Alexandre Rocha
São Paulo – Além da pesquisa, o desenvolvimento da agricultura no cerrado brasileiro foi impulsionado pelos produtores rurais, cooperativas e empresas que por lá se instalaram. A produção na região se tornou um negócio de grandes proporções e atrai investimentos pesados de companhias brasileiras e multinacionais de diferentes segmentos.
Um dos exemplos é a Perdigão, que já investiu R$ 411 milhões no seu complexo agroindustrial de Rio Verde, em Goiás. A planta, que a empresa diz ser a maior do gênero na América Latina, tem capacidade para produzir 194 mil toneladas de carne de frango por ano, mais 104 mil toneladas de carne suína e industrializar 160 mil toneladas de diversos tipos de carnes. O faturamento da unidade gira em torno de R$ 1 bilhão por ano.
A Perdigão levou para Goiás o modelo que já utilizava em outras unidades localizadas no Sul do país, com os chamados "produtores integrados". Ou seja, os produtores cuidam da criação em suas propriedades, mas com assistência técnica, insumos e os próprios animais fornecidos pela companhia.
Os frangos abatidos por lá abastecem vários mercados no exterior, incluindo Arábia Saudita, Omã, Emirados Árabes Unidos e Iêmen, todas nações árabes. O complexo conta com 6,4 mil funcionários, o que tornou a Perdigão a maior empregadora da região Centro-Oeste. De acordo com a empresa, foram criados mais 32,4 mil empregos indiretos desde que o centro começou a funcionar em 2000.
E a coisa não para por aí. A companhia informa que até 2007 os investimentos em Goiás, somando os recursos próprios e dos produtores integrados, vão ultrapassar a marca de R$ 1 bilhão e transformar o estado em seu principal pólo avícola. Além da ampliação da planta de Rio Verde, a Perdigão está construindo um outro complexo em Mineiros, tem negócios na área avícola em Jataí e no segmento de carne bovina em Cachoeira Alta.
Ainda no cerrado, a companhia anunciou que vai investir R$ 100 milhões para a ampliação de sua unidade em Nova Mutum, no Mato Grosso, comprada no ano passado por R$ 40 milhões. Mais R$ 117 milhões serão aplicados pelos avicultores integrados. Os investimentos serão realizados em quatro anos e, segundo a empresa, vão gerar 2,5 mil empregos diretos e 3,9 mil indiretos.
Em busca de fortuna
"Terras baratas e fartas e o desenvolvimento da tecnologia agrícola atraíram os produtores", disse Pedro Valente, gerente de produção da Divisão Agro do Grupo Maggi, outra gigante brasileira do agronegócio. Fundada por André Maggi, pai do atual governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, a empresa exemplifica a história dos diversos produtores do Sul do país que imigraram para o Centro-Oeste na década de 70 em busca de fortuna. "Eles já eram grandes produtores no Paraná e queriam expandir os negócios", afirmou Valente.
Hoje a companhia sediada em Rondonópolis (MT) comercializa cerca de 3 milhões de toneladas de soja por ano, sendo de 430 mil são de produção própria. Ela produz também 190 mil toneladas de milho e este ano deverá produzir 12 mil toneladas de algodão em pluma. A companhia tem ainda duas esmagadoras de soja e está construindo uma terceira e, além disso, tem negócios nas áreas de transportes e energia elétrica. Ela emprega 2,8 mil pessoas.
O desenvolvimento das tecnologias agrícolas foi essencial para a empresa. "A tecnologia permitiu um grande crescimento, se não fossem elas o negócio seria menor. O grande salto não foi nem na área plantada, mas na produtividade", disse Valente. Em sua opinião, no caso da soja, o desenvolvimento de novas variedades de sementes pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Fundação Mato Grosso, instituição privada de pesquisa, foi o principal indutor do ganho de produtividade. "Saímos de 35 a 36 sacas por hectare na década de 80 para mais de 50 hoje", acrescentou.
A meta na empresa é buscar cada vez mais produtividade, sem necessariamente ampliar a área plantada. "Estamos focados na produtividade e na racionalização daquilo que já foi aberto", declarou Valente. A companhia estuda, por exemplo, plantar mais algodão em terras hoje ocupadas por soja e milho, investir em culturas complementares, como o girassol, e diversificar a produção, o que pode incluir a construção de uma usina de açúcar e álcool.
Na área de logística o Grupo Maggi foi responsável pela construção da Hidrovia Madeira-Amazonas, que liga Porto Velho, em Rondônia, ao Porto de Itacoatiara, no Amazonas, e escoa a produção do oeste do Mato Grosso.
O cerrado é também terra de multinacionais do agronegócio, como Bunge, Cargill e Louis Dreyfus. A Bunge, por exemplo, compra 25% da soja e 10% do milho produzido no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Tocantins, segundo informações da própria empresa. Tem também diversas unidades de armazenamento de grãos e plantas industriais nos municípios de Luziânia (GO), Dourados (MS) e Rondonópolis. A companhia atua também no fornecimento de fertilizantes e emprega cerca de mil pessoas na região.
Fertilizantes essenciais
Como a agricultura no cerrado é inviável sem adubação correta, a região também atraiu as indústrias de fertilizantes. A Galvani, por exemplo, investiu cerca de US$ 120 milhões em uma fábrica no oeste da Bahia, onde se produz café. "Hoje esta unidade atende o oeste da Bahia e o sul do Piauí", disse o presidente da companhia, Rodolfo Galvani.
A Galvani explora também três jazidas de fosfato em Minas Gerais e na Bahia. A de Minas abastece a planta da empresa em Paulínia, no interior de São Paulo. Para atender o cerrado, a companhia tem também uma unidade misturadora de fertilizantes em Alto Araguaia, no Mato Grosso, junto ao terminal da Ferronorte, ferrovia que liga o sul do estado ao Porto de Santos, no litoral paulista. "Das 900 mil toneladas de fertilizantes que produzimos por ano, 500 mil vão para o cerrado e o resto para outras regiões", disse Rodolfo.
A empresa, que originalmente era uma transportadora, começou a atuar na fabricação de fertilizantes nos anos 80 e hoje tem 1,5 mil empregados e um faturamento anual de cerca de US$ 400 milhões. Seus principais produtos são o superfosfato e o ácido sulfúrico, que é utilizado na indústria.
Cooperação natural
As cooperativas também têm um papel importante no cerrado, embora ainda não totalmente explorado. De acordo com o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas, os primeiros assentamentos agrícolas no cerrado já seguiam o modelo cooperativista. De acordo com a OCB, em 2005 o número de cooperativas agropecuárias na região chegou a 218 com 110.941 associados. No Brasil existem 1.514 cooperativas voltadas para o setor.
Este tipo de empresa, segundo Freitas, responde por 40% da produção brasileira de grãos. No cerrado, porém, a participação é menor. "Elas ainda não se fazem tão presentes pelo porte da agricultura praticada na região, com grandes produtores individuais que têm maior autonomia e poder de barganha", disse.
Ele ressalta, no entanto, que com o tempo o processo de socialização torna-se natural e a tendência é que o número de cooperados aumente. "Mesmo sendo de grande porte o produtor percebe a importância de se organizar e começam a surgir as cooperativas. O objetivo é aumentar a escala de produção e o poder de negociação, além de reduzir custos", acrescentou.
Apesar da pesquisa e do empreendedorismo, o cerrado ainda tem obstáculos a superar. Um dos principais é a logística. Boa parte da produção da região ainda é levada para os portos de caminhão por estradas muitas vezes de má qualidade, o que onera os produtos e, dependendo do caso, pode tirar sua vantagem competitiva.

