Alexandre Rocha
São Paulo – As câmaras de comércio têm um papel importante na promoção dos investimentos estrangeiros diretos. A opinião é do secretário-geral da União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, Elias Ghantous. "As câmaras de comércio, como representantes do setor privado, podem ser essenciais na identificação de áreas para investimentos e para guiar os investidores em direção a certas oportunidades", disse ele em entrevista à ANBA por e-mail.
O papel das câmaras na promoção dos investimentos e na transferência de tecnologias será um dos temas debatidos durante o seminário "Desenvolvimento do Investimento e Transferência de Tecnologia nos Países Árabes por meio da Cooperação Árabe-Européia", que será realizado nos dias 26 e 27 de novembro em Cartum, capital do Sudão. O objetivo do encontro, organizado pela União das Câmaras, é promover os investimentos no mundo árabe e ampliar as exportações da região para a Europa.
De acordo com Ghantous, a agricultura é um dos setores que mais necessitam de recursos no Oriente Médio e Norte da África, uma vez que os árabes importam a maior parte dos alimentos que consomem. "Mas a indústria também precisa de grande atenção", declarou. Em sua avaliação, a criação de uma base industrial moderna na região vai trazer desenvolvimento e crescimento econômico.
A União Geral convidou a Câmara de Comércio Árabe Brasileira para participar do fórum e o secretário-geral da entidade, Michel Alaby, deverá comparecer. Para Ghantous, com uma base agrícola e industrial forte, o Brasil pode servir de exemplo para nações árabes.
O economista Ghantous, de 65 anos, dirige a União Geral há quatro. A entidade, sediada no Líbano, foi criada em 1951 e opera sob a esfera da Liga dos Estados Árabes. Ela congrega câmaras árabes localizadas nos países árabes e fora deles. Seguem os principais trechos da entrevista:
ANBA – Quais são os objetivos do seminário?
Elias Ghantous – A idéia principal por trás deste seminário é promover os investimentos entre os países árabes e europeus, o que pode criar possibilidades de exportação de produtos árabes para o continente europeu, particularmente agora que a União Européia foi ampliada com o ingresso de 25 países com grande potencial de compra de produtos dos países árabes. Este seminário pode ser encarado como a seqüência de um outro, que ocorreu na Liga Árabe no Cairo. Chegou-se à conclusão de que o espaço para as exportações árabes é muito limitado com a estrutura produtiva existente. A ampliação da capacidade de produção, com investimentos e tecnologias européias, certamente vai ampliar este horizonte.
Quais países e câmaras de comércio vão estar representadas?
Basicamente todas as câmaras árabe-européias, junto com representantes de empresas e organizações européias. Do lado árabe, investidores representando uma vasta gama de segmentos vão participar com o objetivo de verificar as possibilidades de cooperação em projetos de investimentos, aproveitando de tecnologias e padrões de produção europeus para garantir um real aumento das exportações árabes para a Europa. Este é o primeiro seminário do gênero que vai reunir partes interessadas da Europa e do mundo árabe e vai tentar identificar interesses mútuos nas áreas de capital, insumos e tecnologias.
Por que Cartum foi escolhida para sediar o evento?
Cartum é um lugar estratégico para investimentos no mundo árabe. Além do grande potencial agrícola, o país está emergindo para a estabilidade econômica e social, após o acordo de paz, e os seus recursos financeiros estão melhorando com a produção de petróleo. Ao mesmo tempo, o Sudão está muito interessado em aprofundar a cooperação com outros países árabes e com a Europa. É essencial ter em mente que o Sudão tem grande necessidade de transferência de tecnologias para ajudar na modernização de sua economia e aplicar conhecimento científico em sua agricultura, hoje dependente das condições naturais do clima e do solo.
Um dos painéis será sobre o ambiente para os investimentos nos países árabes. O senhor poderia falar um pouco sobre este assunto?
Como você deve saber, o ambiente para os investimentos nos países árabes tem melhorado rapidamente com a introdução de novas leis sobre o assunto, que garantem ao investidor estrangeiro um tratamento igual aos locais, além da livre remessa de lucros ao exterior. A "Inter Arab Guarantee Corporation" (instituição que fornece seguros para investimentos árabes), sediada no Kuwait, modificou seu estatuto para incluir joint-ventures entre empresas árabes e estrangeiras em seu campo de atividades, para proteger estes investimentos de riscos não comerciais. É fato que o retorno dos investimentos na maioria dos países é relativamente alto, mas em alguns casos pode haver obstáculos prejudicando os investimentos. Apesar disso, há uma percepção generalizada de que os investimentos estrangeiros diretos nos países árabes são bastante limitados.
Quais os setores onde há maior necessidade de investimentos e transferência de tecnologia?
A agricultura continua a ser uma prioridade nos países árabes, levando em consideração o grande déficit de alimentos que existe na região. Mas a indústria também precisa de grande atenção e a Europa pode ter um papel importante em investimentos que podem trazer desenvolvimento de forma ampla para vários setores, como os bens intermediários e de capital, ampliando o potencial de crescimento econômico e as possibilidades de desenvolvimento de uma indústria de alta tecnologia. Há também outras áreas para investimento, principalmente no setor de serviços, como turismo, treinamento e educação.
Um outro tema que será tratado é o papel das câmaras de comércio na transferência de tecnologia. O que exatamente as câmaras podem fazer nessa seara?
As câmaras de comércio, como representantes do setor privado, podem ser essenciais na identificação de áreas para investimentos e guiar os investidores em direção a certas oportunidades. Além disso, as câmaras podem ajudar na apresentação de tecnologias apropriadas para projetos que necessitem de know-how estrangeiro e, ao mesmo tempo, assessorar o investidor árabe no uso destas tecnologias de acordo com os seus recursos, da realidade do país e dos aspectos culturais.
O senhor encaminhou um convite para a Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Qual a contribuição que as empresas e o governo brasileiro podem dar nesta questão?
Para os países árabes o Brasil representa um exemplo ideal de um país que conseguiu desenvolver suas bases agrícola e industrial de maneira eficiente e viável. Essa é uma experiência que pode servir de exemplo para o desenvolvimento dos países árabes. Por isso a participação da Câmara Árabe Brasileira no seminário é importante. Ela certamente trará idéias para a transferência de tecnologia na agricultura e na indústria.

