São Paulo – Qual o contexto social, político, histórico e cultural que leva milhares de pessoas no Oriente Médio a fugirem de seus países e irem para locais tão distantes quanto o Brasil? Quais as dificuldades que estes imigrantes enfrentam ao se adaptar a uma nova cultura e sociedade? Estas e outras questões serão discutidas na palestra Mundo Árabe e Muçulmano: Enlaces Sociais e Subjetivos, que acontece na próxima terça-feira (15), às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo.
O evento faz parte do ciclo de debates e palestras Imigrantes e Refugiados: Deslocamentos Em Um Mundo Em Crise, que acontece nos meses de maio, junho e agosto. As palestras trazem a presença de psicanalistas, cientistas sociais e antropólogos para debater questões e políticas sobre os direitos dos refugiados e os principais desafios da sociedade brasileira nesta área.
A curadoria do programa é da psicanalista Miriam Rosa, professora-doutora da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O evento surgiu com base no Projeto Migração e Cultura, do Laboratório Psicanálise e Sociedade, parceria entre as duas universidades paulistas, no qual a psicanalista atua. Há sete anos, o projeto realiza atividades de pesquisa e de intervenção junto a migrantes, imigrantes e refugiados.
O debate da próxima semana é o terceiro evento do ciclo e contará com a palestra da diretora do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe), Soraya Smaili. O evento também tem atividades culturais, como apresentações teatrais e a exibição de trechos de filmes.
No dia 15, os participantes verão cenas do filme Incêndios, do diretor canadense Denis Villeneuve. Ele mostra história de um casal de irmãos gêmeos, filhos de uma imigrante árabe que vive no Canadá e que, após a morte da mãe, descobre que tem um outro irmão, perdido em algum lugar do Oriente Médio. O rapaz não se interessa pelo fato, mas a moça sai em busca do parente. Em sua viagem, ela descobre que a mãe era uma guerrilheira e que teve os gêmeos dentro de uma prisão, filhos de um torturador.
"A mãe é descrita pelos filhos como ausente, estranha e louca. O filme caracteriza imigrantes que vêm de situações de violência, cujos filhos não sabem a história dos pais. Esse silêncio é marcante nestas situações", destaca Rosa.
Os refugiados
Ela conta que a ideia de realizar o ciclo de debates sobre o tema surgiu do trabalho realizado no Projeto Migração e Cultura. "Trabalhamos com refugiados de várias etnias, que chegam ao Brasil e tem um processo de interação com outras culturas e outra língua. Nosso foco é na imigração forçada, pela violência ou pela miséria", conta Rosa. "O objetivo do evento é trabalhar uma reformulação do conceito do estrangeiro, que é visto como um estranho ou inimigo", explica.
Rosa revela que, na maioria dos casos, é difícil descobrir os fatos específicos que forçaram a migração das pessoas, já que contar estas histórias faz com que elas revivam momentos de dor. "As pessoas chegam com uma desconfiança muito grande por terem sofrido perseguições políticas. Elas não sabem em quem podem confiar", diz. "Isso gera dificuldades em estabelecer novas relações, novos laços. Elas evitam reviver algo muito forte emocionalmente. As pessoas querem começar uma nova vida, sem ter que mexer nessas feridas".
Segundo a professora, no Brasil, mesmo em comunidades que estão há muito tempo estabelecidas no país, como a árabe, a japonesa e a italiana, é comum que os descendentes não saibam a história da migração de suas famílias. Ela aponta, porém, um diferencial para os refugiados destas regiões que chegam ao País. "Os grupos que contam com uma comunidade estruturada no Brasil acabam estabelecendo laços com essa comunidade e recebem apoio delas, o que faz toda a diferença".
A associação entre Islã, árabes e terrorismo é outro tópico que fará parte do debate. "Na Europa e nos Estados Unidos esse mito é terrível. A partir de uma nacionalidade você já cria a concepção de um criminoso. É um preconceito que dificulta muito a integração", afirma. "No Brasil, essa associação não ocorre tanto, já que temos um grande número de turcos e árabes". De acordo com a psicanalista, é preciso educar e informar a população sobre os costumes de outras culturas e religiões. "Essa formação sobre cultura religiosa é muito importante", completa.
Serviço
Palestra Mundo Árabe e Muçulmano: Enlaces Sociais e Subjetivos
Dia 15 de maio, às 19h30
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro- São Paulo
Capacidade de 70 lugares
Informações: +55 11 3113-3651/ 3113-3652
www.bb.com.br/cultura
Entrada gratuita

