbo de 180 cavalos, o Lobini custa R$ 170 mil. A empresa está de olho no mercado externo, espera começar a vender para a Inglaterra em breve. "Teremos um foco grande também na América Latina. E por que não também no Oriente Médio? Há potencial", disse a diretora-executiva da companhia, Renata Laczynski Goi.

