Alexandre Rocha*
São Paulo – O jato Embraer 170 comprado pela companhia petrolífera líbia Syrte Oil deverá chegar em Trípoli, capital do país árabe, por volta do dia 12 deste mês. Pilotos líbios buscaram o avião no Brasil e depois seguiram para a Europa para a instalação de equipamentos para comunicação no deserto. As informações foram dadas à ANBA pelo embaixador do Brasil em Trípoli, Luciano Ozório Rosa. "Ele já realizou seu vôo inaugural", disse o diplomata. Segundo a Embraer, a entrega foi feita na segunda-feira (02) em São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde fica a sede da empresa.
O anúncio da compra da aeronave, que tem capacidade para 76 passageiros, foi feito em dezembro do ano passado. Na ocasião, o preço de tabela anunciado era de US$ 27,5 milhões. A Syrte, que é uma empresa estatal, vai utilizar o avião para o transporte de funcionários. "É um avião que requer pistas de pequena extensão e pode pousar em campos em diversas partes do país", afirmou o embaixador.
Rosa planeja organizar uma cerimônia para marcar a chegada do aparelho ao país árabe, já que se trata do primeiro jato vendido pela Embraer para a uma companhia líbia. O primeiro, mas provavelmente não o último. O embaixador ressaltou que esta encomenda deverá abrir as portas para outras, uma vez que o governo local adotou uma política para transformar Trípoli em um ponto de conexão aérea entre a Europa e a África.
"A Líbia passou muitos anos isolada, mas agora se transformou em uma Meca dos investimentos, principalmente nos setores de petróleo e construção", disse o embaixador. Nos últimos anos o país voltou a ter boas relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos e a União Européia e tem gozado de grande liquidez por causa do alto preço do petróleo, o motor da economia local.
Segundo Rosa, uma das empresas aéreas líbias, a Afriqiyah, opera vôos regulares para diversos destinos na Europa e nos países africanos e, entre as companhias locais, há a necessidade de compra de novos aviões, já que os que estão em uso hoje estão sob contratos de leasing.
O diplomata disse que a Afriqiyah tem interesse em jatos maiores da Embraer, dos modelos 190 e 195, o primeiro com capacidade para até 106 passageiros e segundo para até 118, e já mantém negociações com a companhia brasileira. A assessoria de imprensa da Embraer informou que a empresa não comenta possibilidades de negócios.
Mais produtos
Mas as oportunidades de exportações para a Líbia, segundo o embaixador, não se resumem ao setor aeronáutico. Como a economia é basicamente movida pelo petróleo, o país importa todo tipo de bens, chegando as compras externas, no caso dos alimentos, a 75% daquilo que é consumido. Além dos produtos alimentícios, Rosa vê grande potencial para a venda de tratores e outros equipamentos agrícolas, móveis, cutelaria e outros utensílios domésticos, malharia, calçados e para empresas do ramo de construção civil.
Fora algumas mercadorias, como frango e bebidas alcoólicas, os produtos importados, segundo o embaixador, não sofrem com barreiras comerciais e tarifárias. Existe, no entanto, a concorrência de produtos de outros países africanos e europeus.
Alguns produtos brasileiros já estão bem colocados no mercado, como minério de ferro, carne bovina e açúcar. A carne brasileira, por exemplo, abastece 95% da demanda local. "A carne bovina tem uma demanda que cresce em progressão geométrica, porque antes a população líbia consumia basicamente ovinos e caprinos, mas agora está se abrindo para a carne bovina", afirmou Rosa.
Estão disponíveis por lá também outros produtos alimentícios brasileiros, como sucos de frutas, biscoitos e chocolates, mas distribuídos por importadores dos Emirados Árabes Unidos. "Se as empresas brasileiras conseguirem vender diretamente, talvez o preço seja mais conveniente", declarou o diplomata. No primeiro bimestre, as exportações do Brasil para a Líbia somaram US$ 25 milhões, um aumento de 15% em comparação com o mesmo período de 2006, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Obras
Na área de construção, Rosa citou grandes empreendimentos que estão em andamento ou sendo projetados no país, nas áreas de turismo, habitação e infra-estrutura. Um deles, localizado a poucos quilômetros a leste de Trípoli, é comandado pela empresa Al Tameer e consiste em um complexo turístico de US$ 20 bilhões que inclui hotéis, campos de golfe, quadras de tênis, praia, entre outros atrativos de lazer.
Outro exemplo citado por ele é a construção de um novo bairro nas imediações da capital com uma centena de prédios de apartamentos de alto padrão. Há também projetos de ampliação do terminal de passageiros e das pistas de pouso do aeroporto de Trípoli e de construção de apart-hotéis, por causa da população estrangeira flutuante de funcionários de multinacionais do petróleo. De acordo com Rosa, 43 empresas internacionais do setor operam hoje no país, inclusive a Petrobras. Empreiteiras brasileiras já estão também de olho nesse mercado.
Neste sentido ele comemora a participação brasileira na Feira Internacional de Trípoli, que vai até o dia 12, com um estante organizado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Segundo diplomata, é a retomada de uma presença suspensa há mais de duas décadas. Além de mostrar produtos de duas empresas brasileiras e catálogos de outras cinco, a participação serve para se ver in loco o potencial do mercado e dos concorrentes, já que participam 4,5 mil empresas de 45 países.
Ontem (04) o estande da Câmara Árabe recebeu cerca de 15 pessoas interessadas em comercializar com o Brasil. De acordo com o analista de comércio exterior da entidade, Zein El Abdine, que está na feira, compareceram ao estande empresários da Líbia, marrocos, Egito, Argélia e Tunísia.
"A Líbia está passando por uma transformação muito rápida nas áreas econômica e financeira, o que está se refletindo também na abertura cultural", ressaltou o diplomata. "Estou aqui há um ano e meio e já é possível notar uma diferença muito grande", acrescentou. Como exemplo, ele citou o acesso à internet, pouco difundido faz pouco tempo, mas que agora já está disponível em banda larga até nas cidades pequenas.
O embaixador ressaltou que as relações comerciais entre o Brasil e a Líbia deram um salto após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país árabe em dezembro de 2003. Ele disse ainda que o primeiro-ministro líbio, Al-Bagdadi Ali Al-Mahmoudi, poderá vir ao Brasil ainda no primeiro semestre deste ano.
"O Brasil tem uma excelente imagem por aqui, os brasileiros são tratados com especial simpatia", concluiu Rosa. O diplomata de 66 anos trabalha no Itamaraty há 44 e anteriormente ocupou postos na própria Líbia , Egito, Uruguai, Argentina, Itália, Holanda, entre outros países. Ele já foi também chefe do departamento do Oriente Médio e Norte da África do Ministério das Relações Exteriores.
*Colaborou Marina Sarruf

