Amã – O empresário Fernando de Arruda Botelho, acionista da Camargo Corrêa, uma das maiores construtoras do Brasil, apresentou na semana passada, durante a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Oriente Médio, um projeto de transposição de águas do Mar Mediterrâneo para o Mar Morto que, se levado adiante, vai ampliar o abastecimento de água e energia elétrica para Israel, Palestina e Jordânia, os três países visitados por Lula.
A idéia é construir um túnel para levar água do Mediterrâneo ao Mar Morto, o ponto mais baixo da Terra, localizado a 400 metros abaixo do nível do mar. No caminho, seria construída uma usina de dessalinização com capacidade processar 23 metros cúbicos por segundo e uma hidrelétrica de 15 mil megawatts, de acordo com Botelho.
Além da produção de água potável e energia, o sistema pretende abastecer o Mar Morto, que está secando. Hoje o lago de água salgada, localizado na fronteira de Israel, Cisjordânia e Jordânia, recebe água do Rio Jordão, cujo fluxo é bem menor do que no passado, pois existem diversos projetos de irrigação ao longo de seu curso. O abastecimento de água para consumo humano e para as lavouras é um problema sério na região, que tem clima bastante árido.
Botelho disse que a idéia surgiu após um sobrevôo que ele fez da Palestina e constatou uma situação "muito sofrida". "A Camargo Corrêa tem muita experiência em hidrelétricas”, disse ele à ANBA. “Fizemos um projeto que ficou muito bom”, acrescentou.
Já existe um projeto semelhante do governo da Jordânia, que pretende transportar água do Mar Vermelho, no sul, ao Mar Morto. Botelho diz que a obra a partir do Mediterrâneo é mais barata porque as distâncias são menores. Ele ressaltou, porém, que os dois projetos não são excludentes. "Água e eletricidade são commodities muito importantes para o mundo e para os países que as têm", declarou.
Além do know-how técnico, o empresário acredita que o projeto pode utilizar um modelo brasileiro no que diz respeito ao tipo de negócio. A proposta é formar uma empresa trinacional entre israelenses, palestinos e jordanianos, semelhante à Itaipu Binacional, companhia que administra a Hidrelétrica de Itaipu, que pertence aos governos do Brasil e do Paraguai e tem aval da Argentina para funcionar.
"É uma tentativa de unir israelenses e palestinos, o que não é fácil, mas o presidente Lula e o Itamaraty enxergam as opções que o Brasil pode ter na discussão da paz", afirmou o empresário.
Em discurso no seminário empresarial Brasil-Jordânia, realizado na quinta-feira passada, em Amã, Lula declarou que vê "com otimismo o engajamento da Jordânia nos projetos de construção de canais ligando o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo ao Mar Morto". "Será um passo decisivo para a integração do Oriente Médio, distribuindo água, comércio e prosperidade", disse o presidente, destacando a existência de oportunidades de troca de conhecimento com o Brasil.
Apesar do apoio governamental, a intenção, segundo Botelho, é fazer uma obra privada "com suporte do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)" e captação de recursos também no mercado financeiro.

