Marco Bahé
Recife – Imagine um país com 937 mil quilômetros quadrados e uma população de 18,5 milhões de habitantes – maior e mais populoso que a maioria das nações européias. Esse país perdeu 37% da sua produtividade agrícola em menos de 20 anos. A queda na produção de bovinos foi de 24%. Na de caprinos, 11%. São US$ 800 milhões de prejuízo todo ano. Esse país imaginário existe de fato e se chama semi-árido brasileiro. O fenômeno causador dessas perdas – capazes de assombrar o mais frio dos economistas – leva o nome de desertificação.
No Brasil, as regiões semi-áridas representam 9,3% do território nacional, concentrando-se no Nordeste. De acordo com dados da Universidade Federal do Ceará, 17,7% dos mais de 900 mil quilômetros quadrados já estão desertificados, atingindo direta ou indiretamente mais de 15 milhões de pessoas.
Antes de tudo, é importante lembrar que desertificação e seca são coisas completamente diferentes. A seca é um fenômeno climático natural e relativamente freqüente (mas de periodicidade irregular) em regiões semi-áridas. Caracteriza-se pela má distribuição das chuvas no tempo e no espaço. Já a desertificação é causada, principalmente, pela ação humana – em especial o corte de árvores, o pastoreio excessivo e a exploração exagerada ou inadequada das terras cultiváveis.
Ao contrário do que costuma pensar, terra semi-árida não é sinônimo de improdutividade. Conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), as regiões de clima semi-árido representam quase um terço da superfície terrestre, abrigam cerca de um bilhão de pessoas e são responsáveis por quase 20% da produção mundial de alimentos. Trata-se de uma área de grande importância social e econômica, mas que pode provocar, quando mal manejada, graves desequilíbrios no clima e na biodiversidade.
Os impactos da desertificação são ambientais (destruição da biodiversidade, diminuição dos recursos hídricos disponíveis e redução da produtividade agrícola), sociais (migração para os grandes centros, aumento da pobreza já vulnerável e destruição da unidade familiar), e econômicos. São três aspectos indissociáveis do fenômeno e que se retroalimentam.
Na área ambiental, são muitos os exemplos. Para ficarmos no mais recente, levantamentos desenvolvidos pelo Ministério das Minas e Energia em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente identificaram que somente nos últimos dez anos, a cobertura florestal da caatinga (bioma exclusivo do semi-árido brasileiro) diminuiu 30% de sua área total e o principal fato gerador dessa situação é a operação de parques industriais que utilizam espécies nativas da caatinga como fonte de energia para a operação industrial.
Fonte energética
A Coordenação Geral de Florestas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concluiu estudo sobre o perfil da matriz energética de origem florestal e apontou que apenas 3% de todo o consumo de produtos ou sub-produtos florestais da caatinga são oriundos de projetos de manejo florestal sustentável.
Considerando o atual cenário de que a cada dia mais empresas utilizam a matriz florestal como fonte energética na suas operações, seja pelas vantagens econômicas, seja pela fragilidade dos sistemas de controle dos órgãos de gestão, tem-se a projeção de que nos próximos cinco anos, 20% de toda a cobertura florestal remanescente da caatinga terá desaparecido e também, por conseqüência, diversas espécies exclusivas deste bioma. Com o atual cenário, a perspectiva é de que em 2010 teremos apenas 30% remanescente da área total do bioma, segundo o Laboratório de Produtos Florestais do Ibama.
As perdas
De acordo com a Fundação Esquel, instituição que participa do debate sobre o controle da desertificação no Brasil, entre 1977 e 1994, a área plantada para a produção de alimentos aumentou em 25%. A taxa média de redução da produtividade agrícola dos alimentos (toneladas por hectare) no semi-árido brasileiro gira em torno a 2% ou 3% ao ano (2,6% entre 1977 e 1994).
Na região da Chapada do Araripe, os estados do Piauí e Pernambuco tiveram uma redução da produtividade agrícola de 2% ao ano, enquanto que no Ceará, a queda é de mais de 3%. A produtividade média do lado cearense, no entanto, era maior que a dos demais. Ou seja, Pernambuco e Piauí tiveram uma taxa menor, mas incidindo sobre uma produtividade média menor.
Em resumo, a sociedade, o indivíduo e o agricultor trabalham, hoje, 25% a mais do que há 20 anos passados e, consegue somente 63% do que conseguia anteriormente (perda a uma taxa anual de 2,8%). É como se a totalidade da região do semi-árido produzisse e perdesse 4,8 milhões de toneladas por ano. Em valores isso significa US$ 360 milhões.
"Os custos de produção aumentam e podem terminar por inviabilizar a agricultura; percebe-se que os custos não são somente financeiros, mas também humanos: um esforço cada vez maior (trabalho feminino e infantil) para garantir a sobrevivência do conjunto", afirma Silvio Santana, da Esquel.
Ainda de acordo com os dados levantados pela Fundação Esquel, as fontes de água da Chapada do Araripe tiveram taxa de redução anual de 0,3% ao ano, entre os cem anos anteriores a 1960. A partir desse ano, a taxa cresceu para 2,8% ao ano até 1980. Entre 1980-1995 a taxa chegou a 6% ao ano. Nota-se uma clara aceleração dos processos. Pela má gestão de recursos, hídricos ou não, o crescimento das áreas desertificadas é 3% anuais, segundo Alexandre Araújo, secretário-executivo da Associação Pernambucana de Proteção à Natureza (Aspan).
Mundo mais deserto
O total de áreas degradadas em todo o mundo é de 61,3 milhões de quilômetros quadrados. Segundo dados das Nações Unidas, o processo de desertificação vem colocando fora de produção aproximadamente 60 mil quilômetros quadrados de terras férteis por ano.
As perdas econômicas anuais chegam a US$ 4 bilhões, com um custo de recuperação de US$ 10 bilhões por ano, em todo o mundo. A desertificação já afeta 30% do território mundial, atinge anualmente cerca de novos 10 milhões de hectares em todo o planeta, o que representa custo de US$ 42 bilhões.
No Brasil, conforme diagnóstico realizado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), as perdas econômicas da desertificação podem chegar a US$ 800 milhões por ano devido. Os custos de recuperação das áreas mais afetadas alcançam US$ 2 bilhões para um período de vinte anos, principalmente nos estados mais atingidos, os da região Nordeste e o Norte de Minas Gerais.
Leia amanhã sobre a escolha de 2006 como Ano Internacional dos Desertos e Desertificação.

