Isaura Daniel, enviada especial
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Petrolina – Muitos moradores da região de Simplício Mendes, município do interior do Piauí, deixaram de andar a pé ou de jegue nos últimos anos porque compraram motos. Vários também colocaram geladeiras e televisões dentro das suas casas. Quem está levando mais renda para estes sertanejos, que vivem em uma região de semi-árido, e permitindo que eles tenham mais conforto, é o mel. Um projeto de produção e venda coletiva do produto está transformando apicultores em empresários. Eles cuidam das abelhas e coletam o mel, mas também o envasam com marca própria e o vendem para o Brasil e o mundo.
O trabalho dos produtores é coordenado pela Associação dos Apicultores da Micro Região de Simplício Mendes (AAPI). E essa não é a única iniciativa, no semi-árido brasileiro, de industrialização de produtos agrícolas. Há agricultores e pecuaristas organizados em cooperativas e associações para produção e venda de iogurtes, queijos, sucos e até geléia de umbu. A experiência dos apicultores de Simplício Mendes é considerada um exemplo na região. Tudo começou em 1989, com o trabalho de líderes da Igreja Católica para a difusão local da apicultura como forma de melhorar as condições de vida dos moradores.
A igreja patrocinava a compra de colméias para as famílias. Depois foi formada uma entidade, chamada Fraternidade Francisco de Assis para cumprir este papel. E criada a associação dos apicultores para facilitar a comercialização, em 1994. Hoje produtores de nove municípios do semi-árido ao redor de Simplício Mendes estão envolvidos na produção. São cerca de 15 mil colméias espalhadas por cerca de 1,1 mil propriedades familiares em 31 comunidades, de acordo com o assessor técnico da AAPI, Paulo José da Silva. "Em cada comunidade duas pessoas ajudam no controle da qualidade do mel", diz.
Antes de começar a produzir, os apicultores passam por treinamento. Neste momento, segundo Silva, a associação está em processo de legalização de uma cooperativa para facilitar ainda mais as vendas. O mel do sertão do Piauí chega aos consumidores com as marcas Nutritivo Mel e Gota Silvestre e tem inclusive embalagens com rótulos em inglês. A primeira exportação foi feita em 2002 para a Itália. Atualmente o mel já foi experimentado nos Estados Unidos e é consumido também, em território brasileiro, no Piauí, São Paulo e Brasília. No ano passado foram produzidas 80 toneladas de mel.
"A produção de mel é um incentivo para que os jovens percebam que é possível viver na nossa região, que não é preciso se mudar para o Sudeste", diz Silva. A apicultura é, na verdade, uma das atividades mais indicadas por pesquisadores para o semi-árido, já que para levá-la adiante é necessário preservar a vegetação local, habitat das abelhas. Os associados da AAPI, por exemplo, chegam a introduzir na caatinga plantas que floram no período de escassez das árvores nativas para suprir a alimentação das abelhas. São plantadas desde aroeiras até leucenas.
As mulheres do umbu
Outro projeto de industrialização de produtos agrícolas que leva em conta a valorização das plantas do semi-árido é o da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), da Bahia. A cooperativa produz 100 toneladas de produtos ao ano, entre geléias, sucos, doces, polpas e compotas, a partir de umbu e maracujá-do-mato, que são originários da caatinga, além de goiaba e manga. O trabalho começou com a vontade de líderes do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) de levar uma opção de renda para as mulheres do campo. O instituto tem como missão ajudar os sertanejos da região a viver bem no semi-árido.
Foi assim que em 1999, mulheres de Canudos, Uauá e Curaçá, municípios baianos, começaram a transformar as frutas, na cozinha das suas casas, em geléias, sucos e doces para consumo da família. Mas a produção foi crescendo, elas começaram a vender nas feiras locais, passaram de 20 mulheres para 100 em 2000 e em 2002 já eram 4.500 quilos produzidos. A solução foi criar a cooperativa, em 2003, e montar uma pequena fábrica em Uauá. Hoje a Coopercuc tem 14 unidades industriais nas três cidades. Segundo o seu gerente, Egnaldo Gomes Xavier, 68% dos produtos são feitos com umbu, 20% com maracujá-do-mato, e o restante com goiaba e manga.
Os produtos da Coopercuc, que somam 100 toneladas por ano, são vendidos nos estados brasileiros da Bahia, São Paulo e no Distrito Federal, e exportados para França, Áustria e Alemanha. Até o final do ano, segundo Xavier, chegarão também na Suíça e Itália. "No ano 2000, um saco de umbu in natura custava R$ 5 e esse mesmo saco transformado custava R$ 150", diz o gerente da cooperativa. A industrialização garante renda para 200 famílias e insere, segundo Xavier, R$ 1 milhão por ano na economia dos três municípios envolvidos. "Aumentou em 20% a renda destas famílias", diz ele. Além do umbu nativo, as famílias também cultivam umbu enxertado. Enquanto o nativo leva 15 anos para dar a primeira colheita, o enxertado leva entre quatro a cinco anos, segundo Xavier.

