Isaura Daniel, enviada especial*
Doha – Os países em desenvolvimento querem ter mais acesso aos mercados das nações ricas, mais espaço na Organização das Nações Unidas (ONU), ajuda financeira para acabar com a fome dos seus países. Enfim, querem crescer. E para isso pedem prioridade ao mundo.
Essa foi a tônica dos discursos que encerraram ontem, em Doha, capital do Catar, a Segunda Cúpula do Sul, reunião dos 132 países em desenvolvimento que formam o G-77 e China.
Os pedidos acima também nortearam os dois documentos da cúpula, o Plano de Ação e a Declaração Política. Eles foram aprovados por unanimidade pelos chefes de estado e seus representantes ao final do encontro.
“Os países em desenvolvimento devem ter prioridade na ONU. Temos 132 membros na organização e podemos fazer que isso aconteça”, disse o presidente do G-77 e China, o primeiro-ministro da Jamaica, Percival Patterson.
O grupo quer que a reforma das Nações Unidas aconteça de fato em setembro, durante a assembléia geral, em Nova York, e permita maior participação dos países do G-77 no organismo. Uma das solicitações é a ampliação do Conselho de Segurança dos atuais 15 membros para 24.
Na declaração política, os chefes de estado do grupo também solicitam que seja acelerado, na Organização Mundial do Comércio (OMC), o processo de negociação de abertura dos mercados de nações desenvolvidas.
O documento do G-77 diz que os países em desenvolvimento estão sujeitos a uma série de restrições não-tarifárias para vender seus produtos nos mercados desenvolvidos.
De acordo com o documento, a grande urgência é do setor agrícola. Muitos países subsidiam sua agricultura, o que acaba jogando o preço da produção agrícola para baixo no mercado mundial. O problema da volatilidade dos preços é citado no documento do G-77.
A fome
Os países também chamam os organismos internacionais, cidadãos, empresas e governos a colaborar com o fundo mundial de combate à pobreza. Ontem, durante o encerramento da Segunda Cúpula do Sul, Patterson falou sobre o tema. “A iniciativa do presidente do Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva) nos leva a identificar novas fontes de financiamento para a erradicação da fome e enfermidades no planeta terra”, disse.
Lula lançou a idéia durante a assembléia geral da ONU, em setembro do ano passado. A diplomacia brasileira trabalha em conjunto com outros cinco países para começar a identificar mecanismos novos de arrecadação de fundos para destinar ao combate à fome.
Um mecanismo financeiro já estipulado para isso é a destinação de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) das nações ricas para auxiliar os países mais pobres. O documento da cúpula conclama os países desenvolvidos a cumprirem com a medida sem condicionalidades. Também pede que as dívidas externas das nações com menores condições econômicas sejam canceladas.
Os chefes de estado reforçaram a importância de aumentar o comércio entre os países em desenvolvimento para promover o crescimento econômico interno das nações. Eles pediram que os governos adotem mecanismos para promover esse comércio.
Também pedem que as negociações em torno do Sistema Global de Preferências Comerciais (SGPC), para a redução de tarifas do comércio entre os países em desenvolvimento, sejam concluídas ainda em 2006.
A transferência de tecnologia das nações desenvolvidas para as mais pobres é outro pedido, assim a cooperação regional e internacional para combater doencas epidêmicas e contribuições para o fundo de combate à Aids, malária e tuberculose.
Cuba e Palestina
A declaração política pede ainda que os Estados Unidos terminem com o embargo à Cuba, que, de acordo com o documento, não está em conformidade com as resoluções da ONU, e também que dialoguem com a Síria sobre as sanções impostas ao país.
No que diz respeito ao conflito entre israelenses e palestinos, a declaração pede uma solução justa. O documento afirma que a Palestina tem o direito de estabelecer um estado independente.
A Terceira Cúpula do Sul está programada para ocorrer em 2010, na África.
*A jornalista viajou a convite da Qatar News Agency

