São Paulo – Fortalecer a presença da Embrapa na África e desenvolver projetos com foco em sustentabilidade são duas das prioridades de Maurício Antônio Lopes, o novo presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Engenheiro agrônomo, Lopes, que desde 1989 é pesquisador na instituição, afirmou em entrevista à ANBA que não só irá priorizar a atuação internacional da empresa como já está reavaliando todas as parcerias no exterior. Disse que há oportunidades de ampliar os projetos de cooperação técnica que já são desenvolvidos na África e de realizar parcerias no Oriente Médio e no Norte da África.
A atuação da empresa no exterior foi questionada quando o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, publicou no Diário Oficial da União a extinção da Embrapa Internacional, que fora recém-criada, por "descumprimento de preceitos legais" da empresa, que tinha sede nos Estados Unidos. A extinção desta unidade foi anunciada em 5 de outubro, poucos dias após o então presidente da Embrapa, Pedro Antonio Arraes Pereira, pedir exoneração do cargo.
Seja no Brasil ou no exterior, contudo, todos os projetos da Embrapa serão desenvolvidos com foco na preservação dos recursos naturais, na eficiência energética, nos ganhos de produtividade e na redução das emissões dos gases causadores do efeito estufa. Essa regra vale para os grandes projetos ou até para as parcerias que a Embrapa vier a desenvolver com pequenos e médios agricultores. Um contingente de trabalhadores que, segundo Lopes, hoje atua para sua subsistência mas que, em muitos casos, tem potencial até para exportação. Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida na sexta-feira (26).
Quais são suas prioridades à frente da Embrapa?
Maurício Antônio Lopes – Ainda temos uma agricultura muito focada em commodities e entendemos que a Embrapa terá um desafio de desenvolver tecnologias e conhecimentos que nos permitam agregar mais valor aos nossos produtos e garantir que sejam seguros. A questão de segurança é cada vez mais importante para a gente alcançar mercados internacionais e garantir à nossa população também alimentos cada vez mais seguros e de melhor qualidade.
Na dimensão tecnológica são vários desafios na mecanização, no aprimoramento dos nossos sistemas produtivos. Na dimensão ambiental o Brasil tem também um desafio muito grande. O Brasil fez a revisão da sua política para proteção ambiental através do código (florestal), significando que no futuro não vamos mais poder ampliar a produtividade da nossa agricultura com a expansão física.
Essa revisão do código que impede a expansão "física" pode forçar os produtores a desenvolver tecnologias que resultem em culturas mais produtivas e melhores…
Sem dúvida. Isso força o sistema, os empresários, os agricultores a buscar cada vez mais eficiência. Toda essa tendência de que os sistemas sejam cada vez mais sustentáveis, que a gente use os nossos solos com maior eficiência, maior produtividade, que a nossa agricultura emita menos gases de efeito estufa, que a gente use os nossos recursos hídricos de forma mais eficiente, força a agricultura a caminhar mais rapidamente na direção da sustentabilidade. Para fazer isso tudo, você precisa de conhecimento, informação, ciência e tecnologia. Por isso a nossa ênfase na Embrapa em reforçar nossos programas voltados tanto para aumentar eficiência, produtividade e competitividade, mas também grande ênfase em programas voltados para aumentar a sustentabilidade dos nossos sistemas.
Temos também um outro desafio. No Brasil ainda há um número muito grande de agricultores pobres, à margem do mercado. São pequenos e médios agricultores que ainda têm uma dificuldade muito grande de acessar tecnologia, conhecimento e informação. Isso também é um desafio para nós e para o sistema de extensão rural e de assistência técnica. Estamos atentos a este imenso contingente de agricultores brasileiros que ainda precisam melhorar seu nível tecnológico. Eles irão precisar de crédito, de logística, de melhor infraestrutura.
Estes agricultores que o senhor citou se concentram em alguma região específica, em alguma área específica do País ou trabalham com alguma cultura que seja menos rentável?
