São Paulo – O decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil, Ramez Goussous, que é embaixador da Jordânia em Brasília, disse na noite desta segunda-feira (19), em palestra para alunos da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, que a crise da economia mundial precipitou a chamada “Primavera Árabe”, série de levantes populares que se espalhou pelo Oriente Médio e Norte da África este ano e já resultou na queda dos regimes da Tunísia, Egito e Líbia.
Para ele, as frustrações das populações destes países na seara econômica levaram a um “despertar político”. “A pobreza é a maior causa dos conflitos”, disse o embaixador a uma plateia formada por estudantes de Relações Internacionais e Economia.
Segundo o diplomata, faz tempo que existe no mundo árabe um debate sobre reformas políticas e econômicas, e ele reconheceu que parte dos países da região passou muito tempo sob regimes ditatoriais, mas destacou que a mudança para sistemas democráticos não ocorre “da noite para o dia”. “Reformas são pré-requisitos para um futuro melhor”, ressaltou.
Goussous acrescentou que tais reformas devem atender a anseios das populações como tolerância, império da lei, governos pluralistas, distribuição de renda e educação. Ele afirmou que seu país, a Jordânia, tem buscado avançar nesse sentido.
Em sua avaliação, os tomadores de decisão têm que olhar para o futuro deixar de lado os conflitos do passado, para que os jovens de hoje não tenham que enfrentar os mesmo problemas que seus pais e avós.
Nesse sentido, o embaixador disse que a “Primavera Árabe” abre uma oportunidade para a resolução do conflito entre Israel e Palestina. Ele destacou que ao longo de todo esse processo quem sempre falou foram as lideranças políticas, mas agora quem fala é o povo. Como exemplo, o diplomata citou o recente protesto em frente à embaixada de Israel no Cairo, que resultou na saída do embaixador israelense do Egito.
Para Goussous, o impasse entre israelenses e palestinos é frustrante. “Cada dia gasto é um dia perdido para a violência”, declarou ele, lembrando que o tema está no topo da agenda internacional há décadas. Na sexta-feira, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, vai apresentar um pedido de reconhecimento do Estado Palestino à Organização das Nações Unidas (ONU).
Ele defendeu a iniciativa de paz aprovada na cúpula da Liga Árabe de 2002, em Beirute, no Líbano, que é a posição oficial dos países árabes sobre a resolução do conflito e que prevê a criação do Estado Palestino nas fronteiras de 1967, ou seja, antes da Guerra dos Seis Dias, quando Israel ocupou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. O embaixador ressaltou que se Israel aceitasse esse acordo, o país seria reconhecido e poderia estabelecer relações com 57 nações árabes e muçulmanas.
O diplomata falou também sobre a situação em outros países da região. Ele lembrou que a Liga Árabe reconheceu o Conselho Nacional de Transição (CNT) como representante da Líbia e espera que o povo líbio caminhe na direção do desenvolvimento com a ajuda da ONU e das outras nações árabes.
No caso da Síria, Goussous defendeu a “reconciliação nacional” para por fim aos conflitos entre governistas e oposicionistas.
Para ele, os processos de reformas e transição nos países árabes sacudidos por protestos têm que ser feitos “da maneira correta” para que os radicais não se aproveitem de um vácuo institucional para assumir o poder.
Questionado por um estudante, ele ainda criticou a política ambígua do Irã, que aplaude revoluções de um lado e apoia regimes autoritários de outro. “O Irã precisa mostrar mais transparência, mais sinceridade. A paz no Oriente Médio seria boa para todos”, declarou.
Participaram do debate os professores da Faap Marcus Vinícius de Freitas, de Direito e Relações Internacionais, e José Alexandre Hage, de Política Externa Brasileira. Estavam na platéia os embaixadores Bachar Yaghi, da Liga Árabe, e Ibrahim Alzeben, da Palestina, o CEO da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, e o diretor da entidade, Mustafá Abdouni, que é cônsul honorário da Jordânia em São Paulo.

