Alexandre Rocha, Geovana Pagel e Marina Sarruf
São Paulo – As concessionárias das estradas de ferro brasileiras pretendem continuar a investir e de uma maneira até mais intensa do que fizeram nos últimos 10 anos, desde as privatizações. De acordo com informações da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), as operadoras vão aportar mais de R$ 10 bilhões no sistema até o final da década.
“Dentro de um planejamento estratégico, a previsão para este ano é de um investimento de R$ 2,351 bilhões. De 2007 a 2010 as cifras superam os R$ 2 bilhões por ano”, disse o diretor-executivo da ANTF, Rodrigo Vilaça. Desde 1996, as empresas investiram R$ 11 bilhões. Segundo Vilaça, os investimentos futuros também vão se concentrar na recuperação e manutenção das vias, compra de vagões e locomotivas e em tecnologia.
Ao todo são oito companhias privadas que operam um total de 11 malhas espalhadas pelo país. Há mais uma empresa, a estatal Valec, que opera a única ferrovia que ainda pertence ao governo, a Norte-Sul. O Ministério dos Transportes, no entanto, pretende realizar ainda este semestre licitação para a subconcessão da linha.
Aportes pesados
Uma das concessionárias que pretende continuar a investir pesado é a MRS Logística, que controla 1.674 quilômetros da Malha Sudeste da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. “No ano passado foram investidos R$ 400 milhões e este ano serão mais R$ 650 milhões. Até 2009 devemos investir algo em torno de R$ 2,9 bilhões”, disse o presidente da companhia, Julio Fontana Neto.
De acordo com ele, o capital será aplicado principalmente na compra de material rodante e em tecnologia. Em 2005, a MRS adquiriu 29 locomotivas e 750 vagões. Nos primeiros meses de 2006 ela já comprou 250 vagões e encomendou 50 locomotivas à GE, ao custo de US$ 2 milhões cada. Em março, e empresa assinou um contrato de US$ 70 milhões para a troca de seu sistema de sinalização e telecomunicações.
“Dentro da área de infra-estrutura estamos duplicando trechos e construindo pátios de trens”, afirmou Fontana. A empresa trabalha atualmente, por exemplo, na duplicação de 100 quilômetros de vias entre Barra Mansa e o Porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro.
Com tudo isso, a companhia pretende chegar até 2010 com capacidade para transportar entre 250 milhões e 270 milhões de toneladas de carga. Só para se ter uma idéia, todas as concessionárias transportaram no ano passado 392 milhões de toneladas úteis e a MRS somente, 108,5 milhões. A concessionária gera 3,1 mil empregos diretos e faturou R$ 2 bilhões em 2005.
Parcerias com os clientes
Outra que prevê investimentos pesados é a América latina Logística (ALL), que comanda 7.185 quilômetros da Malha Sul da antiga RFFSA no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Entre 1997 e 2003 ela aportou R$ 100 milhões ao ano em suas operações, mais R$ 188 milhões em 2004 e R$ 255 milhões em 2005. Para este ano, a companhia planeja investir R$ 250 milhões, mais R$ 200 milhões de seus clientes que serão utilizados na compra de vagões.
Segundo o gerente financeiro da ALL, Carlos Augusto Moreira, desde 2004 a empresa trabalha da seguinte maneira: investe em locomotivas e na manutenção da malha, enquanto os clientes bancam os vagões. “Desde então são adicionados 40 locomotivas e mil vagões ao ano e pretendemos manter essa média”, afirmou Moreira.
E este modelo de parceria com os clientes vai longe. Em outubro de 2004, a ALL fechou um contrato com a Bunge Alimentos para transportar granéis agrícolas durante 23 anos. O acordo prevê o transporte de 50 milhões de toneladas de 2005 a 2010 e mais 220 milhões entre 2010 e 2027. O acordo deve gerar uma receita anual entre R$ 270 milhões e R$ 350 milhões para a ALL. A partir de 2010, o valor deve subir para R$ 400 milhões.
Mais do que uma transportadora ferroviária, a ALL tem também uma frota de 1.986 carretas e caminhões. “Um país como o Brasil precisa usar todos os modais integrados”, opinou o presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer), Luís Cesário Amaro da Silveira.
A empresa diz que seu diferencial é justamente oferecer diferentes serviços de logística: além do trem, o transporte rodoviário e serviços de armazenagem. Outro diferencial é que a ALL é a única operadora brasileira a ter ferrovias fora do país, são 9.212 quilômetros na Argentina. Ela emprega três mil pessoas e faturou R$ 1,2 bilhão em 2005.
Até os portos
A MRS e a ALL são companhias que operam trechos de ferrovia até dentro de portos, permitindo que a carga chegue diretamente até o navio. A MRS, por exemplo, opera ramais nos portos de Sepetiba e Santos, a ALL em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, São Francisco do Sul, em Santa Catarina, e Paranaguá, no Paraná.
Outra que opera no Porto de Santos é a Brasil Ferrovias, empresa que controla a Ferronorte, no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, e a Ferroban, em São Paulo. A Brasil Ferrovias é responsável por fazer chegar boa parte da produção agrícola de Mato Grosso, um dos principais celeiros do país, até o Porto de Santos.
Brasil Ferrovias
A Ferronorte nasceu do sonho do empresário Olacyr de Moraes, que já foi considerado o “Rei da Soja” no país. A estrada de ferro vai da fronteira de São Paulo com o Mato Grosso do Sul até Alto Araguaia, no sul do Mato Grosso. Em dificuldades financeiras, a Brasil Ferrovias sofreu uma reestruturação financeira no ano passado e foi praticamente estatizada, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) controlando 46,6% do capital, ao lado de fundos de pensão de estatais.
Recentemente foi realizado um processo de concorrência da Brasil Ferrovias e da Novoeste, linha que passa por São Paulo e Mato Grosso do Sul até as fronteiras com a Bolívia e com o Paraguai. As propostas apresentadas ainda estão sob análise dos acionistas.
Leia no link abaixo mais informações sobre a expansão da malha e amanhã sobre o ressurgimento da indústria ferroviária.

