São Paulo – A administradora pública e economista Ana Carla Fonseca, professora de pós-graduação da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, vai dar uma palestra sobre Cidades Criativas no dia 14, na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo. Em entrevista por e-mail à ANBA, ela disse que “não há uma visão homogênea do conceito”, mas, “em uma frase, criativa é uma cidade que se reinventa permanentemente”.
São cidades norteadas por três características: inovação, conexões e cultura. No Brasil, segundo ela, é difícil localizar políticas públicas que se enquadram no conceito de forma mais integral, e cita exemplos de cidades como Copenhague, Amsterdam, Nova York, Lisboa e Rosário, na Argentina. No mundo árabe, a referência é Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, “por uma série de iniciativas que refletem a existência de um programa mais estruturado de transformação”. Leia a seguir a entrevista e as informações sobre a palestra:
ANBA – Qual é o conceito de cidades criativas?
Ana Carla Fonseca – Não há uma visão homogênea do conceito de cidades criativas. Para tentar lançar mais luz sobre os vários entendimentos e buscar características comuns a elas, organizei em 2008, com a colaboração de um colega dos Estados Unidos, a primeira sistematização mundial dessa temática. Foi um estudo voluntário, reunindo 18 profissionais que vêm trabalhando a proposta de cidades criativas com solidez conceitual e experiência prática. Convidamos propositadamente colegas de 13 países, tão diversos como Taiwan, Noruega, África do sul e Colômbia, de cidades dos mais diversos portes, histórias e perfis socioeconômicos. O estudo se converteu em um livro digital, gratuito e bilíngue (Cidades Criativas – Perspectivas) e revelou que, em uma frase, criativa é uma cidade que se reinventa permanentemente.
Ela se baseia em três características gerais, que lhe servem de norteadores. A primeira é a de inovação. Inovações, aqui, são das mais diversas ordens e entendidas como novos produtos, serviços, processos e olhares com valor percebido, resolução de problemas e aproveitamento de oportunidades – de nanotecnologia a tecnologias sociais, do reaproveitamento de resíduos sólidos a tecnologias verdes. A segunda característica são as conexões – entre público e privado, entre áreas da cidade, entre sua história e sua visão de futuro, entre ela e suas cidades vizinhas ou o resto do mundo. E, por fim, cultura, em três dimensões: pelo que traz de mais identitário; anímico e simbólico; por seu impacto econômico; e por ajudar a formar um ambiente propício à criatividade.
Quais exemplos a senhora pode citar de políticas que se enquadram nesse conceito?
Por políticas você entende políticas públicas? Ainda é difícil localizá-las no Brasil de forma mais integral, como acompanhamos em cidades como Copenhague, Amsterdã, Nova York ou mesmo Lisboa e Rosário, nas quais os cidadãos são envolvidos nos processos de decisão que concernem sua cidade (vide o orçamento participativo nas escolas lisboetas e a multa social dada pelas crianças de Rosário aos motoristas que estacionam em locais proibidos) e nas quais o estado assume um papel de incentivador de inovações (como o trabalho de cultura de bicicletas, capitaneado pela Dutch Cycling Embassy, de Amsterdã, os programas de investimento em empreendedorismo criativo de Copenhague e toda a série de ações voltadas a espaço público e transporte, em Nova York).
Que iniciativas as empresas podem promover dentro deste modelo?
Há uma miríade de possibilidades, a exemplo de empresas imobiliárias que investem na saúde das relações com e no entorno de seus estabelecimentos, em uma estratégia clara de valorização do território e do ecossistema no qual seus próprios funcionários atuam; ou da plataforma colaborativa Sampa Criativa, que desenvolvemos a pedido de Fecomércio-SP, Sesc e Senac, que inspirava os cidadãos a elaborarem propostas para melhorar a cidade em uma série de eixos (de negócios a espaço público, de comunicação a inovações sociais), colocando-se como protagonistas na realização dessas mudanças. Foram geradas centenas de matérias, inclusive sobre negócios tradicionais que se reinventam com criatividade e coletadas mais de 800 propostas em seis meses, publicadas abertamente e encaminhadas semanalmente à Prefeitura e à Câmara de Vereadores (www.criaticidades.com.br/sampacriativa).
A senhora conhece exemplos dos países árabes? A Masdar, em Abu Dhabi, por exemplo, se encaixa no modelo?
Um local que vem se destacando na região é Abu Dhabi, por uma série de iniciativas que refletem a existência de um programa mais estruturado de transformação. Do planejamento 2030 à construção do distrito cultural (com cinco grandes equipamentos icônicos, dedicados sobretudo à cultura regional, na chamada “Ilha da Felicidade"), da geração de inovações voltadas à sustentabilidade urbana, à conversão em polo de atração de talentos recém-graduados em universidades de ponta.
Serviço:
Palestra Cidades Criativas
Ana Carla Fonseca
Dia 14 de outubro, às 19 horas na Câmara Árabe, Av. Paulista, 326, 17º andar, São Paulo, SP
A entrada é gratuita, mas limitada a representantes de empresas e associados da entidade
Informações e inscrições: (11) 3147 4066 – tmachado@ccab.org.br


