Isaura Daniel, enviada especial
Brasília – O Brasil vai começar a implementar um programa nacional para se tornar o líder mundial em biotecnologia dentro de 10 a 15 anos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou hoje (08) um decreto que cria uma política de desenvolvimento para a indústria da biotecnologia no país. O governo acredita que a biodiversidade existente no país coloca o Brasil em uma posição de vantagem em relação aos demais países.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, existem atualmente 1.700 grupos do setor público, acadêmico e privado trabalhando com biotecnologia no Brasil. O programa nacional deve orquestrar e dar suporte às atividades, além de facilitar a chegada dos resultados das pesquisas nas empresas.
Já neste ano de 2007 haverá, de acordo com informações do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, R$ 1 bilhão em recursos do poder público disponíveis para a pesquisa em biotecnologia no país. O dinheiro virá de linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e dos fundos setoriais, que são vinculados aos ministérios e provêm de impostos. Segundo o governo, os investimentos no setor podem chegar a R$ 10 bilhões em 10 anos, sendo 60% de recursos públicos.
O plano partiu de discussões entre o setor privado e público e terá o suporte de cinco ministérios que estão de alguma forma ligados à área: Saúde, Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, Agricultura e Meio Ambiente. A intenção é incentivar a aplicação de biotecnologia em cinco áreas: saúde, segurança alimentar e saúde animal, produtos industriais e qualidade ambiental.
Vai ser criado um comitê nacional com representantes dos cinco ministérios e do meio acadêmico para acompanhar o desenvolvimento do programa. A biotecnologia deve fomentar a produção e conseqüentemente o emprego no país, além de abrir portas no mercado internacional.
O Brasil, na verdade, já vem apresentando resultados promissores de pesquisas em biotecnologia. O ministro lembrou do trabalho do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), no qual foram desenvolvidos, por exemplo, corantes naturais para alimentos e cosméticos, e da fábrica baiana que produz moscas estéreis que ajudam no combate à mosca-da-fruta e são, inclusive, exportadas.
Com a biotecnologia, o Brasil chegou, por exemplo, a novas variedades de produtos como cana-de-açúcar e soja, adequadas tanto para regiões secas como regiões mais úmidas do Brasil. Isso sem falar da produção de etanol, resultado da biotecnologia, na qual o Brasil já é líder mundial.
O programa lançado hoje deve colaborar também para que o país importe menos remédios e se torne, inclusive, exportar de alguns deles. "Só em importações de vacinas contra a raiva o Brasil gasta R$ 80 milhões por ano", afirmou Furlan.
O Ministério da Saúde já dá suporte a vários programas que trabalham pela inovação em remédios. Um deles propõe a fabricação de fármacos a partir de microalgas marinhas. Outro o desenvolvimento de produtos voltados para doenças que são negligenciadas, como, por exemplo, a malária. Esse trabalho, bem como o voltado para as outras áreas, como a agrícola e a industrial, deve ser potencializado a partir do novo plano do governo.
Outra mão do programa deve chegar nas universidades. "O Brasil forma 10 mil doutores por ano. Vamos direcionar a formação de quadros em torno das prioridades definidas, buscar combinação entre a formação e os projetos", afirmou o ministro Furlan.
Os recursos estrangeiros e a participação estrangeira no desenvolvimento da biotecnologia também são bem-vindos, segundo a consultora para Biotecnologia, Fármacos e Medicamentos da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Adriana Diaféria. O Brasil, segundo ela, quer mostrar o quanto é avançado na área e com isso estimular também a interface com outros países.
Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Biotecnologia (Abrabi), o faturamento anual do setor de biotecnologia no país está estimado entre R$ 5,4 bilhões e R$ 9 bilhões. Dos 28 mil postos de trabalho gerados, 84% estão em micro e pequenas empresas.