O Brasil tem aproximadamente 5,2 milhões estabelecimentos rurais. Cerca de 500 mil deles são considerados empresas ou empresários rurais de alto nível tecnológico. Temos aí um contingente de quatro milhões de propriedades com desempenho abaixo do que precisariam ter. Muitos desses estabelecimentos estão concentrados no Nordeste, que é a região mais carente do país. São agricultores de subsistência que normalmente produzem mandioca, pequenos animais, grãos como feijão caupi ou milho e arroz para sua subsistência.
O grande desafio será buscar meios no futuro para que esses agricultores possam aumentar sua eficiência, alcançar o mercado com mais esforço no sentido de fortalecer iniciativas de associativismo, como as cooperativas, associações. Hoje temos programas importantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) que dão suporte a um grande contingente desses agricultores. Mas desses quatro milhões há muitas propriedades que, com a tecnologia adequada, com o suporte adequado de recursos e capacitação, vão poder alcançar o mercado e poder se tornar produtores inseridos nos mercados internos e até de exportação.
Vocês vão realocar ou aumentar verba para isso ou trata-se de uma mudança de diretriz e objetivo?
Já temos muitos programas voltados para atender os pequenos agricultores e agricultores familiares. Temos uma estratégia de transferência de tecnologia, parcerias com o MDA, com o Ministério da Agricultura. Um grande gargalo no atendimento dessas populações é o sistema de assistência técnica e extensão rural. Temos um trabalho muito bom das (unidades da) Emater (empresa de extensão rural que ajuda a desenvolver técnicas de plantio), das instituições de assistência técnica e extensão em várias partes do Brasil, mas ainda há limitações. Precisamos estruturar melhor, fazer mais investimentos em transferência de tecnologia. Temos que investir mais em capacitação, treinamento, mais recursos de crédito, em alguns casos melhorar infraestrutura.
Como o senhor pretende fortalecer a atuação internacional da Embrapa?
A Embrapa já tem uma atuação forte desde 1998. Nós temos um programa de cooperação científica muito estruturado. Esse programa se expandiu e hoje está nos Estados Unidos, na França, no Reino Unido e na Alemanha, e mais recentemente estabelecemos programas de cooperação científica na Ásia com a Coreia do Sul, China e Japão. O objetivo é desenvolver ações integradas em áreas como a biotecnologia, recursos genéticos, nanotecnologia, áreas de ponta em que o Brasil precisa estar atento.
Temos a cooperação técnica que é desenvolvida no modelo de cooperação Sul-Sul (entre países em desenvolvimento). Estamos com operação na África já há alguns anos, buscando desenvolver ações de transferência tecnológica ou de adaptação de tecnologias para agricultura tropical testadas e validadas no Brasil para países africanos. Também estamos em países da América Latina.
A Embrapa Internacional era um "braço" para facilitar, para tornar a ação da Embrapa no exterior mais ágil, eficiente e flexível. Estamos revendo a estratégia de internacionalização, com contínua ênfase na Embrapa Internacional. Não vamos absolutamente diminuir nossa ênfase em cooperação internacional, temos acordos com mais de 180 países, são dezenas e dezenas de projetos de cooperação técnica que temos em âmbito internacional. A cooperação hoje é essencial porque os problemas são cada vez mais complexos.
A cooperação técnica compreende Gana, Moçambique, Mali, Senegal, Venezuela e Panamá. Há outros países em que a Embrapa pretende ampliar essa cooperação?
Estamos sempre avaliando quais são as melhores alternativas. Há uma demanda enorme de ampliação da cooperação tanto na América Latina quanto na África. Neste momento estamos fazendo revisão de todo o nosso trabalho de cooperação principalmente na África nos últimos anos. Há uma expectativa muito grande que a gente amplie nossos laços e nossa cooperação na África. Estamos neste momento fazendo uma análise para avaliar quais sãos as melhores alternativas, onde é que vamos intensificar a cooperação ou áreas onde nós não estamos e que valha a pena estar. Estamos conduzindo este processo neste exato momento.
