Alexandre Rocha
São Paulo – A companhia Vale do Rio Doce fechou recentemente um contrato com a Qatar Steel Company (Qasco), siderúrgica estatal do Catar que é uma das maiores do Oriente Médio, para o fornecimento de 2,66 milhões de toneladas de pelotas de ferro até 2010. Este foi mais um capítulo na expansão dos negócios da mineradora no exterior, que compreendem não só as exportações, mas também o controle e a participação em empresas estrangeiras e a pesquisa e exploração em outros países.
A Samarco, companhia brasileira que pertence à Vale e à multinacional BHP Billiton, já havia fechado no ano passado um acordo para o fornecimento de 1,7 milhão de toneladas à Qasco, também até 2010.
Terceira maior mineradora do mundo e maior exportadora de minério de ferro e pelotas, com participação de 33% no mercado internacional, a Vale negociou no início deste ano com vários de seus clientes estrangeiros um aumento de 71,5% no preço do minério. Isto, de acordo com especialistas ouvidos pela ANBA, vai fazer com que as receitas nacionais com os embarques do produto ultrapassem as de todo o complexo soja (grão, farelo e óleo), além de contribuir para a manutenção do saldo da balança comercial.
Segundo previsões da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), as exportações de minério deverão render US$ 8,1 bilhões, ante US$ 4,759 bilhões em 2004, um acréscimo de mais de US$ 3,3 bilhões. Antes do aumento promovido pela Vale, a associação previa embarques de US$ 6 bilhões para 2005.
"E não apenas o valor, mas a quantidade também deverá aumentar, passando de 215 milhões de toneladas em 2004 para 240 milhões este ano", disse o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro. "Isoladamente o minério de ferro passará a representar mais do que todo o complexo soja", acrescentou.
De acordo com as estimativas da entidade, as exportações do grão e seus derivados deverão ficar em US$ 8 bilhões este ano, por causa da estiagem ocorrida no sul do país e pela queda do valor da commodity no mercado internacional.
Na avaliação do consultor de comércio exterior, Joseph Tutundjian, é a primeira vez que se consegue aumentar o preço do produto para o mercado externo dessa maneira. "Trata-se de uma matéria-prima que há alguns anos valia menos do que o próprio frete. Hoje a Vale aumentou o preço em mais de 70% e consegue vender. Isso é ótimo para eles", disse.
De acordo com a companhia, houve uma "considerável expansão da demanda global por minérios e metais", tendo a China como um dos principais pivôs, o que ocasionou um desequilíbrio em relação à oferta. Foi nesse cenário que a Vale apresentou em 2004 os melhores resultado de sua história. "O reajuste de preços, a negociação que fizemos com nossos clientes, reflete claramente a demanda, o momento do mercado", disse recentemente o presidente da Vale, Roger Agnelli.
Maior empresa da América Latina
Em março o valor de mercado da empresa chegou a US$ 39,9 bilhões da Bolsa de Nova York, tornando-a a maior companhia privada da América Latina. A Vale teve um lucro líquido de US$ 2,573 bilhões no ano passado, um recorde histórico 66,2% superior ao de 2003. O faturamento, por sua vez, foi de US$ 8,479 bilhões, 52,9% maior do que o do ano anterior.
Segundo a empresa, suas exportações renderam US$ 5,534 bilhões, contra US$ 4,229 bilhões em 2003, o que a fez subir de terceiro para o primeiro lugar na lista das maiores exportadoras brasileiras, à frente até da gigante estatal Petrobras.
Apesar do minério de ferro ser a principal mercadoria oferecida pela empresa, com uma produção de 211 milhões de toneladas em 2004 (12% a mais do em 2003), ela explora também outros minerais, como bauxita, cobre potássio e Caulim. A inauguração da mina de cobre do Sossego no Pará, por exemplo, foi anunciada como uma das principais realizações da empresa no ano passado.
A empresa atua também na produção de alumínio, por meio das subsidiárias Albras, Valesul e Alunorte, e no setor de energia. Em 2004, por exemplo, ela inaugurou a usina hidrelétrica de Candonga, em Minas Gerais, da qual a companhia detém 50%. É a quarta hidrelétrica da Vale a entrar em operação.
No caso do minério de ferro, a Vale prevê um crescimento de 10% na produção este ano. De acordo com Roger Agnelli, há uma escassez do produto no mercado internacional, da ordem de 40 milhões de toneladas, e o equilíbrio entre oferta e demanda só deverá ser atingido em 2007. Segundo ele, o mercado permanecerá ainda muito aquecido pelo menos nos próximos 18 meses. A Vale exporta 85% do minério de ferro e pelotas que produz (231,5 milhões de toneladas em 2004).
Investimentos
Nesse sentido, a empresa aprovou um orçamento de investimentos para este ano de US$ 3,332 bilhões, contra US$ 1,956 bilhão em 2004. Do total, 22,1% serão aplicados na manutenção dos negócios já existentes e 77,9% em projetos, pesquisa e desenvolvimento.
Boa parte dos gastos será com operações no exterior. A companhia controla ou tem participação em outras empresas nos Estados Unidos, Argentina, Chile, Peru, França, Noruega e Bahrein. No último caso, a Vale é dona de 50% da Gulf Industrial Investment Company (CIIC), uma fábrica de pelotas de ferro. Além disso ela pesquisa e explora minerais em diversos outros países da América Latina, África e Ásia.
Logística
Na área de mineração a empresa está presente em 13 das 27 unidades da federação brasileira. Além disso, é a maior operadora de logística do país, controla 9 mil quilômetros de ferrovias e oito terminais portuários. Ela transporta não só sua própria produção, mas também presta serviços para terceiros.
Em 2004, o setor de logística da Vale teve uma receita de US$ 877 milhões, valor 45,2% superior ao de 2003 e que representou 10,3% do faturamento total da companhia.
A Vale do Rio Doce foi fundada em 1942 pelo governo brasileiro. Em 1997 ela foi privatizada e passou a ser comandada por um consórcio liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Hoje ela é controlada pela Valepar, que tem como maior acionista a Previ, que é o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, seguida, nessa ordem, do Bradespar, que pertence ao Bradesco, maior banco brasileiro; da japonesa Mitsui; da BNDESpar, do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social; e do banco Opportunity.
A Valepar detém 33,6% do capital total da companhia e 52,3% das ações com direito a voto. Investidores estrangeiros têm 42,4% do capital total da companhia e 30,1% das ações ordinárias (com direito a voto).
Atualmente a empresa tem 31.650 funcionários. Se considerados os empregos indiretos gerados pela companhia, o número sobe para 94,4 mil.

