Alexandre Rocha
São Paulo – Em busca de novos mercados, a Embraer está desenvolvendo ações de promoção comercial junto a países árabes. Foi o que disse ontem (18) o presidente da empresa, Maurício Botelho. "Os negócios continuam a ser desenvolvidos", declarou ele, durante entrevista coletiva para a apresentação dos resultados de 2003 da companhia. De acordo com o executivo, tais ações envolvem tanto a aérea de aviação civil, quanto a corporativa e a de defesa.
No início de janeiro, o xeque Sultan Bin Califa Bin Zayed Al Nahayan, segundo homem na linha de sucessão de poder nos Emirados Árabes Unidos, visitou a sede da empresa em São José dos Campos, interior de São Paulo.
Um mês depois, Botelho afirmou que havia uma "percepção positiva" de negócios com os árabes. O vice-presidente executivo para o mercado de aviação civil da Embraer, Frederico Fleury Curado, acrescentou que, no caso da aviação comercial, os árabes haviam manifestado maior interesse na nova família de jatos regionais da empresa, Embraer 170/190.
"Continuamos a conversar", declarou Botelho ontem.
Preços menores
A empresa aposta boa parte do seu cacife no crescimento do mercado de jatos regionais com capacidade para carregar entre 30 e 110 passageiros, no qual se enquadra a maioria dos modelos produzidos pela empresa.
Botelho disse que, enquanto as grandes empresas aéreas passam por dificuldades financeiras, as companhias que oferecem vôos regionais e "low cost" (que praticam tarifas reduzidas) vêm crescendo. "Esse é um sinal importante que indica o desenvolvimento desse mercado", declarou.
Para o executivo, os jatos oferecidos pela Embraer são "as ferramentas corretas" para esse tipo de transporte. Ele acredita que as companhias vão optar por esse tipo de aeronave.
Índia e EUA
Na área de defesa, a Índia é um mercado que interessa à Embraer. Botelho contou que acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país asiático em janeiro e ficou "impressionado" com os equipamentos utilizados pelas forças armadas locais, "que utilizam tecnologia desenvolvida no próprio país". Em sua avaliação, é possível uma aproximação com a indústria indiana e o desenvolvimento de projetos conjuntos.
A empresa quer também entrar no mercado de defesa norte-americano. Botelho espera para abril o resultado de uma licitação promovida pelo governo dos Estados Unidos para a compra de aviões de vigilância, da qual a Embraer participa associada à Lockheed Martin.
A Embraer espera entregar em 2004 160 jatos regionais, sendo 12% de aviões executivos, 35% da família ERJ 145 e 53% da família 170. Para 2005 a expectativa é entregar 170 aeronaves comerciais: 15% executivas, 37% do modelo 170 e 48% ERJ 145.
Embora os resultados de 2003 tenham sido inferiores aos dos anos anteriores, Botelho ressaltou que a carteira de pedidos firmes, que reúne os contratos de compra, somava ao final do ano US$ 10,6 bilhões, contra US$ 9 bilhões em 2002.
Investimentos e previsões
Em termos de investimentos, a Embraer pretende aplicar US$ 1,2 bilhão nos próximos cinco anos, principalmente em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Para este ano, os investimentos previstos são da ordem de US$ 280 milhões e, para 2005, de US$ 254 milhões. Apesar do ano difícil, a empresa investiu em 2003 US$ 263,1 milhões (R$ 765 milhões).
Juntando todos esses fatores, Botelho está otimista com a possibilidade de um "crescimento acentuado" no faturamento da empresa em 2004.
Fato que trará alívio, já que o faturamento de 2003 foi 15,2% menor do que o registrado em 2002, passando de quase R$ 7,75 bilhões para R$ 6,57 bilhões, o menor patamar do último três anos. Já o lucro líquido caiu mais de 50% na comparação com 2002, de R$ 1,18 bilhão para R$ 587,7 milhões, o mais baixo dos últimos quatro anos.
Botelho disse que o mercado de aviação ainda sofre as conseqüências dos atentados terroristas de setembro de 2001 em Nova York e Washington. "As principais linhas aéreas amargaram prejuízos exponenciais", afirmou. Somada a isso, houve a epidemia de SARS (pneumonia asiática), fato que, na avaliação do executivo, afetou o transporte aéreo asiático e suas conexões com o ocidente. Além disso, o relatório divulgado pela empresa afirma que o crescimento da economia mundial ficou abaixo do esperado. Todos esses fatores, além dos efeitos da guerra no Iraque, fizeram "com que a recuperação plena do tráfego aéreo mundial fosse postergada ainda mais".
"Isso fez com que a avaliação de risco do setor continuasse alta, o que causou escassez de financiamentos", declarou Botelho. Sob este ponto de vista, tanto o relatório, quanto o próprio Botelho, destacaram que os números da empresa, apesar do cenário internacional ruim, só foram atingidos "pelo apoio recebido do governo brasileiro, principalmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)". Apoio esse que viabilizou "parcelas significativas" das exportações da companhia.
O quadro difícil, de acordo com o executivo, levou ao cancelamento e adiamento de pedidos por duas companhias aéreas, a Express Jet e a Swiss. Além disso, as primeiras unidades do Embraer 170, novo jato regional da empresa, deveriam ter sido entregues no ano passado, mas houve um atraso na certificação (habilitação para uso comercial) do avião e as primeiras entregas só foram feitas no começo deste mês. Com tudo isso, foram feitas apenas 101 entregas em 2003, contra uma previsão inicial de 148. Foi o número mais baixo dos últimos quatro anos.
Além disso, o vice-presidente executivo corporativo da Embraer, Antonio Luiz Pizarro Manso, acrescentou que a valorização do real frente ao dólar fez com que o faturamento da empresa caísse em moeda nacional, já que as vendas da Embraer, todas externas, são feitas em dólar.
Volta de financiamento
No entanto, Botelho acredita que há uma luz no fim do túnel no que diz respeito aos financiamentos. Ele disse que a empresa conseguiu no ano passado um crédito de US$ 414,6 milhões tendo como garantia recebíveis da Continental Airlines. Fato que, para ele, indica que o mercado financeiro começa a "olhar de novo" para o segmento da aviação.
Ainda no final do ano passado o ERJ 145 começou a ser produzido pela Harbin/Embraer, joint-venture criada pela empresa brasileira e pela China Aviation II. Botelho declarou, porém, que o processo de conquista do mercado chinês está sendo "um pouco mais lento" do que a diretoria da companhia esperava.
Botelho disse ainda que o valor de mercado da empresa hoje gira em torno de US$ 6 bilhões. Até o final de 2003 a Embraer empregava 12.941 pessoas. Neste ano, segundo o executivo, já foram contratadas 480 e outros 300 empregos deverão ser gerados até dezembro.

