Alexandre Rocha, enviado especial*
Araucária (PR) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem (20) que o H-Bio, novo combustível desenvolvido pela Petrobras poderá trazer benefícios não só para o Brasil, mas também para outros países em desenvolvimento. "É um programa que poderá ajudar na sobrevivência dos países do terceiro mundo, dos países da África e de alguns países da América Latina", afirmou ele em rápida entrevista coletiva.
Lula participou de uma cerimônia para marcar o segundo teste industrial para a produção do H-Bio, realizada na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, região metropolitana de Curitiba (PR). "É um programa pensado não apenas para o Brasil, mas para o desenvolvimento dos países mais pobres e eu acho que é uma revolução", acrescentou Lula. Para ele, haverá ampla demanda para os combustíveis verdes que os países agrícolas podem produzir e o Brasil será o principal protagonista deste setor.
"Se o mundo desenvolvido quiser atingir as metas de Kyoto terá que utilizar ou o biodiesel, ou o H-Bio, ou o etanol", disse ele, referindo-se ao Protocolo de Kyoto, acordo internacional que prevê a redução das emissões de poluentes em escala mundial. "E nessa área o Brasil é altamente competitivo", acrescentou. Lula destacou que pretende ver parcerias com empresas estrangeiras, principalmente das nações em desenvolvimento.
Na avaliação do presidente, o país pode "emprestar" o conhecimento que tem sobre combustíveis verdes para as nações mais pobres. "Imagine que um país da África possa plantar uma planta oleaginosa e vender H-Bio para países da Europa", ressaltou. "Seria a redenção do país pobre e seria a manutenção de um planeta mais limpo pelos países ricos", acrescentou.
Para a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, que também estava no evento, a disseminação do uso do H-Bio pelo mundo poderá inclusive render royalties à Petrobras, uma vez que a companhia já pediu o registro da patente do produto.
Refino
O H-Bio é um diesel obtido a partir da mistura de óleo vegetal com petróleo durante o refino, por meio de um processo chamado de hidrogenação, que envolve e adição de hidrogênio. Com isto é possível obter um combustível bastante semelhante ao diesel comum, mas com um menor teor de enxofre e com maior qualidade de queima, o que o torna menos poluente. O produto fica também mais barato, uma vez que se troca parte do petróleo por óleo vegetal. "Ele tem o mesmo DNA do diesel comum, mas com qualidade superior", disse o diretor da área de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa.
Ele é diferente do biodiesel. Este último é 100% vegetal e é adicionado ao diesel comum já nas próprias distribuidoras. No Brasil, a partir de 2008, a lei vai obrigar uma mistura de 2% de biodiesel no diesel comum, e de 5% a partir de 2013.
Embora o H-Bio possa ser produzido a partir de diversas plantas oleaginosas, o óleo de soja é o que será utilizado pela Petrobras, pelo menos na primeira fase da industrialização. A empresa começa a fabricar o combustível em escala industrial a partir de dezembro deste ano.
Isto vai gerar um aumento da demanda interna por soja, o que agrada aos empresários do agronegócio. Uma das autoridades que compareceu à cerimônia na Repar foi o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, conhecido como o “Rei da Soja”. No curto prazo, a Petrobras prevê utilizar 256 mil metros cúbicos anuais de óleo vegetal, o que representa quase 10% do que o país exporta. No médio prazo a quantidade utilizada deverá subir para 425 mil metros cúbicos, ou 16,4% das exportações de óleo de soja.
Para Lula, o aumento da demanda interna vai diminuir a dependência do produtor rural em relação ao comprador externo e às oscilações do mercado de commodities. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, garantiu, por sua vez, que não existem grandes problemas em voltar a produzir apenas diesel puro, caso o preço da soja aumente de maneira acentuada. "É um processo que pode ser interrompido", disse.
No caso do pequeno produtor, Lula disse que haverá isenção de alguns impostos para as empresas que comprarem deles. "Este programa tem um selo social", disse. "Ele atende a agricultura empresarial e a familiar", acrescentou.
Homenagem
Entusiasmado, Lula não poupou elogios ao engenheiro Jefferson Gomes, que chefiou a equipe do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobras responsável pela inovação. "O que vocês fizeram foi uma revolução incomparável para o setor de combustível no século 21", afirmou. "Você não foi para a Lua, não foi para o espaço, mas conseguiu fazer o presidente voar um pouco de alegria com este projeto", disse Lula ao engenheiro.
Lula chegou à Repar vestido à caráter, como um funcionário da Petrobras. Ele estava acompanhado também dos ministros do Planejamento, Paulo Bernardo, do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e do governador do Paraná, Roberto Requião.
*O jornalista viajou a convite da Petrobras

