São Paulo – O diplomata Roberto Abdalla viaja em outubro para a Cidade do Kuwait, onde vai assumir a embaixada brasileira. Nascido em Pernambuco, no Recife, e descendente de libaneses, Abdalla terá no Kuwait a sua primeira missão como embaixador. O diplomata leva com ele a vontade de aprofundar as relações econômicas entre as duas regiões e principalmente de atrair investimentos kuwaitianos para o Brasil. Formado em Economia, Abdalla vem da chefia da Divisão de Oriente Médio II do Itamaraty, onde acumula cinco anos de experiência no relacionamento com o mundo árabe. O diplomata também vai responder como embaixador no Bahrein, onde o Brasil não possui sede. Em entrevista à ANBA, Abdalla fala sobre os seus planos e também sobre a história do Kuwait e explica porque ele é considerado o mais democrático do Oriente Médio. Em visita a São Paulo, ontem (19), ele foi recebido pelo presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin, o secretário geral, Michel Alaby, o diretor-tesoureiro Nahid Chicani, e o diretor Bechara Ibrahim.
ANBA – Qual a sua experiência na diplomacia?
Eu entrei para o Itamaraty em 1983. Cursei Instituto Rio Branco nos anos de 1983 e 1984 e fui nomeado terceiro secretário então em dezembro de 1984. Minha primeira ocupação, no Ministério de Relações Exteriores, foi no Programa de Promoção Comercial, do Departamento de Promoção Comercial. Eu trabalhei na área por quase dez anos. De lá fui para o que na época se chamava Brazilian Government Trade Bureau, em Nova Iorque. O Brasil tem um consulado geral em Nova Iorque e nos anos 70 e 80 este escritório foi muito atuante. De lá eu fui ser chefe do setor de promoção comercial na embaixada em Nova Iorque, onde fiquei mais quatro anos. Voltei para o Brasil só em 1994. Daí minha carreira deu uma guinada. Fui ser assistente do cerimonial do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Fiquei quatro anos também no cerimonial e fui para a embaixada em Londres, onde fui chefe de gabinete do embaixador da época, Rubens Barbosa. Também fui chefe do setor cultural. Lá gerenciei o festival Brazil Five Hundred (Brasil 500 Anos), que foi feito em parceria com a FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado). De lá eu voltei para Brasília e fui chefe da Divisão de Difusão Cultural (do Itamaraty). Em seguida fui também chefe da Divisão de Planejamento de Pessoal e desde 2004 sou chefe da Divisão de Oriente Médio II, que cuida dos países do Golfo Arábico, incluindo Irã e Iraque.
E qual o motivo da sua nomeação? Era uma vontade sua ir para o Kuwait ou sua experiência acabou o levando aos países árabes?
Foi isso tudo. Acabou sendo uma sequência natural. Eu sou de origem libanesa e gosto de países árabes. Os países árabes são fascinantes. Quem gosta do tema, é difícil deixá-lo de lado, vai se envolvendo. Essa minha experiência de praticamente cinco anos na Divisão de Oriente Médio me incentivou a continuar nesta área. O ministro (de Relações Exteriores) Celso Amorim e o presidente da República (Luiz Inácio Lula da Silva) me brindaram com a oportunidade de assumir a chefia da embaixada do Brasil no Kuwait.
Como foi a sua relação com o Kuwait até agora?
O Kuwait é um país muito importante no Oriente Médio. Um país que tem um PIB considerável, o quarto maior destino das exportações brasileiras no Oriente Médio, e também a sexta maior corrente de comércio do Brasil com Oriente Médio, segundo dados de 2008. Então, o relacionamento do Brasil com o Kuwait tem uma vertente econômica comercial determinante. Eu tive o prazer de organizar uma visita do ministro Celso Amorim ao Kuwait em 2005, acompanhado de uma missão empresarial que foi organizada pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira.
Você já viaja com planos ou indicação do governo brasileiro para a sua atuação lá?
Olha, uma das prioridades do governo Lula é adensar o relacionamento com os países árabes. É uma diretriz de política externa do atual governo. Então, essa diretriz por si só já é determinante. O Kuwait como país árabe é importante e vamos procurar sempre reforçar os laços políticos, de amizade, comerciais e de investimento entre os dois países. Isso é um aspecto. O outro aspecto é que o Kuwait é um país que tem um grande potencial econômico-comercial a ser ainda desenvolvido. Não que ele não tenha sido desenvolvido até agora, mas ainda oferece muito espaço. Há imensas oportunidades comerciais a serem exploradas e também de atração de investimentos para o Brasil.
