São Paulo – Uma brasileira do Rio Grande do Norte está ajudando a gerar renda entre mulheres palestinas que vivem em campos de refugiados. Sandra Guimarães, 31 anos, mora há cinco anos na Palestina, onde criou um projeto social com mulheres que são mães de filhos deficientes. Elas levam estrangeiros para dentro das suas casas, para ensinar a culinária local, e com isso ganham um meio de sobrevivência, além de melhora da autoestima. O projeto é independente e foi batizado por Guimarães de “Nur”, que em árabe quer dizer "luz".
Nos dois primeiros anos em que morou na Palestina, a brasileira trabalhou voluntariamente com crianças para uma organização não-governamental no campo de refugiados de Aida. Oferecia, pelas tardes, horário em que as crianças não estavam na escola, oficinas de nutrição e saúde bucal, com atividades lúdicas e brincadeiras. “Oitenta por cento das crianças do campo de Ainda têm anemia”, conta Guimarães, informando ainda que, além de mal nutridas, muitas são obesas, em função da alimentação inadequada. Escovação de dentes também era algo que não fazia parte da rotina dos pequenos. O trabalho abrangeu 150 crianças de seis a 12 anos.
Há três anos, porém, ela resolveu criar o seu próprio projeto, voltado para mulheres. “Ser mulher árabe já é difícil, muito mais num campo de refugiados”, diz ela, em entrevista por telefone à ANBA. Por sugestão de um profissional das Nações Unidas, ela se voltou para as mulheres com filhos deficientes. Para colocar o plano em pé, porém, ouviu estas mulheres. Formou uma espécie de clube, com reuniões periódicas, onde elas discutiam os seus problemas e necessidades. “Eu não quero impor as minhas ideias”, afirma.
Foi então que elas chegaram à conclusão de que não fariam quase nada sem dinheiro. Entre os problemas das mulheres estavam o preço alto das fraldas para os filhos, o fato de que as escolas da ONU, que são gratuitas, não aceitam deficientes. Apenas as escolas pagas recebem estas crianças, explica a brasileira. Surgiu a ideia do curso de culinária para estrangeiros. Era uma forma de as mulheres terem uma renda e não precisarem sair das suas casas. “Criamos uma fonte de renda e também de mais confiança nelas mesmas, que sempre viveram à sombra dos maridos”, relata. A taxa de desemprego, no campo, é de 70%.
Quando dão o curso de culinária, as mulheres palestinas também levam os estrangeiros para um tour na região onde moram e contam um pouco das suas vidas para que eles conheçam o que é um campo de refugiados. Ela afirma acreditar que essa é uma melhor opção para os turistas conhecerem os campos, do que o estilo “safári”, onde os estrangeiros simplesmente chegam e tiram fotos das crianças. “Isso não é respeitoso”, diz, comparando ao turismo nas favelas do Brasil. As mulheres também oferecem aos estrangeiros outra opção, que é passar um dia ou um dia e meio em suas casas, conhecendo a cultura local.
Sandra Guimarães mora atualmente na Belém Antiga. Ela desembarcou na Palestina pela primeira vez no final de 2007, vinda de Paris, na França, onde morava. Tudo começou durante uma viagem que fez, a Budapeste, e para a qual não levou nenhum livro para ler. Comprou, então, no aeroporto, uma revista de antropologia cuja edição era toda dedicada à Palestina. “Eu pensei: vou comprar para ver se eu entendo de uma vez essa história da Palestina”, conta. Depois de ler ficou por várias noites sem dormir, pensando na realidade do país. Começou, então, a planejar sua ida a Palestina, mas não queria ir como turista.
Em dezembro de 2007, a brasileira viajou ao país árabe com uma organização não-governamental para fazer um trabalho voluntário de duas semanas. Vinte dias após a volta para a França já tinha interrompido o mestrado que fazia, em Linguística, e o emprego de babá, juntado todas as suas economias e estava novamente no país árabe. Procurou a ONG que tinha visitado no campo de refugiados de Aida e ofereceu o trabalho voluntário. A ideia inicial era passar seis meses, mas faz cinco anos que ela esta lá.
Ao Brasil, a linguista volta a cada ano para visitar a família. Guimarães conta que antes de se mudar para a França, aos 20 anos, ela não pensava em questões sociais e mundiais como a da Palestina. Vinda de uma família com poucos recursos e estudo, aos 13 anos ela decidiu que faria faculdade fora do País. E aos 14 anos começou a trabalhar e a juntar dinheiro para isso. Quando terminou, então, o ensino médio técnico em Turismo, aos 19 anos, estava quase pronta para viajar para a França. Em Paris, dedicou um ano apenas ao aprendizado do francês. E depois fez a faculdade de Linguística. Trabalhava como babá para poder estudar.
O fato do trabalho na Palestina envolver culinária não é por acaso. Quando estudava linguística, a brasileira se deu conta de que seu objeto de pesquisa, no dia a dia, normalmente era em culinária e não na área acadêmica a qual se dedicava. Morando na França, Guimarães se tornou vegana e isso fez com que pesquisasse ainda mais culinária, para encontrar formas de se alimentar sem nenhum produto animal ou derivado dele. “Cresci no Nordeste, comendo carne de sol, mas me tornei vegana por razões éticas”, relata.
Na Palestina ela encontrou o que queria: um trabalho que transformasse o mundo e que envolvesse cozinha. Guimarães não vive, porém, do trabalho que desenvolve com as mulheres no campo de refugiados de Aida, que é voluntário. Por dois anos ela sobreviveu das suas próprias economias e agora faz alguns trabalhos extras, como aulas de idiomas e traduções. Em junho deste ano, porém, Sandra Guimarães terá que deixar Belém, por questões de visto, e provavelmente se mude para a Faixa de Gaza.
Contato
Sandra Guimarães
E-mail: papacapimveg@gmail.com
Site: http://papacapimveg.com/

