São Paulo – A Câmara de Comércio Árabe Brasileira criou, há cerca de três semanas, um comitê voltado para investimentos. O grupo de trabalho, formado por diretores e gerentes da entidade, vai atuar na atração de investimentos árabes para o Brasil e brasileiros no mundo árabe. De acordo com o vice-presidente de Comércio Exterior da Câmara Árabe, Wladimir Freua, líder do comitê, já está programada a realização de dois seminários, um no Kuwait e outro nos Emirados, no mês de abril, para falar sobre economia brasileira e ambiente para investimentos.
Nos encontros, que terão a parceria do Ministério do Turismo e participação da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os setores de infraestrutura para turismo e infraestrutura em geral também serão mostrados a potenciais investidores. Além dos já programados, estão sendo planejados outros dois seminários, na Líbia e Arábia Saudita, para o segundo semestre.
O vice-presidente de Comércio Exterior da Câmara Árabe acredita no aumento do fluxo de investimentos árabes para o Brasil nos próximos anos. Segundo ele, o Brasil se habilitou como o grande captador de investimentos, fora do eixo Europa-Estados Unidos, nos últimos anos. O fato de o Brasil ter saído praticamente ileso da crise de 2008 é um dos grandes propulsores dos investimentos que virão, de acordo com Freua.
Além do comitê de investimentos, a Câmara Árabe criou outros comitês, como de comércio exterior e de turismo. A iniciativa tem como objetivo ampliar e aprofundar as ações da entidade, e, principalmente, garantir a atuação em todos os 22 países da Liga Árabe. Veja abaixo a entrevista de Freua a respeito do comitê de investimentos e da vinda de capitais árabes para o Brasil.
ANBA – Quando a Câmara de Comércio Árabe Brasileira criou o comitê de investimentos?
Wladimir Freua – O comitê de investimentos foi criado, por iniciativa do nosso presidente (Salim Taufic Schahin), há cerca de três semanas. Ele é composto por mim, que sou vice-presidente de Comércio Exterior, pelo nosso assessor de Relações Internacionais, Alberto Paiva, pelo nosso secretário-geral, Michel Alaby, pelo titular do Departamento de Desenvolvimento de Mercado, Rodrigo Solano, pela titular do Departamento de Comércio Exterior, Francisca Barros, pela gerente de Marketing, Andrea Monteiro, cada um na sua especialidade. A Câmara tem no seu estatuto, além das atividades de natureza cultural, a atuação em comércio exterior, que é o foco principal e tem sido a área de notoriedade da Câmara, a área de turismo, na qual já há um comitê funcionando há cerca de um ano, com resultados excelentes, e o setor de investimentos. Neste campo é importante ressaltar que o comitê atuará nos dois sentidos, fomentando tanto investimentos árabes no Brasil quanto investimentos brasileiros no mundo árabe.
Por que a Câmara Árabe resolveu criar os comitês?
A Câmara Árabe vem crescendo em todos os sentidos e se corresponde, formalmente, com todos os 22 países árabes. Isso traz uma demanda adicional para o relacionamento porque é preciso atender a todos. A criação destes comitês, então, ocorreu para ampliar o leque de atuação da Câmara Árabe, para que todos os países sejam igualmente atendidos, tanto em termos institucionais, quanto em termos de negócios, na área cultural, de turismo e, agora, de investimentos.
E por qual motivo foi criado o comitê de investimentos?
A Câmara Árabe já teve algumas experiências no passado, de conversar com alguns seletos países árabes sobre investimentos no Brasil. Eu, particularmente, tive o privilégio de fazer apresentações sobre o Brasil para investidores qualificados em Dubai, nos Emirados Árabes, e na Cidade do Kuwait, e lá estava também presentes investidores de Abu Dhabi. Era algo embrionário. Foi feito um seminário de apresentação do Brasil. Falou-se do ambiente macroeconômico do Brasil, do ambiente para investimentos, da segurança jurídica, cambial e do sistema financeiro brasileiro, entre outros aspectos. Depois visitamos alguns investidores nestes países e notou-se interesse. Só que isso foi em 2002. O Brasil já era um foco de atração de investimentos, porém, não como nos dias de hoje. Especialmente depois da crise de 2008, o Brasil despontou como, entre os países viáveis, um dos mais viáveis. Por todas essas razões, como temos tido alguma demanda de investidores árabes, querendo conhecer o Brasil, saber como investir no Brasil, quais os mecanismos de investimentos, como colocar dinheiro, como retirar, criamos o comitê.
Quando vão ocorrer os seminários na Cidade do Kuwait e Abu Dhabi?
Na última semana de abril.
Quais temas serão abordados nos seminários?
Os seminários se dividem em três grandes módulos. O primeiro módulo é Brasil. Quem é o Brasil, qual é o tamanho do Brasil, área, PIB, renda per capita. Vamos falar do sistema financeiro brasileiro, do Conselho Monetário Nacional, Banco Central, CVM (Comissão de Valores Mobiliários), mostrar como isso funciona, quais os tipos de instituições financeiras autorizadas a operar no Brasil e como cada uma delas pode ser útil para interagir com eventuais investidores do mundo árabe. Ainda, nesta primeira etapa, nós deveremos falar sobre política cambial brasileira, flutuação e mecanismos de cotação, assim como prerrogativas de ingresso e retirada de capitais, facilidades, etc… Vamos mostrar como funciona o universo cambial brasileiro. Na segunda etapa do seminário vamos abordar investimento em infraestrutura para turismo e na terceira parte vamos falar em investimentos em infraestrutura geral, principalmente sistema elétrico, geração, transmissão e distribuição de energia, concessões públicas de rodovias, ferrovias, portos, etc… Esses seminários deverão consumir o período da manhã. Estamos procurando audiências selecionadas, qualificadas, com não mais do que 20 a 22 investidores de cada um destes países para visitas individuais. Queremos ver se os responsáveis pelos fundos soberanos ou dos grandes fundos destes países participam do seminário e teremos um dia e meio, em cada uma das cidades, para visitas a investidores.
