Alexandre Rocha
São Paulo – O Brasil tem condições de atrair investimentos dos países árabes, mas para tanto, na opinião de especialistas no assunto, precisa apresentar regras claras que dêem segurança aos investidores, divulgar o potencial de seus setores mais dinâmicos e demonstrar que sua economia tem condições de crescer de maneira sustentável. Em entrevista publicada ontem (17) pela ANBA, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, disse que é preciso colocar o Brasil no circuito dos investimentos árabes "que estão à procura de países amigos e seguros".
O secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), Michel Alaby, considerou positivas as declarações de Dirceu, mas disse que o país precisa apresentar um "pacote pronto" para atrair os investidores árabes "O Brasil precisa levar o pacote pronto para eles. Levar a lição de casa e mostrar as razões para investir, detalhar o quadro normativo e as áreas da economia que podem interessar", disse Alaby.
Em sua avaliação, entre os setores da economia podem despertar mais interesse dos árabes estão os de energia, turismo, agroindústria e, "talvez", a siderurgia. "É que eles precisam muito do aço", disse Alaby. "Existe potencial para atrair investimentos externos em todos os setores dinâmicos da economia", acrescentou Fernando Ribeiro, economista da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet).
Recentemente o presidente da CCAB, Paulo Sérgio Atallah, disse que o relacionamento entre o Brasil e os países árabes precisa evoluir do comércio somente e passar a contemplar parcerias e investimentos em diversas áreas. O comércio, por si só, já vem aumentando bastante, mais de 50% este ano em comparação com 2003.
Há pouco mais de um ano começaram a surgir algumas iniciativas de investimentos árabes mais pesados que ainda não foram concretizadas. Em agosto de 2003, por exemplo, a Saudi Aramco, estatal do petróleo da Arábia Saudita, manifestou a intenção de aplicar US$ 1,4 bilhão na construção de uma refinaria de petróleo no Ceará.
Posteriormente, ao acompanhar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua viagem a cinco países árabes em dezembro de 2003, a governadora do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, reuniu-se com representantes de um fundo de investimentos de Abu Dhabi para discutir também a possibilidade de construção de uma refinaria em seu estado. Em maio, a governadora recebeu a visita de empresários dos Emirados Árabes Unidos que acenaram com a possibilidade de investimentos no setor de turismo.
Em março de 2004 a Arabian Gulf Oil (Agol) assinou um memorando de entendimentos com o governo do estado do Espírito Santo também com o objetivo de construir uma refinaria, no valor de US$ 2,5 bilhões. Ainda no primeiro semestre deste ano, representantes do governo da Líbia estiveram no Brasil e divulgaram a intenção de investir em projetos de irrigação e no agronegócio brasileiro.
E não são poucos os recursos existentes nos países árabes. Estima-se que, após o 11 de setembro de 2001, investidores árabes retiraram dos Estados Unidos algo em torno de US$ 300 bilhões. Além disso este ano, com o aumento dos preços do petróleo, as economias de vários destes países, principalmente os do Golfo Arábico, tiveram uma injeção extra de recursos.
Legislação e crescimento
Na seara normativa, Michel Alaby diz que duas ações que o Brasil pode tomar para ajudar na captação de recursos externos são a aprovação do projeto de lei das parcerias público-privadas (PPP), atualmente em tramitação no Congresso Nacional, e a assinatura de tratados bilaterais que acabem com a cobrança do imposto de renda sobre lucros e dividendos nos países de origem e destino dos recursos. "Assim quem mandar recursos do Brasil para os países árabes paga o imposto aqui, mas não paga de novo lá, e vice-versa", disse.
Além disso, economistas consultados pela ANBA afirmam que o Brasil precisa demonstrar sua capacidade de manter um crescimento econômico no longo prazo. "Com o crescimento, os empresários vêem oportunidades de negócios e isso desperta neles um instinto de investir. Mas para tanto eles precisam contar com uma previsibilidade", disse Fernando Ribeiro da (Sobeet).
Ele acrescentou que os investimentos diretos estão se tornando mais escassos em escala mundial e por isso é preciso apresentar uma economia competitiva para atraí-los. "Vários países em desenvolvimento, como o Brasil, estão competindo para atrair estes recursos", afirmou.
"Ter uma base de crescimento sustentável seria um incentivo para o investimento direto", acrescentou André Biancareli, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Estima-se que a economia brasileira vai crescer em torno de 4% este ano e o governo afirma que este crescimento é sustentável.
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, disse recentemente que o reaquecimento da economia brasileira é um processo sólido. "Todos os indicadores das contas externas, de investimentos e de crescimento mostram que nós não estamos num vôo de curta duração. O Brasil iniciou um novo ciclo", afirmou o ministro.
Para Biancareli, os investidores estrangeiros geralmente estão interessados no tamanho do mercado interno brasileiro e o aquecimento do consumo local é também um fator importante para a atração de recursos.

