Alexandre Rocha
São Paulo – A reabertura do escritório de representação da Liga dos Estados Árabes no Brasil poderá ser um dos assuntos tratados pelo secretário-geral da entidade, Amr Mussa, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler Celso Amorim, durante a visita que ele fará hoje (04) a Brasília. É o que esperam diplomatas consultados pela ANBA.
"Esperamos que este assunto seja tratado. Esta é a hora certa para reabrir o escritório", disse o decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil e embaixador da Palestina, Musa Odeh. Segundo ele, o escritório da Liga em Brasília foi fechado no final de 1994 por questões econômicas. Desde então o conselho de embaixadores vem fazendo o papel de representante da entidade no país.
De acordo com o conselheiro Rodrigo Amaral, do departamento do Oriente Médio no Itamaraty, a possibilidade de reativação do escritório já foi "mencionada" em conversas entre autoridades brasileiras e representantes do órgão. "Já houve sinalização de interesse para que se estabeleça este espaço", disse.
O principal objetivo da viagem de Mussa, porém, é tratar da organização da cúpula dos países árabes e da América do Sul, que será realizada em maio na capital brasileira. Em entrevista à ANBA na semana passada, Amr Mussa disse que a cúpula terá resultados sólidos em várias áreas passíveis de cooperação entre os dois blocos, como diplomacia, economia e cultura. Ele acredita também que o relacionamento entre árabes e sul-americanos poderá, no futuro, evoluir para a criação de uma zona de livre comércio.
"Esta visita é importante justamente porque ocorre logo após a cúpula da Liga Árabe (nos dias 22 e 23 de março em Argel) e pouco antes da reunião dos países árabes e sul-americanos", destacou Odeh. "A presença do secretário-geral demonstra a importância que a Liga está dando para a cúpula em Brasília", acrescentou o presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), Antonio Sarkis Jr. "Um bom relacionamento político vai se refletir nas relações comerciais", disse Sarkis.
Mussa está no Brasil também para conhecer melhor a comunidade de origem árabe residente no país, estimada em 12 milhões de pessoas. Ele quer fortalecer o relacionamento da Liga com os imigrantes e descendentes. "Vamos tentar otimizar isso ao máximo", afirmou o presidente da CCAB. "Para nós é motivo de um grande orgulho recebê-lo", acrescentou.
Agenda
O secretário-geral terá uma agenda cheia em Brasília. Pela manhã ele vai dar uma palestra no Instituto Rio Branco, a academia do Itamaraty. O egípcio Mussa é diplomata de carreira e foi ministro das Relações Exteriores do Egito durante 10 anos, antes de assumir o cargo na Liga em 2001.
Depois ele terá uma reunião com Celso Amorim, seguida de um almoço oferecido pelo Itamaraty e de uma entrevista coletiva. À tarde ele vai à Câmara dos Deputados, onde vai se encontrar com o deputado Jamil Murad (PCdoB-SP), que é secretário-geral da Liga Parlamentar Brasil-Árabe.
Mussa vai se reunir com Lula no final da tarde, no Palácio do Planalto, e, à noite, vai participar de um jantar oferecido pelo conselho de embaixadores. Amanhã o secretário-geral estará em São Paulo, onde vai visitar a sede da CCAB e terá um encontro com o governador Geraldo Alckmin, no Palácio dos Bandeirantes.
A Liga
A Liga dos Estados Árabes foi criada em 1945, após a 2ª Guerra Mundial, para ser um fórum permanente de cooperação econômica, cultural, política e social entre os países árabes. Inicialmente sete nações faziam parte: Arábia Saudita, Egito, Iêmen, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria. Ela tem sede no Cairo e hoje reúne os 22 países árabes. Além dos já citados, compõem o órgão a Argélia, Bahrein, Catar, Djibuti, Emirados Árabes Unidos, Ilhas Comores, Kuwait, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Omã, Palestina, Somália, Sudão e Tunísia.
Como a Organização das Nações Unidas (ONU), a Liga é dividida em uma série órgãos setoriais. O poder máximo é exercido pelo Conselho da Liga, composto por representantes de todos os países membros, geralmente os chanceleres, e que se reúne ordinariamente duas vezes por ano, em março e em setembro.
Periodicamente a Liga organiza também uma reunião de cúpula dos chefes de estado dos países membros, o que vêm ocorrendo anualmente desde 2003. A última foi realizada em Argel, capital da Argélia, nos dias 22 e 23 de março. Abaixo do Conselho está o secretário-geral, que tem como função gerir a entidade nas áreas administrativa, financeira e política.
Em sua história, a Liga já atuou na mediação de conflitos regionais, promoveu a formulação de documentos para fortalecer a integração econômica da região, participou da criação do currículo escolar dos países árabes e da preservação de manuscritos e das tradições locais. Ela também lançou campanhas contra o analfabetismo e publica obras intelectuais.
Sob a chancela da Liga operam vários outros conselhos, comitês e associações setoriais. Existem, por exemplo, conselhos que reúnem ministros de várias áreas, como habitação, justiça, comunicações, saúde e turismo. Entre os órgãos que operam paralelamente à entidade estão a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (Opaep), o Fundo Monetário Árabe, o Fundo Árabe para o Desenvolvimento Econômico e Social e a Academia Árabe de Ciência e Tecnologia.
Entre as associações setoriais que atuam com a Liga está a União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, da qual fazem parte a CCAB e outras câmaras de comércio instaladas em países ao redor do mundo.

