São Paulo – O Brasil tem interesse na negociação de um acordo comercial com a Argélia. O assunto fez parte da pauta dos encontros do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com autoridades argelinas que ocorreram nos últimos dois dias em Argel, capital do país árabe. “Quem sabe não lançamos em breve negociações para um acordo-quadro na área comercial entre o Mercosul e a Argélia, primeiro para a concessão de preferências tarifárias fixas e mais tarde um acordo de livre comércio”, disse o chanceler, segundo informações do Itamaraty.
Nos últimos anos o Mercosul deu início a negociações do gênero com o Egito, Marrocos e o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), bloco que reúne Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã, inclusive com a assinatura de acordos-quadro. Até agora, no entanto, nenhuma das iniciativas se transformou em tratados de comércio propriamente ditos.
O Brasil, porém, já tem convênios de cooperação com a Argélia em outras áreas e durante a visita de Amorim foram assinados mais seis, sendo três no setor agrícola, dois na seara da saúde e um sobre pequenas empresas. Em reuniões com o presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, e com o primeiro-ministro, Abdelaziz Belkhadem, o chanceler falou sobre o lançamento de uma “parceria renovada” entre os dois países “com forte cooperação bilateral nas áreas de desenvolvimento industrial e produção agrícola”.
A idéia é ir além dos acordos pontuais existentes hoje e desenvolver uma parceria ampla, incluindo instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Vale lembrar que a Embrapa tem bastante conhecimento acumulado sobre lavouras no semi-árido e que a Argélia tem clima seco na maior parte do seu território.
O Brasil tem interesse especial em equilibrar sua balança comercial com a Argélia, tradicionalmente superavitária para o país árabe, que é grande produtor de petróleo e gás. Mesmo com o aumento das exportações brasileiras e a diversificação da pauta, o desequilíbrio tem se mantido em função do alto preço do petróleo.
Para se ter uma idéia, as exportações do Brasil à Argélia renderam US$ 206 milhões entre janeiro e maio deste ano, sendo que os principais itens embarcados foram açúcar, carne bovina congelada, cereais, lácteos, máquinas e peças, material elétrico, café, veículos e autopeças, equipamentos da área de defesa e papel.
Já as importações somaram mais de US$ 1 bilhão no período, sendo que os principais produtos comprados pelo Brasil foram petróleo e derivados (quase a totalidade da pauta), fosfatos e couros.
Nesse sentido, além da negociação de acordos, Amorim disse ao presidente e ao primeiro-ministro que a Argélia deveria ampliar suas importações do Brasil e citou como exemplo os aviões fabricados pela Embraer. Segundo ele, há interesse preliminar de uma empresa aérea local chamada Tassili, que é ligada à Sonatrach, estatal argelina do petróleo.
O chanceler conversou também sobre os investimentos brasileiros no país e as obras atualmente tocadas por construtoras do Brasil. A Randon, de implementos rodoviários, e a Neobus, de ônibus, têm linhas de montagem em Argel. Já a Andrade Gutierrez toca uma série de empreendimentos de infra-estrutura em território argelino.
Amorim se encontrou também com o ministro delegado do Ministério da Defesa, Abdelmalek Guenaizia. Eles falaram sobre possibilidades de intercâmbio nessa área e, durante o encontro, receberam um telefonema do ministro brasileiro da Defesa, Nélson Jobim, que convidou seu colega argelino a visitar o Brasil. Segundo o Itamaraty, há interesse recíproco de cooperação na área militar e de vigilância territorial. Ambos os países, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores, têm vastas regiões escassamente povoadas, fronteiras distantes e porosas e ameaça de ações de grupos ilegais.
O Itamaraty informou que Amorim teve também “uma discussão instigante” com o presidente Bouteflika sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
O chanceler ainda participou da reunião da Comissão Mista Bilateral Brasil-Argélia, ao lado de seu colega argelino, Mourad Medelci.

