São Paulo – O economista José Roberto Mendonça de Barros, da consultoria MB Associados, acredita que o Brasil não vai crescer no próximo ano. Em palestra nesta terça-feira (09) na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo, o especialista falou da atual situação econômica do País, que descreveu como muito complicada, e deu algumas sugestões de estratégias para os empresários conviverem com a crise no curto prazo e manterem seus negócios para o futuro.
“Em 2016 vai continuar devagar, menos difícil que esse ano, mas de PIB (Produto Interno Bruto), zero”, afirmou Mendonça de Barros, referindo-se à expectativa da MB Associados de estabilidade para a economia no próximo ano. Para 2015, a consultoria prevê recuo de 1,5%. “O PIB não cresce em 2016 de jeito nenhum por falta de fontes de crescimento”, disse o economista, tendo como argumentos ausência de investimentos e aumento do desemprego.
Barros deu um panorama sobre o cenário global, mas explicou as dificuldades econômicas que o País enfrenta vêm principalmente por fenômenos políticos e econômicos internos. Ele lembrou que o Brasil veio de um crescimento de 7,6% em 2010 para uma queda de 1,5% no primeiro trimestre deste ano. “A queda foi muito abrupta”, afirma. O ano começou, segundo ele, com inflação subindo, saldo comercial desaparecendo e real fragilizado. O recuo do PIB, diz Barros, gerou pessimismo “enorme” sobre a economia.
De acordo com o economista, essa situação foi gerada em função da perda de poder da presidente Dilma Rousseff para o Congresso Nacional e o fato de ela ter feito sua campanha em uma direção e ter ido para outro quando assumiu o governo. “O Executivo perdeu o controle do processo político”, afirmou Barros aos presentes.
Ele citou como acontecimentos do período a queda de demanda das montadoras e notícias de dispensa de pessoal, o entendimento de que a situação da Petrobras era complicada, a desativação de canteiros de obras por construtoras ligadas à petrolífera, percepção pelos trabalhadores de que o mercado de trabalho estava parado e descoberta do sistema bancário de que haveria um problema de crédito com a Petrobras, que até então era o melhor risco de crédito do País. Os bancos, então, de acordo com Mendonça de Barros, passaram a ser mais seletivos nos financiamentos.
O economista afirma que houve uma melhora nas expectativas, com a publicação do balanço da Petrobras, e que o otimismo deve seguir. Mas segundo ele, os ajustes da economia terão que ser feitos também no ano que vem, já que o ministro da Fazenda Joaquim Levy não terá toda a liberdade que gostaria para implementá-lo. “O ajuste fiscal será limitado”, disse ele. No final deste ano, segundo o economista Mendonça de Barros, o País deve voltar a crescer um pouco.
Mas Barros destacou o setor do agronegócio, além da mineração, como um dos que deve crescer mesmo neste cenário de crise, em função do bom desempenho da última safra e a previsão positiva para a próxima. Entre as áreas que mais estão sofrendo com a situação econômica ele citou a indústria e a construção civil. Segundo Barros, a inadimplência das pessoas físicas não aumentou ainda, mas a das pessoas jurídicas sim, o que preocupa o sistema bancário.
A inflação que neste ano subiu principalmente em função de preços administrados, como gasolina e energia, deve ser menor em 2016, de acordo com o economista. Barros não vê motivos para que o Banco Central siga aumentando os juros porque a inflação deve cair. “As contas públicas vão melhorar um pouco”, afirmou.
De acordo com Barros, o Brasil está em uma dupla transição, de modelo político e econômico. A estrutura política que comandou o País por 12 anos acabou, segundo o economista. “O PT vai perder muito feio na eleição do ano que vem”, disse, sobre os pleitos municipais que ocorrerão em 2016. Referindo-se às denúncias de corrupção, o economista afirmou que ainda haverá “mais coisas” e que “não vai ter ex-presidente (Lula) candidato em 2018”. Para ele, acabou o modelo econômico em que o estado comanda tudo e que tem seu crescimento comandado exclusivamente pelo consumo. “Esse modelo naufragou espetacularmente.”
Diante disso, ele deu sugestões para que as empresas atravessem o período de recessão, (segundo ele, de dois anos) sem destruir o futuro. A primeira delas é o reforço da exportação e da internacionalização. Ele sugeriu também esforço na direção das melhores práticas, redução de custos e inovação, o uso da força do balanço da empresa para consolidação e aquisição de bons ativos a bons preços, e a diminuição da dependência de favores fiscais e crédito subsidiado de todos os níveis de governo.
José Roberto Mendonça de Barros acredita que o Brasil voltará a crescer em 2017 e que terá lições para tirar desse período. “A situação é difícil, mas tem saídas”, disse ele para o público, reforçando em vários momentos que não é um “pessimista”.
O evento com o economista, "Perspectivas da Economia Brasileira", fez parte do ciclo de palestras que a Câmara Árabe promove, pelo qual traz esporadicamente especialistas em economia, história, leis e outras áreas para falar aos empresários. A palestra de Barros foi mediada pelo ex-diretor da entidade, Mário Rizkallah, e foi aberta pelo presidente Marcelo Sallum. Também estiveram presentes outras lideranças como o vice-presidente de Comércio Exterior da Câmara Árabe, Rubens Hannun, e o embaixador de Omã em Brasília, Khalid Al Jaradi.


