Isaura Daniel
São Paulo – Enquanto o Brasil discutia, no ano passado, o surgimento de um caso de febre aftosa no estado do Pará, as crianças da primeira série da Escola João Batista, do município mineiro de Curvelo, já tinham uma idéia do que o fato significava. Elas participaram no decorrer do ano de uma série de atividades voltadas para a educação sanitária. Assistiram a sessões de vacinação contra febre aftosa em uma fazenda perto da escola, ouviram palestras sobre sanidade animal e viram também uma mostra sobre morcegos que causam doenças nos animais.
"É importante vacinar os bois para eles não ficarem doentes e não morrerem", diz o pequeno João Artur Ligório Batista, de 7 anos, estudante da segunda série da escola, que participou das atividades no ano passado, quando freqüentou o primeiro ano.
A Secretaria Municipal de Curvelo implantou em 2003, em parceria com o Instituto Mineiro de Agropecuária, um projeto chamado Sanitarista Mirim, por meio do qual as crianças de escolas da zona rural do município recebem noções de sanidade animal. O programa, na verdade, faz parte de uma proposta pedagógica maior de inserir no ensino fundamental temas ligados ao campo (leia link abaixo).
"Essas crianças serão produtores rurais mais conscientes", diz Vânia Elizabete Braga Ferreira Fonseca, que era coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Curvelo quando o programa foi implantado.
O estado de Minas Gerais mantém cerca de 20 milhões de cabeças de gado. Os estudantes que freqüentam as escolas da zona rural de Curvelo são, em geral, filhos de produtores e rurais e de empregados de propriedades agropecuárias. Ou seja: potenciais futuros pecuaristas.
O pai de João Artur, por exemplo, tem uma fazenda. O menino se entusiasmou tanto com as atividades que agora fala em ser veterinário. Indagado sobre as lições que recebeu, João Artur descreve com detalhes as formas e as datas de aplicação da vacina contra aftosa e brucelose na região. "A vacina da brucelose é para as bezerras de três a oito meses de idade", explica o menino.
Assim como João Artur, outras centenas de crianças da zona rural brasileira estão recebendo educação sanitária na escola. Além de Minas Gerais, há projetos semelhantes em andamento no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, estados que mantêm, respectivamente, rebanhos bovinos de 14,5 milhões e 26,4 milhões de animais.
A intenção é preparar desde já o futuro da pecuária nacional e não deixar que o descuido isolado de um ou outro produtor cause perdas à economia brasileira, como ocorreu nos anos de 2000 e 2001, quando foram descobertos focos de febre aftosa no Rio Grande do Sul, e em 2004 no Pará e Amazonas. A pecuária gera hoje oito milhões de empregos diretos e indiretos no país.
"A criança vai crescer com a informação que recebeu e também vai cobrar em casa se o pai e a mãe estão fazendo o que foi ensinado na escola. Não há ninguém melhor para cobrar uma ação do que a criança", diz o presidente do Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) do Mato Grosso, Décio Coutinho.
O Indea mantém um programa de educação sanitária que tem como uma das suas frentes o trabalho nas escolas. Representantes do instituto vão até os municípios do estado falar sobre doenças animais aos professores, que depois são encarregados de repassar o conteúdo aos alunos da primeira a quarta série do ensino fundamental. O principal objetivo, de acordo com Coutinho, é mostrar aos professores e estudantes os prejuízos econômicos causados pelas doenças. O programa começou no ano passado e até agora atingiu 11 municípios.
Cartilha contra tuberculose
No Rio Grande do Sul são os técnicos das Inspetorias Municipais, ligadas ao Departamento de Produção Animal (DPA) do estado, que vão até as salas de aula. O programa foi reativado no ano de 2000, após sete anos suspenso, e atinge desde o ensino fundamental até o médio. "Falamos principalmente das zoonoses, doenças que podem ser transmitidas de animais para pessoas", diz a responsável pelo setor de educação sanitária do DPA do Rio Grande do Sul, Rosane Colares. A brucelose, por exemplo, é uma doença que pode ser repassada do homem para o animal ou do animal para o homem e que causa esterilidade nos dois.
De acordo com Rosane, os técnicos costumam trabalhar o tema com atividades interativas, como as redações. Para as crianças das séries iniciais, o DPA criou uma cartilha sobre a tuberculose para ser colorida. O material relata a rotina de uma família de produtores rurais. Na historinha, o filho pede à mãe, que está ordenhando a vaca, para beber o leite direto da caneca. A mãe responde que não se deve tomar o leite sem fervura pois se o animal tiver tuberculose, a doença será transmitida.
O DPA promoveu no ano passado cerca de 2 mil encontros com palestras sobre aftosa, o que incluiu a visita às escolas. Os encontros reuniram 31.865 pessoas, entre elas os estudantes. As reuniões são feitas principalmente na época de vacinação contra febre aftosa. "As informações transmitidas aos pais pelos filhos tem um poder de sensibilização grande", diz Rosane.
Aula no barco
Para completar a série de iniciativas espalhadas no país, também o governo federal implantou, no final do ano passado, um programa de educação sanitária chamado "Brasil Livre de Aftosa". Entre os dias 24 de novembro e 04 de dezembro uma equipe percorreu os municípios de Santarém, Monte Alegre e Oriximiná, no Pará, para falar sobre o combate à febre aftosa.
Como parte do programa, estudantes de escolas locais receberam noções de sanidade animal durante uma viagem de barco em rios próximos das cidades. Em cada local que o programa passava, o governo promoveu uma verdadeira festa, com show de grupos folclóricos, cantores e conjuntos regionais, para despertar a atenção da população para o tema.
O próprio ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, fez a abertura das atividades. Rodrigues já afirmou mais de uma vez que a sanidade animal é prioridade da sua pasta. O próximo destino do programa deve ser o estado do Maranhão, na região nordeste do país.

