Alexandre Rocha, enviado especial*
Bagé, Camaquã e Esteio (RS) – Assim como o champanhe francês, o queijo camembert e outros produtos famosos, os pecuaristas do sudoeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina e o Uruguai, querem que a carne produzida por lá seja vendida no mundo inteiro com uma indicação de procedência, uma marca exclusiva que garanta ao consumidor que a mercadoria foi produzida na região e sob certos padrões de qualidade.
"Como nos casos do champanhe e do camembert, os produtores poderão proteger sua marca e ninguém mais vai poder usá-la", afirmou ontem (30) a coordenadora de agronegócio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Rio Grande do Sul (Sebrae-RS), Alessandra Souza.
Segundo ela, a indicação geográfica para carne bovina é inédita na América Latina, mas já foi adotada em países europeus, como Espanha, Portugal e França.
O processo está tramitando no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi) e Alessandra espera que em dois meses os produtores envolvidos no projeto comecem a receber as outorgas do direito de uso da indicação de procedência. Atualmente 40 pecuaristas participam, mas a tendência é que o número aumente, uma vez que existem cerca de 1,4 mil na região que compreende 1 milhão de hectares.
O produto, quando o processo for aprovado pelo Inpi, passará a ser designado como "Carne do Pampa Gaúcho da Campanha Meridional". Para receber a certificação de origem, no entanto, a carne terá de vir de rebanhos das raças Hereford ou Angus, criados em condições de pasto e solo específicas, além de seguir regras técnicas de produção, como a rastreabilidade.
Um dos produtores já envolvidos é o dono da Estância Santa Maria, em Bagé, Gedeão Pereira, que cria gado Hereford e Angus e também animais mestiços. Ele garante que a carne do animal puro é melhor do que a dos mestiços, mas hoje não consegue um preço mais alto por ela.
A idéia, com a indicação de procedência, é agregar valor aos rebanhos e conseguir preços melhores junto aos frigoríficos e no mercado internacional. "Este será um processo de médio a longo prazos, mas acreditamos que futuramente haverá um reconhecimento do mercado e isto será repassado aos produtores", afirmou Alessandra.
O projeto começou a ser desenvolvido faz um ano e meio e é de responsabilidade da associação de criadores da região, a Apropampa, e do Sebrae-RS. Na terça-feira (29), os envolvidos na ação assinaram um protocolo de intenções com o frigorífico Mercosul, durante a Feira Internacional de Animais (Expointer), que ocorre em Esteio, no RS. De acordo com Alessandra, no evento falou-se sobre pagar mais pelo gado com o selo de origem.
Hoje toda a produção de Gedeão Pereira vai para o frigorífico Mercosul e quase tudo é exportado. Em sua fazenda de 11,5 mil hectares ele cria em média 13 mil cabeças de gado e ocupa tradicionalmente 800 hectares com plantação de arroz num sistema de rotação no qual o cereal é plantado durante dois anos, em determinada área, e depois é substituído por pasto por quatro anos.
Médico veterinário, Pereira tem sua fazenda desde 1960. Ele é um grande entusiasta das raças de origem britânica que cria e prevê um desenvolvimento cada vez maior do mercado para a carne destes animais. Sua propriedade emprega 70 pessoas.
Diferentes modelos
Nem todo mundo no RS, porém, trabalha da mesma forma. Wilson Brochmann, outro grande pecuarista do estado, cria gado Limousin, de origem francesa, em uma fazenda de 1,3 mil hectares em Camaquã, cerca de 150 quilômetros ao sul da capital Porto Alegre. Seu objetivo, porém, não é vender o gado puro aos frigoríficos, mas cruzar os bois com vacas Nelore que ele mantém em quatro outras fazendas no Mato Grosso do Sul.
O que ele vende é o rebanho mestiço. "Assim nós combinamos a precocidade do Limousin com a rusticidade do Nelore", afirmou. Sua empresa, a Agropecuária Maragogipe, deverá entregar 16 mil cabeças ao frigorífico Marfrig até o final deste ano. Seus bois são abatidos, em média aos 24 meses, disse. A precocidade é semelhante à conseguida por Gedeão Pereira.
De acordo com ele, cerca de 95% da carne produzida por seu rebanho é exportada e países do Oriente Médio e Norte da África, como o Egito, estão entre os principais clientes. "Fico sabendo para onde vai a carne por causa do abate halal", afirmou. Brochmann já exportou também bois Limousin vivos para o Líbano. Além do Limousin, ele trabalha com cruzamentos de Angus com Nelore.
As quatro fazendas da Maragogipe no MS têm 20 mil hectares. Brochmann cria em média 40 mil cabeças no Brasil e outras 8 mil no Uruguai, onde tem uma propriedade de 6 mil hectares. Em Camaquã ele também usa cerca de 280 hectares para plantação de arroz. Sua empresa tem 90 funcionários.
*O jornalista viajou a convite da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec)

