Isaura Daniel
São Paulo – A produção e o domínio da tecnologia do etanol vai dar ao Brasil um papel de destaque no setor energético. A afirmação foi feita ontem (20) pelo príncipe da Jordânia, El Hassan bin Talal, durante uma palestra aos alunos das Faculdades Metropolitanas Unidas (UniFMU), na cidade de São Paulo. "A posição do Brasil no desenvolvimento dos biocombustíveis deve dar ao país autoridade extra", disse o príncipe, demonstrando conhecer o desenvolvimento do setor no Brasil.
O país produziu no ano passado 17 bilhões de litros de álcool e deve chegar a 30 bilhões até 2010. O Brasil também está investindo em usinas de biodiesel, o diesel feito a partir de produtos vegetais, para usá-lo como alternativa ao derivado do petróleo. No ano passado já foram produzidos ao redor de 170 mil toneladas de biodiesel no país. De acordo com Talal, a transferência destas tecnologias para a África, por exemplo, poderá trazer benefícios ao continente tanto no campo ambiental como no social.
Em sua palestra, Talal destacou também a forma com que o Brasil vem desenvolvendo as suas relações internacionais. "A Ásia pode se beneficiar da experiência do Brasil em várias áreas: cooperação regional, relacionamento com grandes potências, políticas com instituições internacionais, cooperação sul-sul e sinergia entre desenvolvimento econômico e política externa", disse. Em função disso, o Brasil pode colaborar, segundo o príncipe, na promoção da igualdade global.
"O Brasil é uma ponte entre o mundo de Davos e de Porto Alegre", afirmou Talal. A cidade de Porto Alegre sediou, entre 2001 e 2005, o Fórum Social Mundial, que recebe lideranças sociais de várias partes do mundo; e Davos, na Suíça, sedia o Fórum Econômico Mundial, com líderes empresariais e políticos mundiais.
O príncipe falou sobre a necessidade de se criar uma nova ordem mundial humanitária, baseada na cidadania, no acesso à educação, saúde, justiça e segurança pública. Ele afirmou que o estabelecimento desta nova ordem deve ser uma iniciativa dos países em desenvolvimento. "Tenho certeza que esta iniciativa terá de vir do diálogo sul-sul", disse.
A paz
Dividir com a população os benefícios do crescimento, de acordo com o príncipe, também é essencial. "No centro do Oriente Médio temos a região mais populosa, mais pobre e mais perigosa do mundo. É também o lar dos recursos energéticos mundiais", afirmou. "Os que perderem a perspectiva vão recorrer à violência", disse, referindo-se ao terrorismo. Para o príncipe, a cidadania é uma das formas de promover a paz. "Acredito na cidadania", disse.
Ele afirmou que para que um novo modelo mundial seja implementado, a integração deve ir além dos governos e ocorrer entre a sociedade. "Esperamos que pessoas como vocês falem com seus iguais no mundo árabe sem intermediação de príncipes", disse para a platéia de estudantes. Para criar essa nova ordem, segundo Talal, é necessário identificar as pessoas e as instituições bem intencionadas. "Chegou a hora de promovermos juntos uma mudança na agenda internacional. É necessário a adoção imediata de um pacote pelo desenvolvimento humano", disse.
Homenagem
Talal, que está no Brasil acompanhado de sua mulher, a princesa Sarvath El Hassan, recebeu ontem também o título de doutor honoris Causa da UniFMU. A placa símbolo da homenagem foi entregue a ele pela reitora da instituição, Labibe Alves da Silva. Participaram da conferência, com perguntas e comentários, o secretário municipal de Educação, José Aristodemo Pinotti, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e professor da universidade, Marco Aurélio Mello, entre outras lideranças locais.
O príncipe é presidente do Clube de Roma, organização que reúne líderes e personalidades mundiais com o objetivo de analisar os problemas enfrentados pela humanidade. Pinotti, que faz parte do clube, é um dos organizadores da agenda de Talal no Brasil. Talal é irmão do rei Hussein da Jordânia, morto em 1999, e tio do atual monarca, Abdullah II.
No Brasil
Hoje, o príncipe se encontra com o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, que também integra o clube. Também estão previstos encontros com lideranças religiosas, com o prefeito de São Paulo, José Serra, e com dirigentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Na quarta-feira ele vai estar na Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Talal está no Brasil desde o início da semana passada.

