São Paulo – Os participantes de um painel sobre o Norte da África, realizado nesta sexta-feira (27), em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, foram unânimes em dizer que o maior desafio da região é o desemprego e que os novos regimes surgidos da Primavera Árabe vão ter que apresentar resultados rapidamente.
O novo primeiro-ministro da Tunísia, Hammadi Jebali, informou, segundo comunicado do Fórum, que em seu país existem 800 mil desempregados, sendo 200 mil com diplomas universitários, e todos os anos mais 75 mil formandos são despejados no mercado de trabalho. Ele acrescentou que 400 mil tunisianos vivem com menos de um euro por dia, o que equivale a menos de R$ 2,30. Vale lembrar que o país tem cerca de 10,5 milhões de habitantes.
Para os debatedores, o futuro do Norte da África passa pelo estabelecimento de governos democráticos e o fim da hegemonia das elites políticas tradicionais. Nas eleições realizadas recentemente na Tunísia, Marrocos e Egito, houve clara preferência por partidos de orientação religiosa.
As novas lideranças da região, porém, afirmam que a ascensão dos partidos islâmicos não é um entrave para a democracia. “Não haverá discriminação religiosa, de idioma ou de gênero”, afirmou Jebali, que pertence ao Al Nahda, agremiação islâmica moderada.
Na mesma linha, o primeiro-ministro do Marrocos, Abdelilah Benkirane, afirmou: “Quem se importa se esses governos são islâmicos ou não. O que importa é que eles são democráticos.”
O ex-secretário geral da Liga Árabe e candidato à Presidência do Egito, Amr Mussa, declarou que a região “abraçou a democracia”. “A questão é se o Ocidente será capaz de lidar com a democracia árabe. O Ocidente quer eleições democráticas, mas quer também que as eleições sejam vencidas por quem o favoreça”, ressaltou.
Outro candidato à Presidência egípcia, Abdel Moneim Aboul Fotouh, secretário-geral do Sindicato dos Médicos do Egito, acrescentou que o Ocidente não teve problemas em apoiar regimes totalitários no passado. “Aliás, o Ocidente deveria pedir desculpa por ter apoiado esses regimes”, disse.
Nas eleições parlamentares egípcias, o partido Liberdade e Justiça, da Irmandade Muçulmana, foi o mais votado, seguido do partido Nour (Luz), de orientação salafista, uma escola islâmica ultraconservadora. Para Mussa, a participação de religiosos radicais no pleito pode ter resultados positivos. “Isso vai forçá-los a serem mais pragmáticos”, afirmou.
Fotouh disse ainda que chegou a hora de respeitar a dignidade das mulheres. Jebali acrescentou que “não podemos ter uma democracia amputada”. “Nós temos que levar toda a população em consideração. Não podemos ignorar as mulheres”, declarou o tunisiano, acrescentando que muitas mulheres foram eleitas para o Parlamento, incluindo várias do Al Nahda.

