Alexandre Rocha
São Paulo – A Embraer, fabricante brasileira de aviões, considera hoje o Oriente Médio como um dos principais mercados mundiais para aeronaves executivas. Tanto isso é verdade que ela levou em conta características do mercado da região ao desenvolver o projeto do seu novo jato executivo, o Lineage 1000, lançado no início do mês passado.
"O Oriente Médio é muito importante para a aviação executiva, em função do número de pessoas e empresas na região que têm condições de adquirir aeronaves do gênero", disse o vice-presidente para o mercado de aviação executiva da Embraer, Luís Carlos Affonso, em entrevista exclusiva à ANBA.
Além da liquidez de recursos na região, causada pelo alto preço do petróleo, um novo tipo de empresa aérea passou a operar por lá, segundo Affonso. Além do "charter" tradicional, mais conhecido como "táxi aéreo, existem agora serviços de "charter programado", ou seja, companhias que oferecem vôos executivos para destinos fixos.
As duas últimas vendas feitas pela companhia ao Oriente Médio foram justamente de jatos executivos, ambos do modelo Legacy, para até 16 passageiros. Os pedidos foram feitos em maio pelo libanês Adnan Kassar, presidente do banco Fransabank e da União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes; e pela Celtel International, subsidiária africana da MTC, empresa de telefonia móvel sediada no Kuwait.
Com as encomendas, subiu para sete o número de jatos Legacy vendidos pela Embraer na região. "Nós conseguimos um sucesso muito grande com o Legacy, especialmente porque ele tem uma cabine grande, 50% maior que as dos concorrentes, e também acomoda 50% mais bagagem", afirmou Affonso. "E no Oriente Médio, é comum viagens com um maior número de passageiros e com mais bagagem", acrescentou.
Influência do mercado
Este demanda por aviões de maior porte influenciou, de acordo com Affonso, a empresa a optar pela plataforma do Embraer 190, e não do Embraer 170, na hora de desenvolver o projeto do seu novo jato executivo. Embora sejam da mesma família, o 170, em sua versão comercial, tem capacidade para levar até 78 passageiros, enquanto que o 190 tem condições de acomodar até 106 pessoas.
Affonso disse que durante a participação da Embraer na feira Dubai Air Show, realizada no ano passado nos Emirados Árabes Unidos, ficou clara a demanda local por aeronaves executivas maiores e com autonomia para distâncias acima de 4 mil milhas. "Em Dubai, nós conversamos com muitos clientes em potencial e estas conversas foram decisivas para a escolha da plataforma do Lineage", afirmou.
De acordo com ele, nos Estados Unidos, o maior mercado mundial para a aviação executiva, predominam os aviões leves. Já no Oriente Médio, embora o número de aviões em operação seja bem menor, 40% deles são "ultra-large" (ultra grandes), 25% "large" (grandes) e 35% pequenos e médios. "O Lineage é então um avião espetacular para a região, pois terá uma cabine enorme, muito espaço para bagagem e pode voar para qualquer destino na Europa e no Norte da África", declarou. A aeronave terá capacidade para levar entre 13 e 19 passageiros e vai entrar em operação, segundo a empresa, em meados de 2008. "Dá até para ter uma suíte, com cama e banheiro", acrescentou.
Espaço para menores
A aposta no modelo grande não quer dizer que a empresa não acredite também na possibilidade de vender por lá seus modelos menores, os também recém lançados Phenom 100 e Phenom 300 para quatro e seis passageiros, respectivamente. Eles são "executivos puros", ao contrário do Legacy e do Lineage, que derivam de aviões comerciais.
Na avaliação de Affonso, os jatos Phenom podem fazer sucesso na região entre empresários que gostam de pilotar seus próprios aviões e como aeronaves de treinamento. "E podem também ter aplicação em vôos charter, mas apenas regionais", disse.
Desde que o Legacy, o primeiro modelo executivo da empresa, entrou em operação em 2002, a Embraer entregou 74 unidades. De acordo com Affonso, o número de entregas vem aumentando: foram 13 em 2004, 20 em 2005 e serão entre 25 e 30 este ano. "A aviação executiva vive um bom momento e o Legacy tem aumentado a sua fatia no mercado", ressaltou.
Estratégia prevê mais modelos
As três linhas de aviões executivos da empresa cobrem diversas faixas de preço: o Phenom 100 custa US$ 2,8 milhões; o Phenom 300, US$ 6,65; o Legacy, US$ 24,5 milhões; e o Lineage sairá por US$ 40,9 milhões. "Temos modelos para todos os bolsos", disse Affonso. mesmo assim, já está nos planos da companhia ampliar seu portifólio. De acordo com ele, há espaço para pelo menos mais dois modelos entre o Phenom e o Legacy e mais dois entre o Legacy e o Lineage. "Certamente faremos novos lançamentos", afirmou.
Foi no início do ano passado que a Embraer decidiu investir mais no mercado de aviação executiva. De acordo com Affonso, com as famílias ERJ 145 e Embraer 170/190, que cobrem o segmento que vai dos 37 aos 118 assentos, a empresa passou a ocupar a 3ª posição entre as fabricantes de aviões comerciais, atrás apenas da norte-americana Boeing e da européia Airbus. Segundo ele, ampliar a linha de jatos comerciais com modelos maiores "não pareceu uma boa idéia", justamente porque a empresa bateria de frente com as duas concorrentes que já atuam fortemente neste mercado.
A opção então foi por ampliar a oferta de aviões executivos. "Isto ocorreu por causa do sucesso do Legacy e porque observamos que fatores essenciais de competitividade, que nos levaram a conseguir sucesso na aviação comercial, são também aplicáveis na aviação executiva", declarou.
Em termos de promoção comercial no Oriente Médio, a Embraer pretende participar novamente da Dubai Airshow em 2007 (a feira é bianual) e fazer viagens de demonstração pela região com seus aviões, como já fez no final do ano passado.
Além dos Legacy, a empresa está vendendo também jatos comerciais para os árabes. No ano passado, ela recebeu uma encomenda de 15 Embraer 175 da Saudi Arabian Airlines e, em março deste ano, mais um pedido de sete Embraer 195 da Royal Jordanian.

