São Paulo – O Brasil vai perseguir a liderança mundial em etanol de segunda geração, feito a partir de celulose. A afirmação foi feita ontem (01) pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, na abertura do 2º Ethanol Summit, encontro que reúne profissionais da cadeia do Brasil e exterior, no Hotel Sheraton, em São Paulo, até a próxima quarta-feira (03). Segundo Dilma, que representou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro, além de manter a liderança mundial em etanol, o governo está disposto a consegui-la também em etanol de lignocelulose.
Dilma lembrou que a Petrobras terá uma planta demonstrativa de etanol a partir da segunda geração pronta em setembro de 2010. A fabricação para escala comercial vai iniciar em 2012. O etanol produzido a partir da celulose foi um dos grandes temas do primeiro dia do encontro. O Brasil tem condições de produzir, segundo estimativas lançadas no encontro, 17,3 bilhões de litros de etanol de segunda geração em 2020. O país está desenvolvendo tecnologia para fazer a produção a partir do bagaço da cana-de-açúcar.
Um dos executivos que falou sobre o tema foi Steen Riisgaard, presidente da NovoZymes, empresa multinacional de bioinovação, que tem operações no Brasil e trabalha com pesquisas na área de etanol a partir da celulose. De acordo com projeções de Riisgaard, em 2020, 27% de todo o etanol produzido no Brasil, que deverá estar em 65,3 bilhões de litros ao ano, será de segunda geração. A expectativa, de acordo com ele, é que possam ser exportados 15,7 bilhões. A NovoZymes atua com pesquisa na área no Brasil, na China e Estados Unidos.
“Mas essa é a praia de vocês (a área de etanol). Vocês já exportam biocombustíveis, essa é a vantagem em relação aos Estados Unidos e a China”, falou ele. Existe uma corrida mundial, principalmente por parte do Brasil e dos Estados Unidos, pela tecnologia e produção em etanol de segunda geração, que deve ser um dos grandes combustíveis verdes do futuro. Riisgaard disse que na Europa há um grande apoio ao consumo de etanol a partir da segunda geração. “Tudo está caminhando para que a segunda geração substitua a primeira”, afirmou ele.
Ricardo Madureira, presidente da Cana Vialis, empresa da Monsanto que trabalha na pesquisa por novas variedades da cana, falou sobre os tipos de produto que vem sendo desenvolvidos pela companhia para produção de etanol com a biomassa. As pesquisas caminham, segundo ele, para uma cana com mais fibra, menos açúcar, mais biomassa. De acordo com ele, é possível triplicar o valor da biomassa com as novas variedades. Isso deve permitir uma maior produção de etanol a partir da mesma quantidade de cana-de-açúcar.
Os investimentos
A produção desta tecnologia deve tornar o setor ainda mais atrativo para os investimentos externos. A fabricação de etanol no país já atrai os estrangeiros. Segundo números divulgados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), os estrangeiros possuem atualmente 22 usinas no Brasil. Esse número deve passar para 31 até a safra 2012/2013. Nesta época, dos atuais 7%, a participação externa no segmento deve passar para 12%. Segundo o presidente da Unica, Marcos Jank, a maior parte do capital externo vem dos Estados Unidos e da Europa.
O setor é um dos que tem maior investimento sobre o seu faturamento no Brasil, de acordo com Jank. Foram R$ 20 bilhões investidos em quatro anos. Segundo o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, no primeiro quadrimestre deste ano o banco liberou R$ 3,2 bilhões para investimentos em etanol, 36% mais que no mesmo período de 2008. No ano passado inteiro foram dados de crédito ao segmento R$ 6,5 bilhões. Segundo Dilma, em 2004 o valor estava em R$ 680 milhões.
Combate ao aquecimento
O Ethanol Summit também foi um grande painel de defesa do etanol como ferramenta contra o aquecimento global. O biocombustível é capaz de reduzir as emissões de CO2 em 90% se comparado a gasolina, segundo dados divulgados ontem. Desde os anos 70 o Brasil deixou de emitir 600 milhões de toneladas de gás carbônico em função do uso do etanol, segundo Jank. A necessidade de combate ao aquecimento global também foi tema da palestra do ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, convidado do evento.
Clinton falou sobre o Protocolo de Kyoto e justificou o fato de os Estados Unidos não o terem assinado. O ex-presidente falou que poucos países – apenas quatro – devem conseguir cumprir suas metas. “Quem sabe outros quatro mais”, disse ele. De acordo com Clinton, estes países sabiam que não conseguiriam cumprir as metas porque não podiam responder “como” fariam isso. O Brasil, segundo ele, teve sucesso ao responder “como” reduziria as suas emissões de gás carbônico, com os investimentos em etanol e cana-de-açúcar.
Clinton elogiou as ações do município de São Paulo pela redução da emissão de poluentes, mas afirmou que no Brasil 75% das emissões vêm do desmatamento e da agricultura. Ele defendeu a adoção de um acordo mundial na área ambiental, que substitua Kyoto, para a comercialização dos créditos de carbono. Segundo ele, isso permitiria deixar “a floresta intacta”. Ele afirmou que Brasil e Estados Unidos devem adotar este sistema e trabalhar juntos em ações de combate ao aquecimento global.
Pelo social
No encontro de ontem a Única também lançou dois programas que vão beneficiar o setor produtivo do etanol. Um deles se chama Agora e vai divulgar os benefícios do uso das energias limpas. Um dos braços do programa engloba a disseminação de informações, em 11 mil escolas de oito estados a respeito do tema. Também haverá um estudo para o lançamento de números mais precisos sobre o setor. O outro programa se chama Renovação e vai dar qualificação para trabalhadores da cana-de-açúcar. A intenção é preparar os cortadores de cana, que não terão mais trabalho em função da mecanização das lavouras, para trabalharem dentro das usinas ou em outros setores. Sete mil pessoas serão treinadas a cada ano.

