Alexandre Rocha
São Paulo – O zagueiro maranhense José Clayton é um veterano em Copas do Mundo, e este ano espera participar, na Alemanha, de seu terceiro mundial. Ele estará ao lado de seu conterrâneo, o atacante Francileudo dos Santos, que vai participar pela primeira vez de uma Copa. Mas não pelo Brasil. Ambos são naturalizados tunisianos e defendem as cores da Seleção da Tunísia.
Junto com o técnico Marcos Paquetá, treinador da Arábia Saudita, eles formam o time verde e amarelo que vai defender as duas equipes árabes classificadas para o mundial. E mais, boa parte da comissão técnica do selecionado saudita é formada por brasileiros convocados por Paquetá, como o treinador de goleiros Wagner Andrade, os preparadores físicos João Paulo Medina e Francisco Gonzales, o fisiologista Gustavo Araújo, o auxiliar técnico Marcelo Cabo e o massagista Cledis Andrade.
Clayton, que acaba de completar 32 anos, jogou no Moto Clube de São Luís, sua cidade natal, entre 1992 e 1994. "Quando eu tinha uns 21 anos tive uma oportunidade de sair e fui de olhos fechados", disse ele. "No Maranhão você pode ficar 20 anos jogando e não ganhar o suficiente para comprar um carro", afirmou.
A tal oportunidade era na Bélgica, mas que acabou não se concretizando. Clayton, então, se viu na Europa com uma mão na frente e outra atrás. A salvação veio por meio de um ex-técnico do Moto Clube, chamado Dutra dos Santos, que atuava na Tunísia. "Ele soube que eu estava na Bélgica sem clube e me convidou para jogar. Eu respondi: vou agora."
Assim o zagueiro maranhense desembarcou no final de 1994 em solo tunisiano para jogar no Etoile Sportive du Sahel, da cidade de Sousse, onde atuou até 1998. No mesmo ano se transferiu para o Sporting Club de Bastia, da França, onde jogou até 2002.
Em maio de 1998 veio a proposta da Federação Tunisiana de Futebol de jogar a Copa. "Nem pensei duas vezes, antes da pessoa terminar de falar eu disse sim", afirmou ele, que se naturalizou para poder jogar. A oportunidade para Clayton surgiu da tragédia de um colega que jogava na mesma posição e que morreu vítima de um ataque cardíaco durante uma partida. "Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer, são coisas que Deus coloca na frente da gente", afirmou Clayton.
Desde então ele jogou as Copas de 1998 e 2002 e o torneio de Futebol das Olimpíadas de Atenas, em 2004. O principal título de Clayton e Santos, e também da Seleção da Tunísia, veio em 2004, com a conquista da Copa das Nações da África. Na época, o jornal Khaleej Times, dos Emirados Árabes Unidos, qualificou a vitória de "made in Brazil" por conta das atuações dos dois brasileiros. "Foi um título inédito para o país e uma emoção muito grande", afirmou Clayton.
Dos Santos, como o atacante Francileudo é conhecido na Tunísia, se naturalizou tunisiano pouco tempo antes do campeonato africano de 2004, no qual marcou quatro gols. "Ele é o goleador, faz gol pra caramba, joga muito", elogia o colega Clayton.
Santos, de 27 anos, nasceu no município de Zé Doca, no interior do Maranhão. Sua carreira profissional teve início no Sampaio Corrêa, também de São Luís, em 1996. De lá seguiu para o Standard Liège, da Bélgica. Em 1998 ele começou a escrever seu nome na história do futebol tunisiano ao se transferir para o Etoile Sportive du Sahel. Em 2000, Santos foi jogar no Sochaux, da França, e hoje atua no também francês Toulouse.
Segundo informações do site oficial da federação Internacional de Futebol (Fifa), o atacante já havia recebido uma proposta para se naturalizar tunisiano em 2000, mas foi só em dezembro de 2003, às vésperas do campeonato africano de 2004, que ele topou o desafio. Antes, diz o site, ele ainda tinha esperanças de ser convocado para a Seleção Brasileira.
Clayton deixou o Bastia em 2002 e voltou para a Tunísia, onde jogou pelo Esperance. Hoje ele atua pelo Al-Saad Club, do Catar. "As condições de trabalho são excelentes", disse. Os tunisianos, no entanto, são fanáticos por futebol. "Eles lotam os estádios, são 80 mil pessoas em dias de clássicos", afirmou. E o zagueiro sabe do que está falando, pois já jogou pelos dois dos grandes rivais do país, o Etoile e o Esperance. "Quando tem jogo entre estes dois times, a coisa pega fogo. É que nem Flamengo e Vasco", afirmou.
Técnico vencedor
A história de Marcos Paquetá é bem diferente. Antes de chegar à Arábia Saudita ele já era um técnico consagrado no futebol brasileiro, pois foi duas vezes campeão mundial em 2003 como treinador da Seleção Brasileira Sub-17 e da Seleção Brasileira Sub-20.
Paquetá desembarcou em terras sauditas em agosto de 2004 para treinar o Al-Hilal, um dos principais times do país e por onde teve uma passagem vitoriosa. "De seis competições que participamos enquanto estive lá, nós ganhamos cinco", afirmou. "Inclusive a Copa do Rei e a Copa do Vice-Rei, que são os campeonatos mais importantes", acrescentou.
O histórico de vitórias credenciou o brasileiro a assumir a Seleção Saudita em janeiro deste ano, em substituição ao argentino Gabriel Calderon. Ele segue os passos de outros brasileiros, como o atual técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, que dirigiu o time árabe duas vezes e foi campeão da Copa da Ásia em 1988.
Uma boa proposta salarial e boas condições de trabalho convenceram Paquetá a aceitar o desafio de ir para a Arábia Saudita. "O Al-Hilal é um clube que já projetou muitos treinadores e isso me motivou fazer o trabalho por inteiro, desde o início de uma temporada", afirmou. Paquetá já tinha alguma experiência com o futebol árabe, pois trabalhou nos Emirados Árabes Unidos entre 1988 e 1990.
O técnico carioca de 48 anos começou sua carreira como jogador do América do Rio e depois do Vasco. "O apelido de Paquetá surgiu porque eu morei na ilha de Paquetá durante muito tempo e quando eu jogava havia vários outros Marcos, então me deram o nome da ilha", disse ele, que na verdade se chama Marcos César Dias de Castro.
No início dos anos 80 ele abandonou a carreira de jogador para se dedicar à faculdade de educação física da Universidade Estadual do Rio de janeiro, onde se formou em 1984. Depois, já como treinador, passou por times como o Flamengo, Avaí, de Santa Catarina, Al-Shaba e a Seleção Brasileira.
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