Alexandre Rocha
São Paulo – A consolidação das relações entre o Brasil e a Tunísia foi o resultado do trabalho de quase cinco anos do embaixador tunisiano em Brasília, Hassine Bouzid, que acaba de deixar o cargo. Em entrevista à ANBA, durante sua última visita à Câmara de Comércio Árabe Brasileira antes de voltar ao seu país, ele fez um balanço de sua gestão, iniciada em outubro de 2000. "Nós fizemos a consolidação das relações entre o Brasil e a Tunísia em todas as áreas", declarou.
Ele falou sobre os fatos e eventos mais importantes que ocorreram durante sua estada e destacou o papel da Câmara Árabe na realização de vários deles. "A primeira visita que fiz fora de Brasília foi à Câmara Árabe e a última também está sendo. Não é uma coincidência, mas a expressão da cooperação sólida entre a Câmara e a embaixada", disse.
Entre estes eventos, ele ressaltou as duas Jornadas Tunisianas de Negócios, realizadas em 2002 e 2004, a assinatura do acordo de cooperação entre o hospital Sírio Libanês e o Hospital de Sousse, no país árabe, e a criação do Conselho Empresarial Brasil-Tunísia. Bouzid lembrou que nestes cinco anos foram assinados 12 acordos de cooperação entre seu país e o Brasil, entre eles o que suprimiu a necessidades de vistos, e foram nomeados três cônsules honorários, entre eles o vice-presidente de Marketing da Câmara Árabe, Rubens Hannun, que ocupa o cargo em São Paulo.
"Também neste período o volume de negócios cresceu mais 100%", disse. No ano 2000, a corrente comercial entre os dois países somou US$ 85,8 milhões, mas no ano passado ela chegou a US$ 186,8 milhões. Agora, em sua avaliação, chegou a hora das parcerias industriais.
O diplomata de 59 anos, formado em Economia com pós-graduação em Administração Pública, ingressou no serviço público em 1972, como diretor adjunto do setor de Orçamento do Estado do Ministério da Fazenda da Tunísia. De lá para cá ocupou, entre outros cargos, a chefia de gabinete do Ministério do Comércio, a presidência de duas estatais, foi diretor-geral do Centro de Promoção de Exportações da Tunísia (Cepex), representante da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) em Omã e, antes de chegar ao Brasil, foi secretário-geral do Ministério de Assuntos Estrangeiros da Tunísia. Seu sucessor, Zouhaier Allagui, deve chegar ao país em outubro. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
ANBA – Quando o senhor chegou ao Brasil?
Hassine Bouzid – Cheguei em 30 de outubro de 2000 e tenho grande prazer em dizer que a primeira visita que fiz, fora de Brasília, foi à Câmara Árabe em dezembro do mesmo ano. E a minha última visita no Brasil também está sendo à Câmara. Isto é muito significativo. Não é uma coincidência, mas sim a expressão da cooperação sólida entre a Câmara e a embaixada da Tunísia. Cooperação que começou em 1998, antes da minha chegada, quando a entidade ajudou a embaixada a organizar a primeira semana turística da Tunísia em São Paulo. Depois, a Câmara ajudou também a embaixada a organizar duas semanas tunisianas (missões empresariais) em São Paulo, em 2002 e 2004. A instituição auxiliou ainda na assinatura do acordo de cooperação hospitalar entre o hospital Sírio-Libanês e o hospital de Sousse, na Tunísia. Além disso, ela ajudou nas viagens de empresários tunisianos que visitaram São Paulo.
O que de mais importante ocorreu em seu período aqui?
Primeiro, de maneira geral, o que nós fizemos nestes cinco anos foi a consolidação das relações entre o Brasil e a Tunísia em todas as áreas, como política, econômica e cultural. Durante este período nós assinamos "apenas" 12 acordos e temos mais seis projetos de tratados para assinar.
Quais acordos foram mais relevantes na opinião do senhor?
O acordo sobre consultas políticas entre os dois ministérios, o Itamaraty e o Ministério de Assuntos Estrangeiros da Tunísia; o acordo entre o Instituto Rio Branco e o instituto diplomático da Tunísia; também o acordo entre os dois hospitais que eu já mencionei; o acordo entre a Apex e a Cepex (agências de promoção de exportações dos dois países); e outro muito importante foi o que criou o Conselho Empresarial Brasil-Tunísia. E este nós assinamos com a Câmara. Também durante estes cinco anos o volume de negócios cresceu mais de 100%. Hoje o Brasil é o 12° cliente e o 16° fornecedor da Tunísia, é um dos nossos parceiros comerciais mais importantes. Neste período ainda nós nomeamos três cônsules honorários. Primeiro em 2001 em Porto Alegre (Heiz Huyer), em 2002 em São Paulo (Rubens Hannun, vice-presidente de Marketing da Câmara Árabe) e em 2004 no Rio de Janeiro (Márcio Fortes).
E os seis acordos que estão para ser assinados?
Eles são nas áreas universitária, agrícola e esportiva e prevêem intercâmbio de professores, estudantes, de pesquisa. São bastante amplos.
As relações entre o Brasil e a Tunísia estão consolidadas então?
As relações econômicas e culturais tiveram um grande desenvolvimento, mais ainda não chegaram ao nível das relações políticas. Então ainda há muita coisa para fazer e precisamos torcer para dobrar o volume atual de negócios nos próximos três ou quatro anos porque existem muitas oportunidades para aumentar as exportações e importações. Os dois países têm que trabalhar agora para uma parceria industrial. Temos que dar uma importância para a cooperação neste setor, para realizar alguns projetos, por exemplo, brasileiros na Tunísia, para produzir para exportação para países europeus, árabes e africanos, com os quais a Tunísia tem acordos preferenciais que isentam os produtos de impostos e cotas. Também no setor de turismo deverá haver um desenvolvimento. Em agosto de 2004 entrou em vigor um acordo de supressão de vistos, que vai facilitar o crescimento do turismo entre os dois países.
Há algo que o senhor gostaria de ter feito mas não fez?
Não, acho que vou deixar o Brasil com um sentimento de dever cumprido. Acho que fiz o que tinha de fazer. E o que eu fiz, fiz com paixão.

