Isaura Daniel
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São Paulo – Quando chegaram ao Brasil, os libaneses, depois seus filhos e netos, eram chamados de turcos. Os que se mudaram para o Líbano, agora lá são conhecidos como brasileiros. Indagada se se sente brasileira ou libanesa, a dona de casa Widat Ismael Mohamad El-Kaderi, que nasceu no Brasil, mas é descendente de libaneses e mora no Vale do Bekaa, no Líbano, responde: "Meio a meio." Widat se mudou para o país árabe em 1997, depois de ter casado e tido filhos com um libanês. O retorno da dona de casa, e de mais 49 pessoas às suas origens, foi tema da tese de doutorado da historiadora Samira Adel Osman.
Samira viajou ao Líbano entre o final do ano de 2003 e o começo de 2004 e entrevistou 50 pessoas, todas libanesas ou descendentes que viveram no Brasil e retornaram ao seu país de origem. Perguntou sobre os motivos da mudança, a fase da adaptação, a velha e a nova vida. E chegou a uma conclusão. "Eles se sentem fora do seu lugar, quando imigram e quando retornam. Quando estavam no Brasil, eram chamados de turcos. No Líbano, são brasileiros, eles têm dificuldade de estabelecer uma identidade", afirma a pesquisadora, que está buscando uma editora para transformar a sua tese, que tem 550 páginas, em livro. Samira, filha de libaneses, mora em São Paulo.
O doutorado foi feito pela Universidade de São Paulo (USP). Samira, graduada em História pela instituição, teve como tema de mestrado também a imigração libanesa. No mestrado o estudo foi sobre a manutenção da cultura libanesa entre os imigrantes. "Me chamou a atenção a ligação forte que eles ainda tinham com o Líbano." Foi aí que Samira resolveu estudar outro tema: o retorno. A primeira grande leva de imigração libanesa no Brasil ocorreu no final do século 19, quando o Líbano era dominado pelo império turco-otomano; a segunda após a 2ª Guerra Mundial, em função da pobreza que assolava o país; a terceira em 1975; e a quarta em 1982, época da guerra civil.
Já a volta para casa, segundo Samira, começou a ocorrer no final dos anos 80, depois que a situação começou a se estabilizar no país árabe e também num momento no qual o Brasil enfrentava problemas econômicos. O maior fluxo, porém, diz a historiadora, aconteceu nos anos 90, na reconstrução do Líbano. E como foi essa volta, segundo a pesquisa de Samira? A adaptação, para a maioria, não é fácil, de acordo com a historiadora. "Eles têm dificuldade de concluir os estudos e de se inserir no mercado profissional", diz. Samira centrou sua pesquisa no Vale do Bekaa. As escolas, que ensinam em inglês e árabe, segundo ela, não estão preparadas para receber estes brasileiros. A conseqüência é que muitos não conseguem concluir os estudos e com isso se torna difícil conseguir um bom trabalho.
Os jovens acabam, então, fazendo serviços eventuais ou trabalhando na lavoura. Já os adultos normalmente juntaram algum capital no Brasil e abrem pequenos negócios, como mini-mercados e borracharias, compram pedaços de terra para plantar ou se tornam taxistas. "Há uma frustração em função das dificuldades econômicas e da adaptação. No caso da primeira geração, eles saíram adolescentes e jovens do país e retornaram adultos. Voltam ainda com as imagens da infância, mas esse tempo, da memória deles, já se foi. Eles não são mais parte do lugar. A frustração é grande", afirma Samira.
Outra dificuldade de adaptação é a cultural. No Líbano, família tem, segundo a doutora, sentido de clã. Ou seja, não só pai, mãe e irmãos são parte da família, mas também primos, avós, tios, entre outros. Já no Brasil, diz Samira, a família é considerada apenas o pequeno núcleo. "Eles não admitem mais as pessoas se intrometendo, falando da sua mulher e da sua filha. E no Líbano, toda a família opina", conta. Também há dificuldades nos namoros. "Se um menino conversa com uma menina, ouve depois que está comprometido e terá que se casar com ela. Já as meninas que conversam com os meninos acabam mal faladas. As meninas se retraem para não ficarem mal faladas", relata.
Widat, do Líbano e do Brasil
A família de Widat é um exemplo desse processo de adaptação na volta ao Líbano. Widat nasceu no Brasil, mas se mudou para o Líbano com o marido e os quatro filhos, há 10 anos. A dona de casa afirma que gosta da sua vida no país árabe, mas sente saudades da família que ficou no Brasil. Também tem saudades de ler os livros de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. "Há dez anos que não leio um livro", disse Widat à ANBA por telefone, da sua casa no Vale do Bekaa.
O marido de Widat abriu uma borracharia no Líbano. No Brasil era mascate, vendia roupas. Dos quatro filhos – três homens e uma mulher, todos jovens -, apenas um conseguiu concluir o ensino fundamental no país árabe. "Eles conseguiram ser alfabetizados em árabe, e só", diz. Eles tiveram dificuldade de seguir os estudos em função do idioma. Um virou cabeleireiro, outro está no exército e outro faz trabalhos eventuais como pintor de casas ou pedreiro. A menina casou-se e cuida da casa. Widat afirma que é mais fácil ganhar dinheiro no Brasil. Mesmo assim, ela gosta da sua vida no Líbano. "Eu não saberia mais viver no Brasil. O dia-a-dia aqui é muito gostoso", diz.
O Vale do Bekaa é uma região que concentra um grande número de brasileiros. No local estão cidades como Kemed Lauz, Jeb Janine e Ghazzé. A principal rua de Zahle, capital do Vale do Bekaa, se chama Avenida Brasil. A região fica no Leste do Líbano, perto da fronteira com a Síria. Samira, que fez a pesquisa no local, dá aulas de história atualmente no Centro Universitário Senac, em São Paulo.
Contato
Samira Adel Osman
E-mail: sa.osman@uol.com.br

