Alexandre Rocha
e Isaura Daniel
São Paulo – Representantes de 79 empresas brasileiras vão participar hoje (25) de rodadas de negócios com empresários do Marrocos na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), em São Paulo. Os marroquinos são integrantes da delegação do rei Mohammed VI, que hoje vai se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília.
Segundo o embaixador do Marrocos em Brasília, Ali Achour, a visita ocorre num momento em que seu país promove um processo de abertura econômica e busca diversificar seus parceiros comerciais. "O fato da comitiva do rei contar com vários empresários é um sinal de nossa vontade de fortalecer as relações comerciais com o Brasil", afirmou.
Ao todo, 12 empresários liderados pelo ministro da Indústria e Comércio do Marrocos, Salah Eddine Mezouar, vão participar das rodadas de negócios, que começam às 11 horas. "A presença do ministro também é uma amostra da vontade política do Marrocos em relação ao Brasil, que já é o nosso principal parceiro comercial na América Latina", acrescentou Achour. Na abertura do evento, Mezouar vai fazer uma palestra sobre a economia de seu país.
"Este encontro será muito importante, porque vai ser olho no olho. É o momento em que você pode conhecer pessoalmente o empresário do outro país, estabelecer relações, trocar cartões e analisar as oportunidades. É o melhor tipo de contato comercial que existe", afirmou o presidente da CCAB, Paulo Sérgio Atallah.
Representantes de empresas brasileiras que vão participar acreditam que as rodadas terão um saldo positivo. "Procuramos mercados alternativos, onde não há tanta concorrência", disse José Arnaldo Bertola Uliana, diretor comercial da Madeireira Uliana, que fabrica esquadrias de madeira em Tietê, no interior de São Paulo.
A empresa já exporta 70% de sua produção, sendo que 5% desse total vai para os Emirados Árabes Unidos. Em 2005, a companhia, que já vende para regiões como Europa, Estados Unidos e Caribe, vai começar a exportar também para Argélia. Se fechar algum negócio com os marroquinos, serão três os países árabes em sua lista de clientes.
Já a Macul, que tem sede em Marília, também no interior de São Paulo, e fabrica fios de poliéster, fará, na CCAB, seu primeiro contato com potenciais importadores. A empresa nunca exportou, mas acredita que o Marrocos pode ser uma boa porta de entrada no comércio internacional.
"Não conhecemos muito o mercado do Marrocos, mas sabemos que os marroquinos são produtores de tapetes", afirmou o gerente de vendas da empresa, Paulo Nagib Macul. Os fios de poliéster são usados para fabricação de tapetes.
A companhia, fundada há mais de 60 anos, tem 50 funcionários e é de propriedade de descendentes de libaneses. "Crescemos muito nos últimos cinco anos, mas queremos crescer ainda mais. E por isso vamos tentar começar a exportar", disse Nagib.
O grupo de empresários marroquinos conta com importadores e exportadores. Eles estão interessados em comprar desde açúcar, café, soja e doces, até autopeças, fios e tecidos de algodão e poliéster, madeira, óleos vegetais e softwares do Brasil. Mas eles querem também vender produtos como sardinhas em lata e in natura, componentes eletrônicos, framboesas, alcaparras, alcachofras, fertilizantes, matérias-primas para cosméticos e roupas femininas.
Os empresários brasileiros que queiram participar ainda podem se inscrever junto ao departamento de marketing da CCAB (veja contato abaixo).
União Européia
Mais do que somente comprar e vender, de acordo com o secretário-geral da CCAB, Michel Alaby, os empresários marroquinos estão interessados em parcerias. O Marrocos, assim como outros países do norte da África, como o Egito, a Tunísia e a Argélia, já tem um acordo comercial com a União Européia e pode exportar para lá uma série de produtos com tarifa zero.
Isso, na opinião de Paulo Atallah, de Alaby, e do embaixador Pedro Motta, que é o chefe do departamento da África do Itamaraty, abre a possibilidade para empresas brasileiras instalarem unidades industriais no Marrocos e exportarem para a Europa.
"Empresas brasileiras podem usar uma unidade de produção lá e atender o mercado europeu com produtos de maior valor agregado", disse Atallah. "Essa é a idéia, utilizar o Marrocos como plataforma de exportação para a União Européia e até para os Estados Unidos", acrescentou Alaby, lembrando que o país árabe tem também um acordo de livre comércio com os EUA.
Na avaliação do secretário-geral da CCAB, as empresas podem utilizar matéria-prima e mão-de-obra marroquina e exportar máquinas, equipamentos e tecnologia brasileira, além de bens primários nacionais também. Ele citou alguns setores passíveis de investimentos no Marrocos, como a indústria alimentícia, principalmente a de pescados, de autopeças, a indústria têxtil e a de artefatos de madeira.
"Por que não instalar por lá, por exemplo, uma empresa para enlatar sardinhas? O Marrocos compra muita madeira do Brasil. Por que não abrir lá uma indústria de móveis?", questionou Alaby. O embaixador Ali Achour acrescentou que seu país tem também acordos comerciais com a Turquia e outros países do Mediterrâneo.
Acordos
Enquanto os empresários se encontram em São Paulo, em Brasília o rei Mohammed VI vai se reunir com o presidente Lula. Na ocasião serão assinados pelo menos três convênios, entre eles um acordo-quadro que vai marcar o início das negociações para um tratado de preferências tarifárias entre o Marrocos e o Mercosul. O Brasil ocupa hoje a presidência rotativa do bloco sul-americano.
"Este acordo é muito significativo para nós e para o Mercosul", disse Ali Achour. "Será o primeiro acordo do gênero que nós fazemos na América Latina. Consideramos muito importante o comércio com o bloco", acrescentou.
Os dois chefes de estado vão assinar também um convênio de cooperação na área de turismo para desenvolver a troca de experiências no setor. "Creio que a primeira etapa, e a mais importante nessa área, é o restabelecimento de um vôo direto entre o Marrocos e o Brasil", declarou o embaixador. Ele acrescentou que o gerente-geral da companhia aérea Royal Air Maroc é um dos integrantes da comitiva do rei.
Será firmado também um convênio entre o Instituto Rio Branco, que é a escola brasileira de diplomatas, e a academia diplomática marroquina, para intercâmbio na área.
Os dois países já começaram a desenvolver também projetos de cooperação nas áreas de agricultura, gestão de recursos hídricos, habitação e treinamento profissional. Achour disse que três delegações marroquinas, compostas por autoridades destes setores, vão visitar o Brasil entre o início e meados de dezembro para dar continuidade às conversas, que foram iniciadas em julho deste ano, quando uma missão brasileira com representantes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da Caixa Econômica Federal, do Serviço Nacional da Indústria (Senai) e de outras instituições, esteve no país árabe.
Contato
Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB)
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Tel: +55 (11) 3283-4066
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