Randa Achmawi
Cairo – O Egito lançou um projeto para o cultivo do trigo em terras sudanesas. O objetivo é tentar atenuar a crise criada pelas alta dos preços mundiais e diminuir o elevado custo pago pelas importações do produto. O Egito importa quase seis milhões de toneladas de trigo por ano, o que representa 40% do total consumido no país. A alta do valor do trigo também obrigou o governo egípcio a aumentar o valor consagrado às subvenções do pão.
Matéria publicada no semanário econômico egípcio Al Ahram Iktissadi afirma que usar as terras sudanesas para o plantio de uma parte do trigo consumido no Egito é a única solução para a atual crise. Segundo o ministro sudanês da Indústria, Galal Al Duker, se o trigo for plantado no Sudão custará a metade do seu atual preço nos mercados internacionais.
"Temos que aproveitar a complementaridade entre os dois países no setor da agricultura para assegurar a segurança alimentar de nossa população", disse o coordenador de segurança alimentar do comitê superior Egito–Sudão e ex- presidente do Centro de Estudos Agrícolas, Fawzi Naim Mahrus. Outros países como a Coréia, a China e mesmo a Jordânia já deram passos neste sentido e obtiveram licenças para o uso de terras agrícolas sudanesas.
Segundo anunciado recentemente pelo ministro sudanês da Indústria, o Egito, o Catar e os Emirados Árabes Unidos apresentaram pedidos para o cultivo de trigo em seis milhões de feddans, equivalentes a 2,5 milhões de hectares, das terras seu país.
O ministro egípcio do Investimento, Mahmud Mohieldin, em recente em visita ao Sudão, manteve discussões com as autoridades sudanesas sobre o projeto de cultivo de terras na fronteira entre os dois países, assim como no interior. O projeto, batizado com o nome de "Arqine", tem como objetivo o cultivo de um total de 1,8 milhões de feddans (756 mil hectares) na fronteira egípcia-sudanesa dentre os quais 1,2 milhões de feddans (504 mil hectares) no Sudão e o resto em terras egípcias.
Segundo o semanário, vários investidores egípcios no Sudão se entusiasmaram pela idéia e manifestaram seu interesse em participar do projeto. Mohamed Adel Al Ghandur, um dos egípcios que há algum tempo aposta no Sudão, é um deles. Ele explica que a cultura do trigo neste país terá custos consideravelmente inferiores aos em terras egípcias e o plantio muito mais fácil.
"O custo de preparação de 150 mil feddans (63 mil hectares) em terras egípcias para o plantio equivale ao gasto de 1 milhão de feddans (420 mil hectares) no Sudão. As terras neste país são muito mais férteis e por isso necessitam de uma quantidade de fertilizantes muito menor do que os necessários para o cultivo de terras no Egito", explica Ghandur.
Alem da proximidade geográfica, o Sudão tem a vantagem de ser um país de importantes recursos hídricos. "Além do rio Nilo, as chuvas são abundantes no Sudão e suas terras cultiváveis ultrapassam os 200 milhões de feddans (84 millhões hectares), dentre os quais somente 70 milhões (29 milhões de hectares) foram cultivados até agora. Estas são dimensões muito mais importantes do que as que possuímos aqui no Egito onde, ao todo, somente 8,5 milhões de feddans (3,5 milhões de hectares) de terras são cultiváveis”, diz Ghandur.
"O impacto da diferença é ainda maior se pensarmos que o Sudão conta com 40 milhões de habitantes, enquanto aqui no Egito somos 75 milhões”, diz. Na opinião de Ghandur, o Sudão tem um potencial para se tornar facilmente o "celeiro da região.
Para o conselheiro econômico da embaixada do Sudão no Cairo, Hassan Abou–Zeid, consultado por Al Iktissadi, o que impediu até agora o cultivo de grande parte das terras em seu país foi a falta de financiamentos, de tecnologia e sobretudo a falta de projetos para melhorar a infra-estrutura.
Hoje em dia se multiplicam as idéias e iniciativas no sentido de aproveitar melhor o potencial oferecido pelo Sudão na área da agricultura. "Com as técnicas e o conhecimento egípcio na área da agricultura e capitais vindos (dos paises) do Golfo poderíamos fazer milagres no Sudão", disse ao Al Iktissadi o especialista em agricultura, Mohamed Yehia.

