Alexandre Rocha
São Paulo – Diplomatas brasileiros e árabes consultados pela ANBA estão otimistas com os possíveis resultados da cúpula dos países árabes e sul-americanos, que será realizada nos dias 10 e 11 de maio em Brasília. Para alguns ela já está produzindo efeitos, como o aumento do comércio. Para outros, ela será um primeiro passo para consolidar relações que por muito tempo ficaram em segundo plano.
"O resultado concreto que se pode esperar é a própria cúpula, ela já deu certo, já mudou o mundo. Nunca na história das nossas relações com os árabes houve algo do gênero. Aliás, nunca ocorreu uma iniciativa como esta em política externa", disse o embaixador do Brasil em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, Flávio Sapha.
Sapha resume a opinião corrente entre seus colegas do Itamaraty, e do próprio chanceler Celso Amorim, de que a cúpula já está produzindo efeitos mesmo antes de sua realização e que vai passar para a história das relações internacionais.
"Já é uma coisa muito concreta conseguir que ela ocorra. Será um grande passo para a cooperação sul-sul", afirmou o embaixador brasileiro no Cairo, Elim Dutra. Na avaliação dos diplomatas brasileiros, a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a cinco países árabes demonstrou o quanto encontros políticos podem resultar no aumento das relações econômicas, uma vez que, após a viagem realizada em dezembro de 2003, o comércio do Brasil com a região aumentou em quase 50%.
"Já houve um impacto no comércio", disse a embaixadora Vera Pedrosa, subsecretária-geral de assuntos políticos do Itamaraty, que atua diretamente na organização do evento. Ela lembrou que o mesmo ocorreu nas relações econômicas com outros países que o Brasil decidiu ampliar suas articulações políticas, como os vizinhos da América do Sul, a Índia, a África do Sul e a China. "E falo em investimentos também, não só de árabes aqui, mas de empresas nossas, como a Petrobras e a Vale do Rio Doce lá", acrescentou.
Depois de mais de 20 anos a Petrobras voltou a ter alguns negócios nos países árabes. Ela assinou um acordo de cooperação com a petrolífera argelina Sonatrach em 2003, participou de uma licitação para explorar gás na Arábia Saudita em 2004 (mas não foi vencedora) e ganhou uma concorrência para explorar petróleo na Líbia no início deste ano. Já a Vale, além de exportar minério em quantidade para a região, detém 50% de uma fábrica de pelotas de ferro no Bahrein.
Para os diplomatas árabes, a cúpula vai ser um passo para a consolidação das relações entre as duas regiões. "Nós queremos que o resultado da cúpula seja a concretização, a solidificação da convivência entre árabes e sul-americanos", disse o embaixador da Jordânia em Brasília, Faris Muft. Em sua avaliação, as relações entre os dois blocos estiveram "dormentes" e a cúpula representa a "retomada" de uma cooperação mais intensa.
Na mesma linha, o embaixador do Sudão, Rahamtalla Mohamed Osman, disse que a cúpula será um "passo fundamental para a construção de relações concretas". Ele alertou, porém, para a necessidade de criação de mecanismos para implementar os resultados do evento, sejam eles nas áreas científica, cultural ou econômica.
O embaixador da Palestina e decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil, Mussa Odeh, afirmou que a cúpula vai "fortalecer relações que já existem", em campos como o comércio, investimentos, relações políticas e ciência e tecnologia. "Será uma grande oportunidade para ambas as regiões", disse. Ele acrescentou que a reunião será especialmente importante para o povo palestino, pois vai ocorrer em um "país amigo" e contará com a participação de nações que apóiam a causa palestina.
No mesmo sentido, o embaixador da Tunísia, Hassine Bouzid, afirmou que a cúpula será uma ótima ocasião "para dar um impulso" na cooperação entre os dois blocos. "Certamente vão surgir muitas oportunidades para aumentar o valor dos negócios, especialmente no que diz respeito aos investimentos", disse.
O aumento das relações econômicas e comerciais é tido pelos diplomatas como o resultado concreto mais previsível da reunião. O tema deverá ser também o principal na pauta de discussões dos chefes de estado e de governo.

