São Paulo – Depois de 20 anos praticamente estagnado, o ouro voltou a ganhar força durante a última década. Para se ter uma ideia, a cotação em Londres saiu de menos de US$ 300 a onça em 2001 até chegar ao pico de quase US$ 1,9 mil em setembro de 2011, oscilando para baixo e para cima deste então, mas nunca caindo a menos de US$ 1,52 mil. Este mês, o preço ficou sempre acima de US$ 1,76 mil.
O metal valorizou principalmente com a crise financeira internacional, a partir de 2008. Com a volatilidade dos mercados, muitos investidores correram para aplicações mais seguras, e o ouro cumpre esse papel desde que o mundo é mundo. Com a economia mundial agora abalada pela crise da dívida na Europa, o noticiário vive cheio de informações ruins e a única certeza é: haverá ainda muita incerteza até que as finanças globais retornem aos trilhos.
Nesse cenário, a avaliação é que o metal dourado vai continuar a oscilar, mas dificilmente cairá abaixo do patamar atingido nos últimos anos. “O ouro dificilmente vai baixar do patamar de US$ 1,5 mil a US$ 1,6 mil [a onça] no médio prazo”, disse o geólogo e consultor em economia mineral Luciano Borges. “Não acredito em queda [maior] nem com a estabilização econômica e política”, acrescentou.
A cotação do ouro foi catapultada ainda mais por um fenômeno decorrente da crise, a política monetária adotada pelos governos de diferentes países, com destaque especial aos Estados Unidos – afinal o padrão mundial é o dólar -, que pratica a “quantitative easing”, uma espécie de eufemismo para a impressão de mais dinheiro. O objetivo é injetar mais recursos na economia, estimular o crédito, o consumo e, consequentemente, o crescimento.
Mas essa estratégia provoca também a desvalorização da moeda e empurra para o ouro investidores que costumam compra dólar. Some-se a este mecanismo as taxas de juros baixíssimas praticadas atualmente na economia internacional, o que torna outras aplicações financeiras pouco atraentes, além dos altos e baixos do mercado de ações.
“Quando há crise [na economia], há uma corrida para o ouro. É um fenômeno atávico e cultural de milênios”, observou o diretor de Assuntos Minerais do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Marcelo Ribeiro Tunes. “A curva histórica do [preço] do ouro sobe e nunca volta para patamares muito baixos”, destacou.
Difícil mesmo é saber até onde pode ir a cotação da commodity. “Essa é a pergunta de US$ 1 bilhão”, ironizou Borges, que diz que existem empresas do ramo de mineração que falam que a onça pode chegar a US$ 2,5 mil, mas ele mesmo não acredita em um preço acima de US$ 2 mil, pelo menos não no curto prazo.
Para o diretor de Operações com Ouro da distribuidora de títulos e valores mobiliários OM Grupo, de São Paulo, Aquiles Júnior, o valor pode chegar a US$ 1,9 mil até o final do ano. Ele destaca que a evolução da cotação está de acordo com as projeções feitas pela empresa no início do ano e afirma que, mesmo com as oscilações, no futuro o valor do metal “não deve voltar muita coisa”.
Dizer que a cotação vai continuar em nível alto, porém, não é garantia de retorno. O professor de Finanças da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Keyler Carvalho Rocha, observa que o preço pode continuar a subir, mas como já está alto, também pode cair, mesmo permanecendo em um nível acima dos valores históricos.
“Não há nada científico sobre o ouro”, ressaltou Rocha. O professor cita fenômenos que podem ocorrer e incentivar os investidores a buscar outras aplicações, como uma mudança significativa nas taxas de câmbio, venda do metal por bancos centrais e uma melhora da economia internacional. Para ele, é preciso uma visão muito pessimista do cenário internacional para apostar numa contínua valorização do ouro.
Rocha destaca que aplicações como as ações, embora possam oscilar bastante, têm outras vantagens, entre elas o pagamento de dividendos, que dependem muito mais do desempenho da empresa escolhida do que dos altos e baixos da bolsa de valores.
Consumo
Aquiles Júnior lembra, porém, que não foram só os atrativos financeiros que ampliaram a procura pela commodity. Ele destaca o crescimento dos países emergentes e o aumento sensível do número de consumidores em nações como China, Índia e Brasil. Isto fez avançar a procura por ouro não só como investimento, mas também por joias e outros bens industrializados que usam o metal como insumo.
De fato, embora a compra de ouro como reserva de valor tenha crescido, a indústria de joias ainda é o principal destino do metal produzido no mundo. Segundo dados fornecidos pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão do Ministério de Minas e Energia, as joalherias consumiram quase 2 mil toneladas no ano passado, contra pouco menos de 1,7 mil toneladas destinadas aos investimentos.
Essa diferença, porém, já foi maior. É que conforme o preço do metal aumenta como ativo financeiro, ele também cresce como insumo. Houve aumento do consumo de joias nos últimos anos, mas diminuiu a quantidade do metal utilizada por peça, pelo menos no Brasil. “Vimos um aumento significativo do preço do ouro [como insumo] e passamos até a usar prata como substitutivo”, ressaltou o diretor da Área Internacional do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Precisos (IBGM), Luiz Lacombe. Peças de prata, folheadas, mais leves, com mais pedras e atenção cada vez maior ao design ajudam a economizar no ouro. Lacombe afirma, por exemplo, que um desenho refinado “garante valor visual” e pode permitir a confecção de uma peça mais leve.
“O Brasil teve um ‘boom’, uma nova classe [média], que estava esquecida do ponto de vista do consumo, mas que com as mudanças econômicas e sociais [ocorridas nos últimos anos] entrou no mercado”, declarou Lacombe. “Se estas pessoas não podem comprar joias de ouro, compram folheadas. Um anel de prata não deixa de ser um anel”, acrescentou.
Exportação
Mas se o mercado brasileiro cresce isso não quer dizer que o metal vendido aqui seja produzido no País. As commodities não são exatamente conhecidas por sua fidelidade aos mercados de origem. Nesse sentido, das 55 toneladas de ouro produzidas no Brasil em 2011, segundo o Ibram, 44,6 toneladas foram exportadas, o que rendeu US$ 2,24 bilhões. A estimativa para este ano é de uma produção de 58 toneladas e de vendas externas de 46 toneladas (leia no link abaixo mais informações sobre a produção brasileira).
O maior mercado do mundo é a Índia, seguida da China, Europa, Oriente Médio e Estados Unidos. O comércio de joias e metais preciosos é tradicional na Ásia e em países árabes. Segundo dados compilados pelo DNPM, por exemplo, o Egito importou 11,6 toneladas de ouro no segundo trimestre de 2012, um aumento de 40% em comparação com o mesmo período de 2011.
Vale lembrar que do início do ano passado para cá o país teve um levante popular que resultou na queda do ditador Hosni Mubarak, a eleição de um novo presidente após três décadas e ainda há muita incerteza política e econômica, cenário que costuma levar pessoas a buscarem o ouro como porto seguro, neste caso em forma de joias. Do total importado pelo Egito de maio a junho, 11,1 toneladas foram para os joalheiros.
A cultura tem também forte influência na procura pelo ouro. Em países muçulmanos ainda é comum a família do noivo oferecer dote à noiva, dado na forma de joias, e o ouro é considerado uma boa alternativa de investimento, já que a religião não permite que o fiel ganhe dinheiro com a cobrança de juros. O lucro com a compra e venda de mercadorias, porém, é permitido. Na região, os maiores importadores são a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e depois o Egito.