Vocês avaliam fazer parcerias com um país do Oriente Médio ou do Norte da África?
Temos dialogado e procurado interação. Muitos desses países têm nos procurado. Temos todo o interesse de dialogar, conversar e buscar formas de interação com os países do Oriente Médio e do Norte da África. Acho que há sim muitas possibilidades interessantes. Por exemplo em tecnologias que nos permitam poupar recursos escassos como a água. Troca de recursos genéticos. Esses países têm recursos genéticos importantes, bem adaptados a condições mais limitantes em termos de seca, de baixa disponibilidade de água. Então, temos todo o interesse de buscar interação com países do Oriente Médio, do Norte da África, explorando possibilidades de trocar tecnologias, compartilhar informação, intercambiar recursos genéticos, capacitação, treinamento. Temos sim dialogado com alguns desses países e estamos abertos para continuar esse diálogo e oportunidades de cooperação e interação.
O senhor falou muito sobre o aumento da participação da Embrapa no setor sucroenergético. Gostaria de saber se é uma das suas prioridades.
Estamos com vários programas e portfólios voltados, por exemplo, para aquicultura, sanidade animal, controle biológico, silvicultura de plantas nativas, que é muito importante no Brasil principalmente agora com o novo código florestal, a integração lavoura-pecuária-floresta, a fixação biológica de nitrogênio, que é importante para o programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), a defesa da agricultura, essa questão de defensivos, de reduzir ou tornar o seu uso mais eficiente. São prioridades, mas há sim um destaque para o setor sucroenergético.
Temos preocupação também de garantir a pesquisa em recursos genéticos e melhoramento genético da cana porque sabemos que no futuro vamos ter desafios muito grandes com as mudanças climáticas. A Embrapa tomou a decisão de fortalecer sua pesquisa em cana, mas não somente em cana, pensando na verdade no setor sucroalcooleiro energético. Vamos ter que pensar para o futuro que ele vai se tornar cada vez mais complexo. Não será só a cana. Hoje mesmo já se fala nesta possibilidade de combinar a cana de açúcar com o sorgo sacarino.
Nós estamos pensando também em outras fontes de biomassa. Com a possibilidade de cogeração, as usinas produzindo também eletricidade, você de repente pode colocar outras fontes de biomassa no processo. Estamos investindo em tecnologias avançadas, por exemplo o etanol de segunda geração ou de transformação de biomassa em outros componentes. No futuro, algumas usinas de açúcar e álcool no Brasil poderão se converter em verdadeiras bioindústrias ou bio-refinarias transformando biomassa nos mais variados componentes.
É uma prioridade aliar os atuais e novos projetos com foco na sustentabilidade?
Não podemos perder de vista a competitividade, a produtividade, a especialização dos nossos produtos, o aumento da eficiência produtiva. Absolutamente não é mais possível fazer isso sem lançar um olhar cuidadoso para a temática da sustentabilidade. Não podemos imaginar um futuro em que a gente não dê uma atenção muito grande às várias dimensões da sustentabilidade, às questões ambientais relacionadas ao bom uso dos recursos naturais, ao bom uso de recursos escassos como a água, à redução na emissão de gases, à valorização de conceitos como serviços ambientais e serviços ecossistêmicos.
A agricultura brasileira, na verdade, já é uma boa provedora de serviços. Se você vê, por exemplo, o plantio direto no Brasil, é um importante provedor de serviços ecossistêmicos e ambientais. Ao cobrir o solo, ao proteger o solo, ao reduzir a erosão, você tem uma agricultura que produz água limpa. Porque ao invés de se perder e carrear os solos para os rios, os leitos dos rios, a água está penetrando e recompondo o lençol freático. Temos que caminhar cada vez mais no sentido de desenvolver tecnologia, conhecimento e informação que permitam que nossos sistemas migrem de maneira cada vez mais rápida na questão de sustentabilidade.

