Damasco – A economia da Síria melhorou com o processo de abertura iniciado há 10 anos, mas o país precisa avançar mais em áreas como desburocratização, infraestrutura, destinação de recursos públicos e capacitação de mão-de-obra. Essa é a opinião de grandes empresários sírios que atuam em diferentes setores e diversificaram seus negócios nos últimos anos incentivados pelas reformas.
“O país teve um sistema socialista por mais de 40 anos, não pode mudar tudo de uma hora para outra”, disse à ANBA o empresário Saeb Nahas, dono do Nahas Enterprises Group, conglomerado de 30 companhias que atuam em setores que vão da comercialização de veículos à produção de medicamentos.
Uma das principais reclamações dos empresários é a ingerência ainda muito forte do estado na economia, apesar da abertura para exploração privada de setores como os de infraestrutura, turismo, agricultura, indústria, bancário e petrolífero. “A economia aqui está entre o regime de mercado e o socialismo”, afirmou Najib Assaf, proprietário de empresas de comércio exterior, logística, produção de alimentos, seguradora e banco.
De acordo com Assaf, o setor público ainda controla algo entre 40% e 50% da economia síria e muitos processos burocráticos são impostos à iniciativa privada. “Não há 100% de liberalização”, declarou. “O presidente [Bashar Al Assad] quer melhorar [esse quadro], mas ainda existem resistências dentro do próprio governo à economia de mercado”, acrescentou.
O processo de abertura é uma resposta pragmática à realidade do país, que precisa ampliar a oferta de produtos e serviços no mercado interno, obter divisas por meio das exportações, atrair investimentos estrangeiros para viabilizar empreendimentos em áreas essenciais, como geração de energia e transporte, além de criar empregos para uma população crescente.
Segundo o vice-primeiro ministro para assuntos econômicos, Abdullah Dardari, responsável pelo processo de abertura econômica, o número de habitantes da Síria, hoje na casa dos 20 milhões, deverá dobrar até 2030.
“Existem desafios, não é fácil, mas estamos no caminho certo”, disse o empresário Tarif Akhras, dono do grupo TAG, que também atua nos mais variados segmentos, de produção de alimentos a desenvolvimento imobiliário. “Temos uma das melhores legislações sobre investimentos, mas ainda há um grande volume de burocracia”, acrescentou.
Infraestrutura
Para viabilizar suas ambições econômicas o país precisa desenvolver sua infraestrutura, reformar e construir portos, aeroportos, estradas e ferrovias. De acordo com o primeiro-ministro, Mohammad Naji Otri, para atrair recursos privados foram aprovadas novas leis e criado um órgão de promoção que funciona como uma espécie de “poupa tempo” do investidor. “Esse é um dos motivos pelo qual conseguimos manter um crescimento de 5,5% ao ano”, afirmou Otri.
Segundo Dardari, a Síria precisa investir cerca de US$ 50 bilhões em até 10 anos na área de infraestrutura e está ampliando as oportunidades para empresas privadas. Em outubro, por exemplo, será realizada uma conferência sobre parcerias público-privadas (PPPs), modalidade de contrato ainda não utilizada no país.
“A IFC está nos ajudando a elaborar a lei sobre o tema”, disse ele, referindo-se à International Finance Corporation, instituição do Banco Mundial que viabiliza investimentos e assessora países em desenvolvimento no fortalecimento do setor privado.
Uma infraestrutura moderna pode garantir à Síria uma posição de destaque na logística regional, por meio do desembarque de produtos importados em seus portos no Mediterrâneo e posterior transporte por terra para os mercados do Líbano, Jordânia e Iraque. A mesma lógica vale para as exportações de bens desses países para os mercados ocidentais, especialmente o escoamento de petróleo e gás por meio de dutos até o Mediterrâneo.
De acordo com Saeb Nahas, o transporte de produtos de, e para o Iraque por meio da Síria representa uma economia de 12 dias em comparação com a rota que sai do Mediterrâneo pelo Canal de Suez, contorna a Península Arábica e chega na costa iraquiana no Golfo. “A localização da Síria, entre a Europa e a Ásia, é fundamental”, acrescentou o primeiro-ministro Otri, lembrando da antiga Rota da Seda, que passava pelo país.
