Alexandre Rocha
São Paulo – O comércio do Brasil com o Marrocos pode aumentar em até cinco vezes nos próximos 10 anos, principalmente após a assinatura de um acordo de preferências tarifárias fixas entre o Mercosul e o país árabe. A opinião é do embaixador Pedro Motta, chefe do departamento da África do Itamaraty.
"A corrente de comércio entre os dois países está na casa de US$ 450 milhões (até setembro), mas pode chegar a US$ 2 bilhões brincando. E eu acho que estou sendo muito conservador na previsão", disse Motta ontem (24) em entrevista à ANBA. "E este potencial existe também com outros países da África, como Egito, Argélia, Nigéria e África do Sul", acrescentou.
O rei do Marrocos, Mohammed VI, chega hoje (25) à noite ao Brasil e amanhã vai se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois chefes de estado vão assinar um acordo-quadro que será o pontapé inicial das negociações para um acordo de preferências tarifárias que, no futuro, poderá evoluir para um tratado de livre comércio. O Brasil ocupa hoje a presidência rotativa do bloco sul-americano, formado também por Argentina, Paraguai e Uruguai.
"Este será, de longe, o acordo mais importante a ser assinado durante a visita", afirmou Motta. "Antes da criação do Mercosul, os empresários brasileiros achavam que o comércio com a Argentina era algo marginal. Pergunte o que eles acham disso agora", disse Motta para exemplificar a força de um acordo comercial. Hoje a corrente de comércio entre o Brasil e a Argentina bate na casa dos US$ 10 bilhões. A Argentina é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos.
Motta espera que as negociações andem rápido e disse que o governo do Marrocos tem experiência no assunto, pois assinou, em 1996, um acordo de associação com a União Européia, que prevê a criação de um área de livre comércio até 2010, e, em junho deste ano, um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, que elimina tarifas de mais de 95% dos produtos do comércio entre as duas partes. O acordo demorou apenas 13 meses para ser concluído.
A opinião é a mesma do chefe da divisão da União Européia e negociações comerciais extra-regionais do Itamaraty, Ronaldo Costa. "O acordo-quadro do Mercosul com a Índia foi assinado em julho de 2003 e vamos assinar o de preferências agora em dezembro. Talvez com o Marrocos seja até mais rápido porque é um país que tem mais experiência na área", disse. "Todos os comunicados que mandamos para lá até agora foram respondidos com muita rapidez, o que é bem encorajador", acrescentou.
Costa afirmou que, após a assinatura do acordo-quadro, será formada uma comissão de negociação e vão começar as trocas de informações econômicas, comerciais e tarifárias. O tratado de preferências tarifárias, quando pronto, terá cinco anexos: de salvaguardas; de regras de origem; de solução de controvérsias; e duas listas de produtos, uma para cada parte. "O acordo será um estímulo, vai criar uma dinâmica que tende a favorecer o comércio. Será uma base para mais comércio", declarou.
Segundo informações da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, entre janeiro e outubro a corrente de comércio (exportações mais importações) entre os dois países somou US$ 497 milhões e já superou o total do ano passado, que foi de US$ 428,5 milhões. Após uma queda em 1999, as transações entre os dois países vêm crescendo de forma constante.
Plataforma de exportação
Na opinião de Motta, mesmo antes da conclusão das negociações, os empresários brasileiros devem procurar se aproximar dos marroquinos para tentar usufruir dos acordos que o país já tem com a UE e com os EUA.
"Existe a possibilidade de se explorar terceiros mercados. As empresas precisam estar atentas para o norte da África, não só para o Marrocos, mas também para a Tunísia, o Egito e a Argélia, que têm acordos com a UE. As empresas brasileiras poderiam se utilizar destes países como plataforma de exportação para outros mercados", afirmou o embaixador.
Segundo ele, a visita do rei Mohammed VI vai servir como um "catalisador para mostrar aos empresários as oportunidades que podem ser utilizadas desde logo".
A delegação do monarca conta com 12 empresários, representantes de associações setoriais e autoridades de várias áreas do governo.
Rodadas de negócios
Para mostrar e promover as oportunidades comerciais, amanhã a Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB) e a embaixada do Marrocos vão promover, na sede da CCAB em São Paulo, rodadas de negócios entre empresários dos dois países. Até o final da tarde de ontem, representantes de 53 empresas brasileiras já haviam se cadastrado para participar do evento. É possível se inscrever gratuitamente junto ao departamento de marketing da CCAB (veja contato abaixo).
Mais do que aumentar o comércio, Motta disse que existem possibilidades de investimentos recíprocos em setores como o de mineração, pesca e turismo. Os dois países já começaram a desenvolver projetos de cooperação nas áreas de agricultura, gestão de recursos hídricos, habitação e treinamento profissional.
Além do acordo-quadro, Lula e o rei vão assinar também convênios de cooperação nas áreas diplomática e de turismo. "A importância do setor de turismo não pode ser desprezada. Nós temos potencial, mas precisamos desenvolvê-lo. Países como o Marrocos sabem como conduzir esse seguimento e nós precisamos aprender", declarou o embaixador. Leia mais sobre a economia e o setor de turismo do Marrocos hoje na ANBA.
Ele destacou ainda que a visita do rei é importante porque o Marrocos tem um papel de liderança tanto na África, como entre os países árabes. Motta lembrou que o governo marroquino tem "apoiado muito" a iniciativa brasileira de organizar a reunião de cúpula dos chefes de estado árabes e da América do Sul, em maio de 2005. Tanto que a última reunião preparatória de chanceleres dos dois blocos será realizada em Marrakech, em março.
Mohammed VI desembarcou na terça-feira (23) no México, primeira etapa de sua vista à América Latina. Depois do Brasil, ele ainda vai passar pelo Peru, Chile e Argentina. Segundo informações da agência de notícias marroquina Maghreb Arabe Presse (MAP), a Confederação Geral de Empresas Marroquinas (CGEM), entidade nacional do empresariado do país árabe, considera que a viagem do monarca é uma oportunidade de "consolidar as relações econômicas" com os países visitados, além de "carregar uma forte mensagem de cooperação sul-sul".
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