Há alguma área em que pode haver crescimento no intercâmbio comercial?
A nossa balança com o Kuwait é muito desequilibrada, que é um pouco o que acontece com todos aqueles países da região. Com exceção da Arábia Saudita porque da Arábia Saudita a gente importa petróleo. Os dados do ano passado mostram uma exportação brasileira de US$ 652 milhões para o Kuwait e importações de US$ 20 milhões. Mas não é que nós não queiramos comprar nada. Não é isso. O Kuwait, como a maioria dos países do Golfo, tem uma economia extremamente dependente do petróleo e seus derivados, petroquímicos, hidrocarbonetos. Então, a pauta de exportação destes países é concentrada. Já para nós é o oposto. Temos uma gama de produtos de exportação vastíssima. Nossa pauta de exportação é muito ampla.
Há como resolver isso, esse desequilíbrio na balança?
Se não resolver, há como compensar. Se você não pode compensar na própria balança, compensa com investimentos, com iniciativas políticas. Agora, no caso dos países do Golfo, é uma característica da própria economia deles. São países que têm uma concentração muito grande do seu PIB em um produto só. Cinquenta e dois por cento do PIB kuwaitiano vem de receitas deste setor.
Esse desequilíbrio não vai impedir o Brasil de tentar aumentar as exportações, não é?
Claro que não. Há muitas oportunidades, sobretudo no setor de alimentos. Carne de boi, de frango, alimentos variados, ovos, esses produtos todos formam um setor que é crescente, que pode ser mais explorados. Construção civil também é uma área que requer atenção. E a maior de todas é a de investimentos. O Kuwait é um dos países que mais investe no exterior.
Há algum setor no Brasil que pode despertar mais interesse do Kuwait para investimentos?
O Kuwait tem um fundo que se chama Kuwait Fund for Arab Economic Development (Kfaed), que dispõe de capital de cerca de US$ 250 milhões. E eles promovem investimentos a taxas razoáveis, com período de amortização também muito razoável. A idéia é atrair não só os fundos do Kfaed, mas também de outras áreas. O Kuwait é um investidor muito diversificado. Então, a gente pode atrair investimentos kuwaitianos para projetos sociais, imobiliários, na área de turismo, telecomunicações, na área financeira também. Investimento é uma questão de rentabilidade. Pode ser feito em qualquer área, depende da rentabilidade.
Há muitos brasileiro vivendo no Kuwait?
A comunidade brasileira no Kuwait oscila entre 120 e 150 cidadãos. Na sua maioria são senhoras brasileiras casadas com cidadãos kuwaitianos ou estrangeiros que trabalham no Kuwait.
Há algum plano de trabalhar com essa comunidade?
Em termos de comunidade brasileira no exterior, é um número reduzido. E muito circunstancial. Esposas de estrangeiros, brasileiras casadas com estrangeiros que trabalham em multinacionais ou com kuwaitianos. Não é uma comunidade brasileira carente de apoio como você tem nos Estados Unidos, na Europa. Claro, a embaixada e o setor consular da embaixada estarão sempre dispostos a prestar apoio e prestarão todo apoio que for necessário.
E na área cultural há necessidade de intercâmbio?
Há necessidade de intercâmbio sim. E o cultural é sempre muito importante. Quando a gente fala do cultural a gente fala da imagem de um país. Quando você exporta sua cultura, você está trabalhando a sua imagem. Há muito campo aí para ser trabalhado. É claro que é preciso haver uma adaptação das duas culturas para este intercâmbio. Mas há espaço em pintura abstrata, por exemplo, fotografia, literatura, música clássica.
E o senhor acredita que o Kuwait está a caminho de receber empresas brasileiras?
Acredito que é possível. Na área de petróleo deve ser aprovado o Projeto Kuwait, que vai abrir ao capital estrangeiro a exploração de petróleo no Norte do país. Isso está sendo discutido há algum tempo. Hoje ainda não é aberta a exploração aos estrangeiros.
Uma notícia do Kuwait que repercutiu no Brasil foi a eleição das parlamentares mulheres. Como é a participação feminina na política do Kuwait?
