Alexandre Rocha
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São Paulo – O observatório de raios cósmicos Pierre Auger, instalado na província de Mendoza, na Argentina, é um dos principais projetos científicos em andamento hoje no mundo e resulta de esforços conjuntos de instituições de 17 países, incluindo participações importantes de entidades acadêmicas e indústrias brasileiras. O empreendimento, que começou a ser planejado no início da década passada e ficou totalmente pronto recentemente, tem como objetivo explicar a origem dos raios, que podem acumular 100 milhões de vezes mais energia do que o mais poderoso acelerador de partículas construído pelo homem.
“O observatório é composto por 1,6 mil detectores, boa parte fabricada no Brasil, espalhados por uma área de 3 mil quilômetros quadrados, que detectam chuveiros de partículas criados no alto da atmosfera com o atrito dos raios cósmicos”, disse à ANBA o professor titular de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Escobar, que participa do projeto desde o início.
Segundo ele, o complexo conta ainda com 24 telescópios capazes de registrar a luz emitida pelo “chuveiro” quando ele atravessa a atmosfera. “A idéia é tentar descobrir de onde os raios vêm, quando acumulam tanta energia”, declarou o professor. Em novembro do ano passado, os pesquisadores anunciaram, a partir de descobertas feitas no observatório, que a origem mais provável dos fenômenos são os Núcleos Ativos de Galáxias (AGN, na sigla em inglês).
Os AGNs, segundo explicação dos cientistas do projeto, são, em tese, ativados por buracos negros super massivos que atraem gás, poeira e outras matérias das galáxias onde estão localizados e expelem partículas e energia. De acordo com os pesquisadores, a maioria das galáxias possui buracos negros em seu centro, mas apenas uma fração delas têm AGNs. Os raios cósmicos que atingem a Terra, formados por prótons e núcleos de átomos que viajam em velocidade próxima a da luz, viriam de galáxias vizinhas à nossa. Como os AGNs conseguem acelerar partículas com tamanha energia permanece um mistério.
Apesar do observatório ter ficado pronto só recentemente, desde o início de 2004 ele vem recolhendo dados científicos. No futuro, de acordo com o professor da Unicamp, quando os cientistas descobrirem o mecanismo de aceleração das partículas será possível, em tese, reproduzir o fenômeno em escala laboratorial.
Segundo Escobar, o Brasil teve até o momento participações importantes nas áreas intelectual, industrial e no financiamento do projeto. No país foram fabricados os tanques dos detectores e componentes dos telescópios. Ele ressalta que os equipamentos não foram somente produzidos, mas desenvolvidos no Brasil.
Na seara financeira, o país arcou com US$ 3,5 milhões do orçamento total do empreendimento, que foi de US$ 53 milhões. Juntos, o Brasil e a Argentina bancaram 30% do projeto, de acordo com o professor da Unicamp. No geral, o observatório foi financiado por governos, por meio de agências de incentivos à pesquisa, e doações.
Escobar destaca também que a participação da iniciativa tem produzido resultados práticos para o país. “É importante a interação entre a academia e a indústria. A indústria se beneficia muito dessa relação, com a melhoria da qualidade dos produtos e processos e a inovação”, declarou.
Do ponto de vista acadêmico, o projeto contribui para a formação de novos cientistas. Além disso, a presença brasileira no projeto dá maior visibilidade à atividade científica do país. Só para se ter uma idéia, os resultados anunciados em novembro foram publicados em renomadas revistas científicas, como a Science e a Nature, e apresentados na American Phisics Society.
História
O projeto foi idealizado em 1992 pelo norte-americano James Cronin, da Universidade de Chicago, ganhador do Prêmio Nobel, que logo se juntou ao escocês Alan Watson, da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Ele começou a ser oficialmente executado em 1995 a partir de um encontro organizado na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, e recebeu o nome do físico francês que pela primeira vez observou os “chuveiros” de partículas resultantes da entrada dos raios cósmicos na atmosfera terrestre. Pierre Victor Auger foi também o primeiro diretor científico da Unesco.
O Brasil esteve presente desde o começo, sendo que Escobar foi o primeiro presidente da Colaboração Pierre Auger e atualmente Ronald Shellard, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Rio de Janeiro, é vice-presidente.
A construção do observatório propriamente dito começou em 1999. Hoje cerca de 350 pessoas trabalham no projeto, sendo 26 no local. Os países participantes, além do Brasil e Argentina, são Austrália, República Checa, França, Alemanha, Bolívia, Itália, México, Holanda, Polônia, Portugal, Eslovênia, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos e Vietnã.
Do Brasil, as instituições acadêmicas participantes são o CBPF, Unicamp, PUC do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do ABC, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense. As agências de fomento brasileiras envolvidas são o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Ministério da Ciência e Tecnologia.
A Colaboração Auger já está desenvolvendo o projeto de um segundo observatório, de proporções ainda maiores, a ser construído no estado do Colorado, nos Estados Unidos.
Saiba mais
Site: www.auger.org

