Por Ahmed Swar*
Com as profundas transformações do sistema internacional e a erosão contínua dos paradigmas tradicionais Norte–Sul, o Sudão encara uma oportunidade crucial de recalibrar suas parcerias externas em termos mais equilibrados e pragmáticos. Nesse cenário em mutação, a cooperação com o Brasil se destaca como um modelo crível de engajamento Sul–Sul — baseado na transferência de conhecimento, em prioridades de desenvolvimento compartilhadas e no benefício recíproco, e não em condicionalidades ou assimetrias históricas. Para o Sudão, essa parceria assume um peso particular em um momento em que a reconstrução pós-guerra, a construção do Estado e a recuperação econômica são indissociáveis de desafios globais mais amplos, especialmente o da segurança alimentar.
O envolvimento do Brasil com a África é moldado por laços históricos e culturais profundos, reforçados pelo fato de o País abrigar a maior população de descendentes de africanos fora do continente. Esse legado influenciou uma política externa que enxerga a África não apenas como uma fronteira econômica, mas como um parceiro estratégico dentro de visão mais ampla do Sul Global. O retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou essa orientação, recolocando a África no centro da agenda diplomática brasileira como parte de esforço amplo de fortalecimento do multilateralismo e de reequilíbrio da governança global.
Apesar de complementaridades significativas, as relações entre Brasil e Sudão historicamente ficaram aquém das parcerias do Brasil com outros Estados africanos, em especial com países lusófonos como Angola e Moçambique. Ainda assim, o contexto atual do Sudão abre espaço para uma reavaliação estratégica. À medida que o país busca parceiros com experiência prática em desenvolvimento — em vez de marcos de políticas prescritivos —, o Brasil se apresenta como uma referência relevante e crível, por ter enfrentado seus próprios desafios de desigualdade, reforma institucional e crescimento inclusivo.
A agricultura constitui o eixo mais estratégico de uma cooperação potencial. O Sudão detém uma das maiores reservas de terras aráveis subutilizadas do mundo, além de recursos hídricos significativos e ampla diversidade ecológica. No entanto, décadas de conflito, subinvestimento e cadeias de valor frágeis limitaram a produtividade. A expertise do Brasil, reconhecida globalmente no campo da agricultura tropical — que abrange pesquisa, mecanização, integração de pequenos produtores e desenvolvimento agroindustrial — oferece um caminho concreto para a transformação do setor agrícola sudanês. Para além da segurança alimentar doméstica, essa cooperação poderia posicionar o Sudão como um fornecedor confiável nos mercados regionais e globais de alimentos, em um momento em que interrupções de oferta e pressões climáticas estão redefinindo a demanda mundial.
A cooperação na área da saúde representa outro pilar fundamental. O sistema de saúde do Sudão foi gravemente fragilizado pelos conflitos, gerando uma necessidade urgente de soluções escaláveis e de baixo custo. A experiência do Brasil em saúde universal, governança em saúde pública e produção de medicamentos genéricos acessíveis oferece modelos práticos que podem apoiar a recuperação do sistema ao mesmo tempo em que mitigam pressões humanitárias.
Igualmente importante é a cooperação em educação e formação de capacidades. A reconstrução sustentável depende não apenas de infraestrutura física, mas de capital humano capaz de gerir instituições, planejar o desenvolvimento e sustentar reformas. Intercâmbios acadêmicos, formação profissional e cooperação técnica em administração pública desempenhariam, portanto, um papel decisivo na ancoragem da estabilidade de longo prazo.
No plano político, Brasil e Sudão compartilham perspectivas convergentes sobre temas centrais da agenda internacional, incluindo a reforma da governança global, o respeito à soberania e a priorização de soluções políticas em detrimento de intervenções coercitivas. A ênfase consistente do Brasil no diálogo, no desenvolvimento e no engajamento multilateral reforça seu potencial papel como parceiro construtivo para o Sudão em fóruns internacionais, especialmente considerando a influência brasileira no Sul Global.
Os desafios permanecem substanciais. A insegurança persistente, a fragilidade institucional e a intensificação da competição geopolítica limitam o ritmo e a profundidade da cooperação. O avanço dessa parceria exigirá um compromisso político sustentado e um marco estratégico que vá além de iniciativas pontuais, orientando-se para um planejamento de desenvolvimento de longo prazo.
À medida que o BRICS consolida seu papel em uma ordem multipolar emergente, a cooperação entre Brasil e Sudão adquire relevância que ultrapassa o plano bilateral. A convergência entre a expertise agrícola do Brasil e as dotações naturais do Sudão oferece uma oportunidade rara de contribuir de forma significativa para a segurança alimentar global, ao mesmo tempo em que impulsiona a reconstrução do Sudão e sua integração à arquitetura econômica em transformação do Sul Global. Nesse contexto, a parceria representa não apenas uma opção de desenvolvimento, mas um alinhamento estratégico com as realidades de uma ordem mundial em mudança.
*Ahmed Swar é embaixador do Sudão no Brasil
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