Em 2005 as mulheres obtiveram o direito de votar e serem votadas. Desde então elas vinham concorrendo. Algumas vinham concorrendo nas eleições do Parlamento, que é composto de 50 assentos. E até então nenhuma tinha sido eleita. Mas nestas últimas eleições de maio, quatro mulheres foram eleitas como parlamentares. E as quatro vêm de diversas facções da política kuwaitiana. Já havia no gabinete anterior duas ministras de estado. Agora há uma ministra de estado. O Kuwait, embora seja um país de costumes rígidos, é um país que politicamente tem um dos modelos mais avançados do Golfo. O Kuwait ficou independente do Reino Unido em 1961 e em 1962 já teve a sua constituição. O Kuwait é uma monarquia constitucional desde 1962. E em 1963 já foram convocadas eleições parlamentares. O Kuwait tem uma história, desde a sua criação, no século 19, de democracia. Quando a gente fala de democracia no Oriente Médio, a gente tem que entender que é um modelo um pouco diferente do nosso. Mas sem dúvida, é um dos países mais democráticos do Golfo.
O que tornou o Kuwait um dos países mais democráticos do Golfo?
É a história do país. Se tem notícia do Kuwait já na segunda metade do século 18. A ocupação do país se deu por tribos, originalmente vindas do que hoje é o território da Arábia Saudita e houve um acordo entre os dirigentes e os comerciantes. Os comerciantes elegeram a família Al-Sabah para cuidar de política, de política externa, de defesa e segurança, enquanto eles cuidavam de comércio e de economia. O Kuwait, desde as suas origens, tem esse acordo muito claro entre as famílias. Isso sempre levou uma organização social e política interna muito clara e definida. Desde muito cedo o Kuwait teve uma participação da sociedade muito ativa. Em 1921 houve já organização política interna em assembléias, em 1938 igualmente, o que culminou com a independência em 1961.
Como está o acordo Mercosul-Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), que vem sendo negociado. As empresas brasileiras não querem ceder na redução de tarifas para importação de petroquímicos do Golfo. Como está isso? Vai sair o acordo?
Na minha opinião o acordo vai sair. Eu não sei se a gente vai conseguir, num primeiro momento, fazer um acordo muito amplo já que há sensibilidades das duas partes. Do lado nosso são os petroquímicos. Mas eu acho que é possível, num primeiro momento, negociar um acordo parcial, no qual poderia se eliminar, por exemplo, a questão dos petroquímicos, se esse for o problema. Porque o acordo é amplo, não é só para bens e serviços, é também para investimentos. Então eu acho que é importante que saia. Quando há um arcabouço formal já se cria um espaço. Com um acordo desta natureza você cria um marco governo a governo, um espaço para o empresariado trabalhar.
E Brasil e Kuwait costumam trabalhar juntos em instâncias internacionais?
Nós procuramos sempre nos apoiar mutuamente em candidaturas, fóruns internacionais, nas Nações Unidas, etc. A gente tem, na medida do possível, procurado dar apoio um ao outro. O Kuwait é simpático à reforma do Conselho (de Segurança) da Nações Unidas, apóia o projeto do G-4 (aliança de países que querem assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas). Isso é algo importante.
E já há alguma atividade prevista, alguma visita de governo?
Há um convite do presidente Lula para que o emir do Kuwait, Sabah al-Ahmad al-Sabah, visite o Brasil, o que deverá ser precedido de uma visita do chanceler kuwaitiano, o xeque Mohammed Al-Sabah. Mas não há nenhuma confirmação de datas. Houve apenas um convite formal (do governo brasileiro) via chancelaria.
E como descendente, a cultura árabe estava presente na sua casa, na sua infância?
A cultura árabe é muito dominante. Eu sou libanês por parte de pai, de avô é avó. Por parte de mãe sou descendente de portugueses. E a cultura da família do meu pai predominou sobre a da família da minha mãe no dia-a-dia. Meus avós vieram do Líbano e se radicaram no Rio de Janeiro entre 1910 e 1920. Meu pai, então, já nasceu no Brasil e não fala árabe. E eu, como foi criado no Recife, longe dos meus avós, que moravam no Rio de Janeiro, não falo árabe. Mas comida árabe sim, estava muito presente (em casa).

