Porto Alegre – O estabelecimento da Palestina como Estado não membro da Organização das Nações Unidas (ONU) coloca Israel como Estado ocupante de um outro Estado e não mais de territórios, permitindo aos palestinos recorrer aos organismos internacionais para pedir por sanções pela ocupação de um Estado reconhecido pela comunidade internacional.
Para os políticos e historiadores ouvidos pela reportagem da ANBA em Porto Alegre, durante a realização do Fórum Social Mundial Palestina Livre, esta é principal modificação prática obtida com a votação ocorrida na quinta-feira (29) na Assembleia Geral da ONU, na qual os palestinos tiveram 138 votos a favor, 41 abstenções e apenas nove votos contrários à sua aceitação como Estado observador da entidade.
"Isto dará a chance de nos tornarmos membros plenos de todos os organismos da ONU e nos dará influência nas organizações internacionais", destacou Nabil Shaat, comissário de Relações Internacionais do Fatah e representante do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) Mahmoud Abbas no evento. "Isto nos dá um apoio em afirmar que nossa terra está ocupada e que Israel precisa sair de lá, que não pode ficar lá para sempre. Isto traz ao nosso povo alguma esperança nas ações políticas. Não queremos voltar para a violência, isto foi uma conquista política", completou.
"Israel é um estado estabelecido sem fronteiras definidas, mas há resoluções das Nações Unidas que definem isto e os acordos de paz estão baseadas nestas resoluções", ressaltou Salah Elqataa, ministro conselheiro da embaixada palestina em Brasília. "Estamos reconhecidos por 138 países da comunidade internacional na Assembleia Geral das Nações Unidas. Fomos reconhecidos pela maioria absoluta dos países, isso é o mais importante", afirmou.
Para o deputado palestino Fayez Saqqa, o reconhecimento internacional da Palestina como Estado é apenas o começo para a criação de um estado palestino efetivo. "Sabemos que essa votação não encerrará a ocupação israelense no dia seguinte, teremos que seguir lutando contra a ocupação junto aos organismos internacionais", apontou.
Segundo ele, o próximo passo é o reconhecimento da Palestina como estado pleno no Conselho de Segurança das Nações Unidas. "No ano que vem apresentaremos a solicitação ao Conselho de Segurança, mas isto será apresentado por meio da Assembleia Geral e, infelizmente, teremos o veto norte-americano", lamentou. "Mas apresentaremos essa solicitação e se não for aprovada, seguiremos pedindo nos próximos anos. É nosso direito e vamos alcançá-lo", enfatizou.
Emir Sader, sociólogo e cientista político brasileiro de origem libanesa, acredita que a votação complica a posição israelense como estado ocupante da Palestina. "Não é só um reconhecimento como membro da ONU, mas um reconhecimento das fronteiras de 1967, o reconhecimento de um Estado autônomo, independente e soberano", disse.
Ele afirma que o atual status da Palestina permite que seu governo faça novas reivindicações. "Eu acho que uma vez reconhecido o Estado, a Palestina tem, por exemplo, o direito de reivindicar um aeroporto, que pode ser na fronteira com a Jordânia, e outros elementos que são inerentes a um estado", afirmou.
"Por exemplo, é um absurdo Israel recolher os impostos na Palestina e ameaçar não repassar. Acho que a situação jurídica nova permite reivindicar e ter reconhecimento internacional. Permite, por exemplo, pedir punições a Israel e sua suspensão de organismos internacionais por não cumprir as resoluções da ONU e não reconhecer o Estado Palestino", explicou.
Para o historiador e escritor André Gattaz, autor do livro “A Guerra da Palestina, da criação do Estado de Israel à Nova Intifada”, a consequência mais importante desencadeada pela decisão na ONU é que mais países passem a apoiar a criação de um estado efetivo da Palestina.
"Do ponto de vista prático na vida dos palestinos, o que eu vejo como uma maior possibilidade de solução do conflito é a partir do momento em que a própria população israelense começar a se conscientizar de que as coisas não podem permanecer eternamente, que eles mesmos não terão segurança e paz enquanto as coisas permanecerem no mesmo estado”, avaliou.
"Eu acredito que possa haver um movimento do estilo Primavera Árabe dentro de Israel, que uma maior parte da população considere que a melhor solução do conflito é o estabelecimento do Estado palestino", concluiu.

