São Paulo – O ministro da Indústria e Comércio do Egito, Rachid Mohamed Rachid, disse nesta quarta-feira (04), em entrevista exclusiva à ANBA, que, após a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e seu país, as relações comerciais entre egípcios e brasileiros podem mais do que dobrar em pouco tempo.
“Eu espero que esse número chegue a US$ 4 bilhões em três a cinco anos, posso ver isso ocorrendo”, afirmou Rachid, após reunião com a diretoria da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo.
Ele acrescentou que o Egito já importa diversos produtos brasileiros e há oportunidade para introduzir mais mercadorias egípcias no Brasil, como fertilizantes, químicos e farmacêuticos. “O Egito é o maior mercado do Oriente Médio e é o primeiro país árabe a firmar um acordo de livre comércio com o Brasil. Acredito que isso vai nos dar bastante vantagem”, declarou.
Rachid chegou ao Brasil nesta quarta-feira, após participar da Cúpula do Mercosul, na Argentina, onde o acordo foi assinado. Ele está acompanhado de uma delegação empresarial que participará de rodadas de negócios com empresas brasileiras na Câmara Árabe. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
ANBA – Após a assinatura do acordo de livre comércio com o Mercosul, quais são suas perspectivas sobre as relações comerciais do Brasil com o Egito?
Rachid Mohamed Rachid – Obviamente esse é um evento histórico para as relações entre Egito e Brasil. O acordo vai definitivamente levar o comércio para um novo patamar. Hoje nós temos cerca de US$ 1,7 bilhão de comércio entre os dois países, majoritariamente produtos exportados do Brasil ao Egito – e nós ficamos contentes em receber bens do Brasil -, mas tenho certeza que nos próximos três ou quatro anos nós vamos ver esse número mais do que dobrar. Eu espero que esse número chegue a US$ 4 bilhões em três a cinco anos, posso ver isso ocorrendo. Vão haver empresas envolvidas dos dois lados. Nós importamos muitos produtos agrícolas do Brasil, mas não é só isso que compramos, nós compramos aviões, equipamentos e estamos expandindo nossas relações. Do lado egípcio, nós começamos e vamos continuar a exportar fertilizantes, químicos, farmacêuticos, têxteis, dos dois lados. Há muitas possibilidades. Eu espero que o setor de serviços também cresça, como o turismo.
Quais produtos egípcios podem ser melhor aceitos no Brasil, aqueles que foram de maior interesse para inclusão no acordo?
Bom, fertilizantes são um [dos produtos]. O Brasil é um dos maiores importadores de fertilizantes e o Egito um dos maiores exportadores, então precisamos construir em cima dessa relação. Autopeças é uma área que também estamos vendo juntos, e nós vamos receber uma delegação do Brasil [no Egito] para focar nesse setor. Estamos olhando para as áreas de químicos em geral, têxteis, temos possibilidade também em móveis e alimentos. O Brasil vai ampliar seu mercado e vai ter necessidade de produtos de diferentes partes do mundo e acho que o Egito terá uma fatia. O Egito é o maior mercado do Oriente Médio e é o primeiro país árabe a firmar um acordo de livre comércio com o Brasil. Acredito que isso vai nos dar bastante vantagem.
O senhor acredita que o Egito será um pólo natural para produtos da América do Sul e vice-versa, por causa do acordo?
Claro, vejo o Brasil como um ponto de entrada para produtos egípcios nos mercados da América Latina. Vocês têm um bom sistema de logística, um bom sistema de distribuição e, claro, são também o maior mercado, então vão atrair a maioria das pessoas em busca de comércio e investimentos. A mesma coisa vale para o Egito, sendo o maior mercado e localizado no meio do Oriente Médio, vai ser uma porta de entrada para as empresas brasileiras nos países árabes, africanos e do Mediterrâneo. Eu acho que há muitas sinergias e interesses comuns que podem ser criados.
O senhor vai se encontrar com sua contraparte em Brasília, o que o senhor pretende conversar com o ministro Miguel Jorge e outros ministros?
Sim, eu vou me encontrar com os ministros da Agricultura, do Comércio, dos Transportes e das Relações Exteriores. O que vamos discutir é: agora que temos o acordo, o que temos que fazer – os governos do Brasil e do Egito – para construir a partir desse acordo? Esse é um grande evento para nós, essa é uma nova realidade, agora nós temos uma fundação real onde construir e precisamos engajar mais e mais a comunidade empresarial. Então eu vou discutir todas as possibilidades em áreas como agronegócio, logística, transportes, navegação, [troca de] delegações empresariais, promoção comercial, ou seja, um panorama geral das relações bilaterais. Eu digo ao meu pessoal: “O problema entre o Egito e o Brasil sempre foi a distância. Agora, após a assinatura do acordo, a distância foi cortada pela metade.” Esperamos que as coisas evoluam rapidamente.
Nesse sentido, no que a Câmara Árabe pode ajudar?
A Câmara tem um papel muito importante, pois o acordo depende da comunidade empresarial para ser ativado. Nós discutimos na Câmara alguns passos práticos, como a criação uma representação da Câmara no Egito e uma representação do Egito na Câmara. Nós vamos também aumentar os recursos dos dois lados. O governo vai determinar ao Banco de Desenvolvimento das Exportações do Egito, às câmaras de comércio do Egito e ao Conselho Empresarial Brasil-Egito. Eles vão discutir. Dei a eles 48 horas. Ao fim da sexta-feira (06) eu preciso de um plano, de datas e objetivos (membros dessas entidades fazem parte da delegação do ministro, que retorna ao Egito no sábado). Espero que nos próximos três meses haverá um papel muito maior para a Câmara.

