São Paulo – O diplomata Antonio Carlos do Nascimento Pedro será o novo embaixador do Brasil em Cartum, no Sudão. Antonio Pedro viaja ao país árabe e africano para assumir o posto no final de julho e leva com ele muitas expectativas. Uma delas é colocar à disposição dos sudaneses a tecnologia social brasileira, como os programas para a pequena agricultura que levam em conta a melhoria das condições de vida dos produtores. Outra é gerar intercâmbio na área arqueológica.
O diplomata também acredita que há muito a explorar nas relações econômicas, com o incentivo da cooperação em etanol e ao comércio bilateral. Para Antonio Pedro, o fluxo comercial entre Brasil e Sudão pode ser bem maior se houver mais conhecimento mútuo. "É preciso identificar as oportunidades de compra e venda", disse Antonio Pedro, em entrevista à ANBA. O diplomata esteve ontem na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, onde foi recebido pelo presidente da entidade, Salim Schahin, e pelo secretário-geral, Michel Alaby.
ANBA: Qual é a sua trajetória na diplomacia brasileira?
Antonio Carlos do Nascimento Pedro: Eu tenho 33 anos de carreira diplomática. Comecei na América do Sul, lotado na Argentina, depois fui para a China, para Havana, em Cuba, e depois, entre idas e vindas do exterior, passei por Lima, no Peru, e Genebra (Suíça), por duas vezes. Em Genebra, estive na missão brasileira junto às Nações Unidas. Mas essa será a minha primeira missão como embaixador. Eu fui convidado para assumir o cargo e aceitei com muito prazer. O Sudão é um país importante para o Brasil, um país com o qual queremos estreitar relacionamento, um país que tem um grande potencial de relacionamento com o Brasil. A idéia não é ensinar os sudaneses, mas aprofundar a cooperação, o comércio e também outras áreas onde possa haver intercâmbio.
A embaixada brasileira em Cartum é recente, não é?
Relações diplomáticas com o Sudão nós temos há aproximadamente dez anos. Elas se faziam pela nossa embaixada no Cairo, no Egito. Em 2004 o Sudão abriu uma embaixada em Brasília e nós, em 2006, passamos a ter uma embaixada em Cartum. Não são relações assim tão tenras, já têm uma década pelo menos, mas há espaço para fazê-las crescerem. O embaixador Hélio Magalhães de Mendonça foi o primeiro e eu serei o segundo embaixador do Brasil em Cartum.
O senhor leva alguma recomendação do governo brasileiro a respeito da atuação no Sudão?
A instrução para um embaixador que vai assumir o posto num país com o qual o Brasil tem relações diplomáticas, relações de toda natureza, é aprofundar os contatos, a cooperação, e procurar identificar temas que possam ser de interesse recíproco. O Brasil tem historicamente, por formação, uma afinidade com a África, e nós ainda não conhecemos o Sudão profundamente. O Sudão tampouco conhece o Brasil profundamente e uma missão, de um embaixador, neste estágio, é primeiramente essa, aprofundar os laços, identificar oportunidades, não apenas comerciais, embora sejam extremamente importantes, mas também culturais, de tecnologia social, de projetos que possam ser aproveitados pelas comunidades.
Há várias similaridades entre o Brasil e o Sudão. Os dois são os maiores países de suas regiões. O Sudão é o maior país africano. Em população está na faixa de 40 milhões e em território é seguramente o maior, com 2,5 milhões de quilômetros quadrados, com nove vizinhos fronteiriços. É um país que liga historicamente o Norte, o Egito, ao Sul, o Leste ao Oeste, é um país que tem saída pelo mar, que tem acesso direto ao Oriente e que sempre esteve na agenda internacional. É um país que tem uma história milenar.
Há áreas em que Sudão e Brasil estão mais próximos, como na área agrícola. Vemos muitos sudaneses no Brasil em busca da tecnologia do etanol. Há perspectiva disso se aprofundar?
Já há alguma coisa e eu vejo essa área de maneira muito promissora. E quando eu digo ‘promissora’ eu não estou usando uma palavra meramente diplomática. Os sudaneses estão abertos a essa cooperação e estão desejosos da presença do Brasil nesta área, em biocombustíveis, agricultura em geral. E aí há espaço para toda forma de cooperação. O Brasil tem expertise na área comercial ligada a isso, tem expertise na área da agricultura, técnica e científica, e tem expertise na área da tecnologia social voltada para comunidades em torno destes projetos. Eu mencionaria também a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A Embrapa é uma referência nacional e internacional e pode fazer muita coisa, não apenas em grandes projetos, mas também naqueles projetos que vão afetar positivamente as comunidades das áreas de influência destes projetos.
O Sudão está desenvolvendo o seu plano agrícola e entendo que há uma abertura para o Brasil avançar nesta área. Evidentemente que, em qualquer setor, quando se trata de dois países, não necessariamente os resultados surgem no curto prazo. Se pode ter algum resultado no curto prazo, mas é preciso também desenvolver uma conversa que tenha sustentabilidade, que preveja o médio prazo, o longo prazo. A relação de dois países não se constrói da noite para o dia.
Quando o senhor fala em tecnologia social, se refere a experiência brasileira das comunidades que plantam para a produção de biodiesel, por exemplo?
Também isso. O Sudão é 80% agrícola. Eles têm muito petróleo, mas ainda são caracterizados por uma agricultura de subsistência, uma agricultura familiar. E nisso nós temos muita experiência, inclusive com projetos em tecnologia social, aquela tecnologia que com poucos custos mobiliza recursos locais, engaja a comunidade e aumenta a produtividade. Me ocorrem alguns exemplos: cisternas, construção de habitação em áreas rurais, combate a algumas enfermidades que podem estar ocorrendo, apoio à pequena agricultura de subsistência, aumentando a produtividade, seja em leite de cabra ou outra área. Enfim, nós temos essa tecnologia social. Nós desenvolvemos uma série de ações de apoio às comunidades mais vulneráveis, mais carentes, e isso pode estar inteiramente à disposição.