Na área petrolífera, segundo o ministro do Petróleo e Recursos Naturais, Sufian Al-Alao, o país precisa, além de oleodutos e gasodutos, de investimentos em exploração e produção. Segundo ele, a Síria pratica várias modalidades de contratos com empresas privadas, que vão da mera prestação de serviços, passando pela produção compartilhada, até a concessão total. Alao declarou que em breve deverão ser licitados 70 blocos de exploração em terra. Existem reservas de 2,5 bilhões de barris ainda não exploradas.
“A Síria precisa de muitos projetos, seja em eletricidade, cimento, aço, desenvolvimento agrícola, abastecimento de água, portos, aeroportos, empresas aéreas, estradas, o metrô de Damasco, o metrô de Alepo, etc. Precisamos de tudo”, resumiu Najib Assaf. “Isso vai ocorrer algum dia, o presidente [Assad] apóia”, declarou, acrescentando, porém, que existe ainda indefinição por parte do governo sobre como abordar determinados problemas econômicos.
Social
Um problema que promete atingir a Síria é a redução do volume de dinheiro que trabalhadores expatriados enviam às suas famílias. Se o país não foi afetado diretamente pela crise financeira internacional, os empregos dos sírios que trabalham na Europa e em outras regiões foram, segundo Saeb Nahas.
Dardari acrescentou que o processo de reformas vai entrar numa segunda fase a partir de 2011, que consiste em levar à área social os benefícios atingidos na seara econômica. O país tem especial interesse em programas bem sucedidos de redução da pobreza por meio da transferência de renda, como o brasileiro Bolsa-Família. “A Síria precisa muito dessa abordagem. Temos que ser bons na economia e também na área social”, declarou.
Segundo Nahas, a Síria tem condições de garantir um estado de bem-estar social para até 40 milhões de pessoas, o dobro da população atual, mas 50% dos recursos públicos ainda são destinados à área de defesa. “Os problemas nos países vizinhos também nos afetam, senão poderíamos gastar menos com defesa”, ressaltou o empresário, referindo-se ao Iraque, Palestina e Israel.
Ele acrescentou que o país precisa muito também de programas de capacitação profissional para conter a migração de pessoas do campo para as cidades. “É de interesse nacional manter as pessoas em suas casas, fixá-las em seu lugar. O campo está sendo evacuado e as cidades não têm condições de acomodar tanta gente”, disse.
Em sua visão, as populações das áreas rurais têm que ser capacitadas para reforçar a produção agrícola. “O campo tem que ser produtor, não somente consumidor”, declarou. A agricultura síria foi bastante afetada por uma grave seca ocorrida há dois anos e a migração dos habitantes para as cidades tende a prejudicar ainda mais o setor.
Agricultura
Nesse sentido, o desenvolvimento da agropecuária e da indústria alimentícia está entre as prioridades do governo sírio. De acordo com Dardari, se a população vai dobrar em pouco mais de duas décadas, a área plantada deve crescer apenas 1,5% no mesmo período, o que significa que a agricultura local precisa de enormes ganhos de produtividade. “O aumento da produtividade é a única maneira de alimentar o país”, declarou o vice-primeiro-ministro. “Precisamos de tecnologia”, acrescentou.
Tarif Akhras é um dos empresários que atuam fortemente no setor. Em novembro ele inaugura uma refinaria de açúcar na região de Homs, está também formando uma fazenda para criação de gado e pretende instalar um frigorífico para produção de carne bovina. “Estamos investindo muito dinheiro na Síria e acreditamos fortemente que eles serão muito lucrativos”, destacou.
Em sua avaliação, o presidente Assad “tem uma visão clara para o futuro do país” que passa pelo aprofundamento da abertura econômica. “Há grande potencial para o desenvolvimento agrícola aqui, pois é um grande mercado”, concluiu.