Que ações o comitê vai englobar?
Já definimos para o segundo semestre de 2010 a realização de seminários na Arábia Saudita e Líbia, com programa idêntico aos primeiros. Também estamos conversando com possíveis parceiros no Brasil para trazer comitivas de investidores árabes para o país. Isso seria conseqüência dos seminários e visitas técnicas. A nossa participação é eminentemente institucional.
Essas ações servirão para o Brasil atrair investidores árabes, não é?
Os seminários, na verdade, são um trabalho de conscientização. A primeira parte do seminário é de conscientização, para mostrar quem é o Brasil, por que investir no Brasil, como investir no Brasil. A segunda e terceira partes são de sensibilização para setores no Brasil. Ou seja, mostraremos quais são os grandes setores. E ainda não vamos abordar setores enormes, como o de agrobusiness. Nesta área o comitê de investimentos vai trabalhar para definir a modelagem para a sensibilização dos árabes. É algo que será feito no segundo semestre.
Quais, já podemos dizer, que são setores promissores, no Brasil, para atração de investimentos árabes?
Eu diria que há investidores e investidores. Há árabes que vão investir visando o longo prazo. E neste caso se encaixam investimentos para 20, 30 anos. Para este perfil de investidor, infraestrutura através de concessões públicas é uma área que se apresenta como adequada. São concessões por 30 anos e permitem ainda, com elevado grau de certeza, definir o rendimento ao longo dos anos. Depois há os investidores de curtíssimo prazo. Esses podem investir em bolsa, em títulos brasileiros. E há o investidor de médio prazo, para projetos, por exemplo, de agropecuária. Hoje, no mundo, segurança alimentar é a palavra de ordem. E no Brasil nós temos terra, temos tecnologia, mão-de-obra, grande parte dos insumos. O Brasil, através dos investimentos estrangeiros pode ser, mais do que nunca, o celeiro do mundo. E não podemos esquecer de setores como o de turismo. Turismo tem sido a mola propulsora para vários países e o Brasil é particularmente privilegiado. Nós temos montanhas, praias, florestas, nós temos o apelo brasileiro, o povo cordial, hospitaleiro, temos futebol, carnaval.
Uma área na qual temos ouvido falar de investimentos árabes é na imobiliária. É interessante para o Brasil atrair capital árabe neste setor?
Todo capital é bem-vindo. Principalmente o capital de médio e longo prazo. Ele é estável, gera menos stress na nossa política cambial de curto prazo. O setor imobiliário é caracteristicamente investimento de médio e longo prazo. Não se fala em retorno do setor imobiliário em menos de cinco ou dez anos. E é relativamente estável. O modelo de titulação da propriedade no Brasil dá um conforto importante ao investidor, diferentemente de outros países. O setor imobiliário será, certamente, ao longo do trabalho de comitê de investimentos da Câmara Árabe, um dos focos da nossa atuação.
Há várias notícias de investimentos árabes no Brasil nos últimos anos. Eles estão vindo mesmo?
A grande verdade é que o Brasil se habilitou como grande captador de investimentos de fora do eixo da Europa e Estados Unidos. Veja a Espanha. A Espanha investe no Brasil de 20 anos para cá. Entrou nas privatizações do setor de telecomunicações. Antes era muito pouco o investimento espanhol. O que se tinha era basicamente investimento norte-americano, alemão, inglês e alguma coisa de italiano. Hoje já se tem investimentos das mais diferentes origens, inclusive dos árabes.
Esses investimentos estrangeiros vieram em função da nossa melhora na economia?
Vieram em função da percepção de risco. Claro, há empresas que investem porque querem ganhar market-share, mesmo com um risco maior. Há empresas que investem uma sobra de capital, então aceitam um risco maior, investem esperando uma taxa de retorno maior. Há alguns anos se falava nos BRICs, Brasil, Rússia, Índia, China. “Esses são os quatro”, se dizia. Hoje, estes países não estão mais no mesmo nível. A China é a grande captadora de investimentos, até pela posição geopolítica dela, e há clara percepção de que o Brasil é o segundo colocado no ranking de interesse dos investidores.
Uma mudança de governo pode mudar isso?
O investidor de longo prazo está preocupado com algumas coisas. A primeira, e talvez a mais importante, é saber qual é a estabilidade política do país. Eles vão nos perguntar sobre risco político. Mas quem investe por 20 anos, 30 anos, não está olhando este governo e nem os próximos, está olhando a estabilidade do ambiente político e jurídico no longo prazo. As instituições jurídicas são sólidas? O sistema financeiro brasileiro é sólido? O sistema financeiro brasileiro passou quase incólume pela crise. Alguns bancos de porte menor tiveram alguma dificuldade, mas logo resolveram, e os grandes bancos ficaram muito firmes. O sistema financeiro brasileiro, com dificuldades localizadas, passou incólume pela crise. Em pouquíssimo tempo já estavam concedendo crédito. O Brasil passou, eu diria, por alguma instabilidade na primeira eleição do presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002), quando não se sabia bem o que ele ia fazer, o que não ia, então o câmbio flutuou bastante, os juros cresceram. Mas pouco depois se viu que as instituições eram maiores do que qualquer governante. Depois tudo reverteu e o Brasil está indo muito bem.

