São Paulo – O Brasil quer desmistificar muito do que tem sido dito sobre os biocombustíveis ao redor do mundo, especialmente sobre o etanol. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros têm feito uma defesa enfática da cadeia brasileira do álcool em visitas a outros países e em fóruns internacionais. Para ir mais além, o governo vai promover em novembro, em São Paulo, uma conferência mundial sobre o tema com a participação de especialistas e autoridades dos quatro cantos do mundo.
“Os biocombustíveis viraram um dos assuntos mais queridos da imprensa internacional, estamos vivendo uma subida de patamar no debate sobre um tema que, para nós, é supernatural, pois crescemos convivendo com ele”, disse à ANBA o chefe do Departamento de Energia do Itamaraty, André Corrêa do Lago, um dos organizadores do encontro.
Se é natural para os brasileiros, que há mais de 30 anos usam o etanol em larga escala como combustível, o mesmo não ocorre em outros países. Segundo Lago, mesmo entre especialistas há muito desconhecimento sobre o assunto, algo que ficou evidente com a projeção internacional que o setor ganhou.
“Quando falamos do tema fora do Brasil muita gente fica perplexa, pois não tem informações básicas sobre ele”, afirmou o diplomata. “Acham, por exemplo, que é difícil fazer a mistura do etanol na gasolina. No Japão, por exemplo, ouvimos pessoas que acreditam que mais de 3% de álcool faz o carro explodir”, destacou.
No Brasil a quantidade de etanol na gasolina é de 25%. Além disso, o país usa o álcool puro como combustível. Os carros “flex fuel”, que hoje são a maioria esmagadora dos veículos fabricados pela indústria nacional, funcionam com gasolina, etanol, ou qualquer mistura dos dois. “Muitos europeus ficam incrédulos quando a gente conta que os carros que o Brasil importa da própria EU já vêm preparados para funcionar com 25% de etanol”, acrescentou Lago.
O diplomata acrescenta que a há certa dose de preconceito, especialmente na Europa, sobre avanços tecnológicos promovidos por países em desenvolvimento. Nesse sentido, ele diz que o progresso brasileiro na área do etanol é visto como algo “no máximo exótico” e não constam autores do Brasil na bibliografia dos estudos sobre o tema realizados pelos europeus.
Alimentos
Além das questões técnicas, o Brasil quer racionalizar a discussão sobre a relação dos biocombustíveis e os alimentos. A agroenergia tem sido apontada por países e entidades internacionais como uma das vilãs do aumento dos preços dos alimentos em escala internacional, e o governo brasileiro tem se empenhado em explicar mundo afora que, no caso do país, o setor não disputa espaço com a produção de gêneros alimentícios.
O etanol brasileiro é fabricado a partir da cana-de-açúcar e não de matérias-primas que também servem de base para a alimentação humana e de animais, como o milho usado para produção de álcool combustível nos Estados Unidos. Além disso, o Brasil tem vasta área ainda a ser aproveitada para todos os tipos de culturas, não sendo necessário o avanço da cana sobre outras lavouras ou áreas de preservação.
De acordo com Lago, não existe um órgão multilateral exclusivo para os biocombustíveis, então a questão acaba sendo discutida em diferentes fóruns, como a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e a Agência Internacional de Energia (AIE). Ou seja, o debate acaba não incluindo de uma vez todos os aspectos que ela engloba, como agricultura, energia e meio ambiente.
“Queremos que haja uma consciência sobre isso, e de que o diálogo tem que ser feito de forma transversal, incluindo seus diversos aspectos e especialidades”, afirmou o diplomata. Em sua opinião, o assunto não pode ser simplificado, uma vez que a produção de biocombustíveis depende da realidade de cada país: em alguns pode ser uma grande oportunidade, em outros pode haver limitação de espaço, restrições ambientais ou riscos para a produção de alimentos.
Petróleo
Outra questão que o Brasil quer desmistificar é a que os biocombustíveis são concorrentes do petróleo. Na visão brasileira, porém, eles jamais vão substituir os combustíveis minerais na matriz energética mundial. O que pode ocorrer é que a adição do álcool à gasolina ou do biodiesel ao diesel venha diminuir o ritmo de crescimento do consumo de petróleo.
Inicialmente a conferência em São Paulo deveria servir para discutir questões mais técnicas, como a padronização internacional do etanol com vistas em transformá-lo em uma commodity. A percepção de que existe muita falta de informação sobre o tema, levou o governo brasileiro a mudar o foco e transformá-lo em um evento mais didático. “Precisamos disseminar informações para criar um diálogo informado”, ressaltou Lago.
Nesse sentido, o governo brasileiro pretende reunir entre os dias 17 e 21 de novembro não apenas ministros e outros funcionários de governos, mas especialistas de diversas partes para um debate público. Lago acrescentou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está produzindo até um livro sobre o tema.
“Vamos fazer um grande esforço de disponibilização de informações precisas e honestas”, concluiu. Estão sendo convidados representantes de todos os países membros da ONU, inclusive chefes de estado e de governo.

