São Paulo – O Brasil precisa construir uma relação de benefícios mútuos com a China no curto, médio e longo prazos, de acordo com o economista Eduardo Costa Pinto, um dos realizadores do Comunicado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre as relações entre os dois países lançado nesta sexta-feira (8), em Brasília. O lançamento ocorre às vésperas de uma visita da presidente Dilma Rousseff à nação asiática, que deverá ter nas relações econômicas seu ponto alto.
O Ipea parte da constatação de que, apesar da balança comercial entre os dois países ser superavitária para o Brasil – situação que deve perdurar ainda por algum tempo -, as exportações brasileiras são majoritariamente de itens básicos, como minério de ferro, produtos agropecuários e petróleo, ao passo que as vendas chinesas são compostas de mercadorias industrializadas, muitas com alto índice de tecnologia embarcada.
Na mesma linha, os investimentos diretos chineses no Brasil são voltados para a produção de commodities e indústria de base. O país asiático tem grande necessidade de importação de alimentos e insumos para a sua indústria.
O comércio bilateral cresceu de forma exponencial na última década. Hoje a China é o principal destino das exportações brasileiras, e este ano, segundo o Ipea, o país asiático deverá se tornar o maior fornecedor internacional do mercado brasileiro.
Embora o documento destaque as oportunidades do avanço do comércio, dos investimentos e dos financiamentos bilaterais, justamente quando as grandes nações emergentes passam a ter presença mais forte no cenário global, ele alerta para o perigo da manutenção da fórmula atual.
“Essa dinâmica traz consigo oportunidades para o Brasil no curto e médio prazo, mas que se não forem bem aproveitadas poderão representar ameaças, sobretudo, no longo prazo, como a perda de participação das exportações brasileiras em terceiros mercados para a China, desadensamento da estrutura produtiva nacional, perda do controle estratégico sobre fontes de energia (petróleo) e de recursos naturais (terras e minas) e aumento da vulnerabilidade externa estrutural”, ressalta o relatório.
Ou seja, mantido o modelo atual, a indústria brasileira corre cada vez mais o risco de perder mercados para os concorrentes chineses, tanto no exterior quanto internamente; o Brasil poderá ver boa parte de seus recursos naturais nas mãos de estrangeiros, comprometendo estratégias nacionais; e o País pode ainda passar a depender demasiadamente da exportação de commodities, aumentando sua vulnerabilidade externa.
Nesse sentido, Costa afirma que é preciso equilibrar essas assimetrias, por exemplo, condicionando, de alguma forma, o controle de empreendimentos agropecuários a certo grau de industrialização local daquilo que é extraído da terra, antes da exportação; induzindo à utilização de componentes nacionais nas mercadorias chinesas vendidas no Brasil; e abrindo mais o mercado chinês para exploração por companhias brasileiras.
“O Brasil é um país mais aberto ao investimento direto estrangeiro que a China, e o princípio da isonomia no tratamento dos investimentos mútuos é condição fundamental para o aumento da sinergia e de outros ganhos entre ambos os países”, diz o comunicado.
Na avaliação de Costa, o Brasil tem cacife para negociar com a China condições mais igualitárias nas relações bilaterais. Em primeiro lugar porque tem os insumos de que o país asiático tanto precisa, depois porque goza de estabilidade, ao contrário de outros fornecedores de matérias-primas, especialmente da África.
“Se os chineses percebem que nós pedimos pouco, vão dar apenas o que pedimos”, disse o economista. “Mas o Brasil é grande produtor [de insumos] e tem vantagens comparativas em produtos que são essenciais para eles”, destacou.
Ele acrescentou que as empresas chinesas começam cada vez mais a se internacionalizar é a tendência é que elas formem “cadeias globais” de produção. Isso induz à agregação de componentes feitos em outros países aos produtos industrializados chineses.
Coordenação
Além do interesse econômico, o Ipea sugere que o Brasil deve lançar mão da coordenação com a China no campo geopolítico para superar os desafios das relações bilaterais e aproveitar suas oportunidades. Vale lembrar que, durante a viagem de Dilma ao país asiático, na próxima semana, será realizada uma reunião de cúpula dos BRICS, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A presidente viaja acompanhada de uma delegação de mais de 300 empresários.
Entre as sugestões do instituto estão, entre outras, o uso ativo dos instrumentos de defesa comercial autorizados pela Organização Mundial do Comércio (OMC); negociar com o governo chinês a criação de condições de igualdade para empresas brasileiras que queiram entrar na China; avançar na regularização e fiscalização de terras e recursos naturais comprados por chineses no Brasil, adequando esse movimento aos interesses estratégicos do País; desenvolver instrumentos para fazer com que os investimentos chineses estejam de acordo com a política industrial brasileira; e endurecer a crítica e os meios de defesa contra a política cambial chinesa, que mantém o yuan desvalorizado.
O Ipea destaca que o Brasil tem feito apenas negociações pontuais com a China, pois "os chineses sabem claramente o que querem do Brasil, no entanto, ainda não se tem claro do que queremos da China". "É preciso avançar com urgência nas definições de estratégias amplas e especificas, pois a mão que afaga (empréstimos, investimentos diretos, superávit comercial) pode ser aquela que direciona os vínculos externos da economia brasileira para uma dinâmica empobrecedora que ficará visível apenas no médio ou longo prazo”.

