Isaura Daniel
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São Paulo – Tudo começou no segundo semestre do ano passado, quando três artistas plásticos do Quênia, país africano, passaram um mês trocando experiências sobre técnicas de arte e moda com representantes da organização não-governamental Ação Comunitária do Brasil, no Rio de Janeiro. Os cerca de trinta dias foram o suficiente para que em novembro de 2006 estivesse esboçada uma coleção de roupas que leva modelagem e técnicas de pintura da África. A criação da coleção foi coordenada pela estilista Núbia Beatriz Gomes Ferreira Fontes, integrante da ONG. A confecção é hoje levada adiante por moradores do Complexo da Maré, conjunto de favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro.
As roupas fabricadas vão desde as batas – peça bastante popular entre africanos – até as camisas, saias, vestidos e bolsas. A modelagem segue o estilo da África, mas foi adaptada para o Rio de Janeiro. "As roupas não são tão largas", explica Núbia. Uma das técnicas de pinturas de tecidos usadas também vem do continente africano. Chama-se batik e usa cera de abelha e parafina. O produto é aplicado na parte do tecido que deverá ficar sem o tingimento. Ela foi ensinada aos integrantes da ONG pelos artistas quenianos. A confecção, formada a partir do intercâmbio com os artistas, se chama Moda Étnica. O grupo do Quênia participou, no Brasil, do Fórum Cultural Mundial, onde foi apresentada a criação.
Trabalham na confecção sete pessoas do Complexo da Maré. Cinco são jovens que atuam com serigrafia, tinturaria e arte e duas são costureiras. Núbia é quem desenha as roupas, faz a modelagem e corta o tecido. A capacidade de trabalho do grupo, de acordo com a estilista, é de ao redor de dez peças por dia. Atualmente elas são vendidas em lojas do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro. Mas em agosto a Moda Étnica vai participar da Semana Internacional de Moda de Madri (SIMM), na Espanha, com a intenção de começar a exportar. No Fashion Rio, evento carioca de moda que recebe importadores e terá sua próxima edição no começo do próximo ano, a confecção também vai participar.
A estilista Núbia acredita que as peças terão boa aceitação no mercado internacional, principalmente porque têm modelagem africana adaptada. A escolha pelo estilo da África foi feita, segundo ela, em função dos moradores, a maioria com descendência africana. O objetivo da confecção, segundo ela, é expandir as atividades e poder envolver mais pessoas do Complexo da Maré no trabalho. Além das técnicas da África, a Moda Étnica também usa outros métodos de pintura de tecidos como o Tie Dye, pelo qual o tecido é amarrado de diversas formas, com materiais como barbantes, para que seja feito o tingimento. Também é usada a serigrafia. Parte da peças tem desenhos inspirados no Rio de Janeiro.
ONG em ação
A ONG Ação Comunitária do Brasil atua no Complexo da Maré e no Conjunto Habitacional da Cidade Alta, também no Rio de Janeiro. Ela foi criada em 1966 e trabalha com capacitação e qualificação profissional de moradores, formação de grupos culturais e artísticos, desenvolvimento de programas de educação e de saúde. A Ação Comunitária já recebeu vários prêmios por seu trabalho, entre eles um do Banco Mundial de Arte-Educação, em 2002, pela experiência inovadora na área social. Cerca de 50% dos educadores da ONG são moradores e ex-alunos de programas da Ação Comunitária.
Contato
Moda Étnica
Telefone: (21) 2253-6443
Site: www.acaocomunitaria.org.br

