São Paulo – As dificuldades da economia brasileira e a desvalorização do real frente ao dólar trouxeram diferentes desafios para as empresas nacionais. Algumas se beneficiam da alta da moeda norte-americana para ampliar suas vendas externas, outras têm que se adaptar para não perder sua fatia de mercado, segundo contaram à reportagem da ANBA alguns dos executivos e empresários que estiveram nessa segunda-feira (30) no evento Cenários Econômicos dos Países Árabes e do Brasil, promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira em São Paulo. O seminário teve palestras de Michel Alaby, diretor-geral da entidade, e Daniel Hannun, diretor de Investimentos.
Ricardo Gil, gerente de Vendas da Alimentos do Brasil, empresa que comercializa produtos alimentícios, não acredita que a alta do dólar afete negativamente as vendas externas de seu setor. Para ele, a forte posição do Brasil como fornecedor de alimentos no mundo faz com que os outros países não deixem de buscar os itens produzidos aqui.
“Acho que o dólar alto é um incentivo para o brasileiro exportar, mas esperamos do governo um apoio para facilitar a exportação. Não acredito que o dólar alto seja uma boa, deveria haver um equilíbrio, mas não acredito que afeta [a exportação], porque quem importa não vai deixar de importar [do Brasil], especialmente se for um produto que tem muito aqui e não se pode achar em outras regiões do mundo. Vai atrapalhar na questão de negociação de preço, mas deixar de importar eu acho que não”, avaliou.
Marília Espalaor, analista de Comércio Exterior da Maricota Alimentos, afirma que os negócios da empresa não foram afetados pelas dificuldades nos mercados interno e externo.
“A crise tem nos ajudado para a exportação ficar mais favorável. A gente está com um mercado muito bom no mundo árabe”, afirmou. A executiva contou que a empresa tem um distribuidor nos Emirados Árabes Unidos e está trabalhando para abrir os mercados do Catar e da Arábia Saudita.
Janaina Azevedo é responsável pelas vendas internacionais da Lopesco, empresa produtora de envoltórios (tripas) para embutidos. Segundo ela, a alta da moeda dos Estados Unidos está afetando os negócios da indústria que, antes de exportar sua produção, precisa comprar insumos importados.
“O que escutamos muito dos clientes é que agora o dólar está alto e nós precisamos baixar os preços. Isso não acontece, porque a maior parte dos insumos que a gente precisa para alimentar o gado é importada, assim como vacinas e vitaminas. Somos o cliente final do frigorífico, e como isso é repassado na compra da matéria-prima para industrializar e exportar, a gente tem que repassar também”, explicou.
Segundo ela, a empresa não deverá subir mais os preços dos produtos para evitar a parada nas vendas. “Já chegamos num topo de preço, não conseguiremos ir além disso, senão a mercadoria vai acabar ficando em estoque. Então, realmente isso é uma coisa bastante negativa (a oscilação do câmbio), as exportações caíram muito”, afirmou.
Para Katia Timani, proprietária da Kans BR, empresa de cosméticos capilares, é preciso usar a criatividade para aproveitar o momento de baixa do real e as oportunidades que se abrem no mercado externo.
“O Brasil nunca deixou de ter crise ao longo desses anos. É dentro da crise que a gente adquire criatividade. Não é bacana a gente se basear no dólar para ter competitividade lá fora, mas sim ter uma política interna que nos favoreça para nos tornarmos competitivos lá fora, mas a possibilidade de hoje se baseia no dólar, na diferença do dólar, e eu vejo com uma visão muito positiva em relação à exportação”, declarou.
Segundo Stephane Perard, diretor-geral da companhia aérea Emirates Airline no Brasil, “a aviação de um modo geral está sendo atingida pela situação econômica negativa, mas a Emirates está muito bem preparada para lidar com essas circunstâncias”. “Nós fizemos alguns ajustes em relação à tarifa para continuar a dar um incentivo [aos brasileiros] para experimentarem a Emirates e continuar a viajar. Fizemos algumas reduções de tarifas, lançamos mais promoções do que normalmente para dar um incentivo ao passageiro voar e continuar a fazer o que faz normalmente”, revelou.
Cenários
No evento, Michel Alaby falou sobre os cenários econômicos nos países árabes. “Nos últimos cinco anos, as importações árabes do mundo cresceram 50,30%”, destacou, apontando a situação daqueles países como uma boa oportunidade de mercado para as empresas brasileiras.
O executivo ressaltou o crescimento esperado para os países árabes, que entre os mais ricos deve chegar a quase 5%. “Nos países do Conselho de Cooperação do Golfo, no período de 2014/2015, é estimado um crescimento médio de 4,5%, sendo que o PIB não-petrolífero crescerá até 6%, e o petrolífero, em 0,5%”, disse.
Para as empresas brasileiras, Alaby apontou boas oportunidades de exportações aos árabes especialmente em itens como grãos e carne bovina.
Daniel Hannun falou sobre o momento atual da economia brasileira e suas perspectivas. “Temos um câmbio que, principalmente para os exportadores e importadores, atrapalha bastante a vida porque tem movimentos abruptos no meio do caminho. O ideal é que tenhamos um câmbio estável, no qual a gente consiga se planejar”, afirmou.
Segundo o economista, mais do que o valor do dólar em si, o importante é que haja estabilidade na cotação da moeda. “Não acredito que voltemos a pensar em um patamar de R$ 2,20 [por dólar], porque este era um patamar artificial também, mas uma das coisas mais difíceis de se falar é o valor [da moeda norte-americana], porque há muitas variáveis”, apontou.
Mas, de acordo com Hannun, é preciso aproveitar a maior competitividade que a alta do dólar proporciona às exportações do País. “O mundo é muito maior do que só o consumo interno brasileiro”, completou.


