Alexandre Rocha
alexandre.rocha@anba.com.br
São Paulo – O libanês Imad Shehab, de 54 anos, tem pela frente grandes desafios: ampliar a importância do setor privado nas economias do mundo árabe e auxiliar os governos da região a repartir os ganhos do crescimento econômico, gerando empregos e reduzindo a pobreza. Para tanto, ele vai contar com a estrutura da União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, entidade da qual assumiu o cargo de secretário-geral no início do ano.
Em entrevista exclusiva à ANBA por telefone de Beirute, onde mora, ele disse que durante sua gestão pretende implementar um plano de negócios qüinqüenal com o objetivo de promover uma renovação na instituição que reúne câmaras árabes do mundo inteiro, incluindo a Câmara de Comércio Árabe Brasileira. “Quero que a União seja realmente a representante do setor privado do mundo árabe”, afirmou.
Para realizar essa tarefa, Shehab, que é Phd em economia, conta com experiência de décadas como executivo de bancos, diretor de diferentes entidades setoriais, consultor de organismos internacionais e professor universitário. “O desafio hoje é balancear a distribuição dos ganhos com o boom econômico da região”, disse ele, referindo-as aos diferentes graus de desenvolvimento econômico dos países árabes. "O futuro será melhor", acrescentou. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
ANBA – Quais são suas perspectivas com relação à União Geral?
Imad Shehab – Quando assumi a secretaria-geral apresentei um plano de negócios para ser implementado em cinco anos. Ele tem como objetivos tornar a entidade mais visível, promover uma renovação grande em suas atividades e dar a ela um novo rumo de desenvolvimento. Quero que a União seja realmente a representante do setor privado da região, ajudando a atrair investimentos externos e fomentando os investimentos e o comércio entre os países árabes. A instituição deve buscar o desenvolvimento econômico e social da região, com a participação do setor privado, e também uma maior inserção do mundo árabe no cenário global.
Algumas coisas nós já começamos a fazer, como o lançamento de uma revista mensal de cerca de 120 páginas para ser a voz do setor privado árabe – antes havia uma revista publicada três ou quatro vezes ao ano -; a publicação de livros pela União e por especialistas sobre assuntos econômicos e sociais; e a reformulação de nosso website, que em cerca de três meses deverá se tornar um dos melhores da região, senão do mundo.
Outras ações que pretendemos promover são a realização de seminários, conferências e fóruns econômicos; a publicação de um boletim trimestral de pesquisas; trabalhar junto aos governos e mostrar a importância do setor privado; publicar uma lista anual de investidores e empresários árabes, outra sobre comércio exterior; e, a partir do próximo ano, lançar um guia sobre investimentos nos países árabes, para ajudar os investidores a saber mais sobre o ambiente para investimentos na região.
Queremos criar uma nova imagem para a União, reposicioná-la como parceira dos governos da região e ajudar os países a se integrar melhor no futuro. Vamos apresentar à Liga Árabe, durante o encontro de empresários árabes em janeiro de 2009, um relatório, uma espécie de “mapa rodoviário”, sobre como estabelecer um mercado comum árabe até 2016. Antes, no final deste ano, vamos organizar no Kuwait uma outra conferência para preparar e discutir esse estudo.
Os países árabes vivem realidades econômicas e políticas distintas. As nações do Golfo, por exemplo, passam por um boom econômico movido pelo petróleo, ao mesmo tempo em que países como o Egito sofrem com o aumento dos preços dos alimentos e o Líbano acabou de passar por um período de conflito político. É possível conciliar essas diferenças?
Em primeiro lugar o mundo árabe passa faz alguns anos por um grande boom econômico impulsionado pelos petrodólares. Existe hoje na economia da região uma liquidez, uma disponibilidade de recursos que varia de US$ 1,5 trilhão a US$ 2 trilhões. Isso permitiu a algumas nações árabes ter um crescimento real de 6% a 8% ao ano nos últimos anos, com uma boa melhora no perfil do mercado local, no ambiente para os investimentos, o que fez aumentar a entrada de investimentos estrangeiros diretos (IED). O fluxo de IED para alguns países tem crescido entre 5% a 6% ao ano, ante uma taxa de 2% anteriormente. Esses são aspectos positivos do boom do petróleo.
Agora, existem desafios, alguns emergenciais. Um deles é a inflação, que está em 10% ao ano em média. Temos problemas sociais. No Líbano, por exemplo, há desemprego e pobreza. O desafio é balancear a distribuição dos ganhos com o boom econômico.
Na questão da inflação, muito vem da Zona do Euro, com a valorização da moeda européia frente ao dólar. A Europa é um parceiro chave para nós, então importamos a inflação. Mas o crescimento da economia terá impacto positivo na geração de empregos e na inflação também. Acredito que o futuro será melhor.
E a questão política do Líbano está melhor. Teremos um novo presidente nos próximos dias (a entrevista foi feita na última sexta-feira, antes da eleição do general Michel Suleiman para o cargo, ocorrida no dimingo), depois um novo governo, um novo parlamento. Isso vai se refletir na economia e acredito que ela vai crescer mais nos próximos anos. Dos 2% a 3% atuais, o crescimento talvez dobre se a situação política continuar favorável. O turismo também poderá puxar a economia com reflexos positivos na indústria e no comércio. Esperamos receber turistas, especialmente do Golfo, onde a economia cresce mais.
O que o senhor planeja para as câmaras árabes no exterior, em especial a Câmara de Comércio Árabe Brasileira?
Em fevereiro começamos a trabalhar para fortalecer as relações com as câmaras conjuntas, com a organização de uma reunião em Atenas (na Grécia) que teve uma agenda muito rica. A conclusão a que chegamos é que a União terá uma posição de liderança, vai apoiar as câmaras a reforçar as relações econômicas, o comércio e os investimentos. Em junho teremos uma reunião dos presidentes e secretários-gerais das entidades, com a presença do secretário-geral da Liga Árabe, Amr Mussa.
Planejamos também em organizar missões comerciais, dos dois lados, fóruns econômicos, feiras de negócios, aqui mesmo na nossa sede, e a edição de guias de investimentos para que os investidores árabes tenham mais conhecimento dos outros países e vice-versa.
No caso do Brasil, pretendemos trabalhar junto com a Câmara Árabe Brasileira para organizar eventos bilaterais e desenvolver o relacionamento mútuo. O período de boom econômico que nós estamos passando e as relações históricas que alguns países árabes têm com o Brasil oferecem ao país a possibilidade de se beneficiar melhor desse processo.
A União está reposicionando sua parceria com os governos árabes, dando sugestões de desenvolvimento político e econômico, para que o setor privado tenha um melhor posicionamento na região. O setor privado já está mais aberto às parcerias internacionais após reformas econômicas adotadas por vários países árabes.
Haveria um encontro de empresários árabes no início de junho em Beirute, ele ainda vai ocorrer?
Estávamos programando realizar um encontro de empresários e investidores árabes nos dias 04 e 05 de junho, mas por causa da situação política no Líbano nós decidimos adiar. Ainda está sendo escolhida uma nova data, mas esperamos que ele ocorra no final de junho. É uma boa plataforma para que pessoas do Brasil venham e conheçam os investidores árabes, dêem informações sobre oportunidades de investimentos no Brasil, etc. Seria um bom movimento.