Como o senhor avalia as nossas relações comerciais com o Sudão?
Ainda muito tênues. Caberia explorar mais aspectos, aprofundar o que já está em andamento, como a área de produção de álcool a partir de cana-de-açúcar. E aí você tem todo um universo, não apenas comercial, mas também de ciência e tecnologia, para explorar. O Sudão está muito aberto, desejoso de aprender, conhecer, entender e aplicar a experiência do biocombustível, por exemplo. Aí há o que fazer. Já há alguma coisa, a Dedini está presente lá. Mas se pode seguir aprofundando isso.
E o comércio efetivamente, entre Sudão e Brasil, como está?
É muito pouco, um volume irrelevante, tendo em vista o potencial dos dois lados. Aí também é preciso um esforço de médio e longo prazo porque é necessário identificar as oportunidades de compra e venda e o conhecimento recíproco. Talvez nós não tenhamos idéia do que o Sudão pode representar em termos comerciais e talvez também o Sudão não tenha idéia do que o Brasil pode oferecer e pode comprar. Esse casamento de oportunidades tem que ser trabalhado no médio prazo. Entendo eu que há grandes perspectivas. O Sudão hoje tem a terceira reserva de petróleo da África. Quem sabe o gás, cuja exploração lá ainda é muito incipiente, poderia ser também um elemento de comércio.
Já há alguma ação prevista na embaixada, alguma missão, encontro comercial?
Não há uma previsão, mas há o meu desejo de ter missões recíprocas. Pelo menos em duas áreas básicas, uma econômico-comercial e outra em cooperação técnica, ciência e tecnologia. E no fundo, as duas áreas, em vários pontos se juntam. Isso é um desejo que eu tenho, organizar essas missões recíprocas. O Brasil tem um sistema de consultas políticas com o Sudão. E agora foi criado um conselho empresarial Brasil-Sudão. Pode ser também uma boa plataforma para que a gente possa chegar a uma agenda mais estruturada.
E na área cultural, não temos muito intercâmbio com o Sudão, não é?
Não temos. E há muitas possibilidades. Por exemplo, em arqueologia. O Sudão é um país com dez mil anos de história. A partir dos anos 60 no Sudão houve toda uma política, inclusive apoiada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de descoberta de sítios arqueológicas e escavações importantes. A área que vai de Cartum ao Egito é a antiga Núbia. Aí estiveram os romanos, os otomanos, os ingleses, os egípcios. É uma área que sempre foi considerada estratégica nas agendas internacionais de cada momento. No século oito já era importante, não apenas pelo comércio, mas também pela localização estratégica de acesso a matérias-primas. Essa área sempre esteve muito sujeita a esse fluxo e refluxo de populações e é de grande atividade arqueológica, com equipes internacionais. O Brasil nunca esteve nisto, mas nós temos expertise, claro com limitação de meios e recursos. Mas se pode fazer um entendimento, por exemplo, entre o Museu Nacional de Cartum com o Museu Nacional do Rio de Janeiro, da Quinta da Boa Vista, talvez a USP (Universidade de São Paulo) pode ter interesse. É possível fazer alguma coisa, não apenas propiciar aos nossos investigadores essa experiência, mas também trazer sudaneses para intercâmbio com o Brasil em arqueologia.
Há ainda nesta área da arqueologia uma outra vertente, que modernamente se está chamando de vertente da escravidão. O Brasil recebeu uma diáspora africana e há um nicho de especialistas que estão dedicados a reconstituir essa história. No Brasil, em 1835, houve uma revolta de escravos na Bahia, que era dos escravos malês, que vinham da região que hoje é o Sudão. Eram muçulmanos, organizados, conscientes politicamente, intelectualizados, e se revoltaram contra a escravidão.
Como está atualmente a economia sudanesa?
O Sudão é um país africano que luta historicamente com a escassez de recursos. Eles têm muitos recursos minerais, agrícolas, em terras. Mas a questão é o recurso monetário, financeiro. Há cerca de cinco a seis anos eles começaram a exploração e exportação de petróleo. E se tornou uma das principais fontes de recursos no país. Mas com a crise e a queda dos preços do petróleo, esse quadro mais otimista diminuiu. E há também um movimento muito interessante, que tem a ver com economia, mas se liga à política, que é a idéia de compartilhamento econômico. Essa é uma idéia que o governo está aplicando no sul do país e outras áreas. Cartum sempre teve um papel predominante na vida política e a partir do acordo de paz, em 2005, essa idéia de compartilhamento de riquezas ficou plasmada. Mas não é só uma idéia: 50% da renda gerada pelo petróleo no sul fica no sul. E isso é algo importante. Claro que isso leva a uma necessidade de restruturação das insituições de governo e eles estão nisso agora.
Como é sua relação pessoal com o mundo árabe?
Qualquer brasileiro tem pelo menos duas vertentes: uma árabe e uma africana. E eu me insiro nisso. Acho que não é preciso, para um profissional, ser pertencente a uma família árabe ou de descendente de africano. Nós já temos essa naturalidade para tratar com o que é diferente. O mundo árabe está no nosso dia-a-dia. O mundo africano, nem falar. Quando se é profissional, o grande objetivo é aprofundar o entendimento entre os dois países. E aí incluo governo, sociedades, setores. Há uma possibilidade muito importante em vários setores, pensando-se do médio para o longo prazo. O Sudão reúne os dois elementos, o árabe e o africano.

