São Paulo – Em meio a um bosque de araucárias, na região metropolitana de Curitiba, existe uma fábrica totalmente ecológica que produz alimentos saudáveis feitos à base de alfarroba, uma vagem que dá na alfarrobeira, árvore típica do Mediterrâneo. A fantástica fábrica de produtos alternativos ao chocolate, Carob House, foi criada em 2002 e, hoje, é uma das marcas mais conhecidas de produtos saudáveis do Brasil, com itens que vão desde as famosas barrinhas até tabletes e cremes. Agora, com a chegada da Páscoa, há também os ovos.
Eloísa Helena Orlandi, a mente criadora da Carob House, conheceu a alfarroba quando morava no Canadá com o marido. Lá, o pó era vendido a granel e também havia uma mistura para bebida, sabor alfarroba, que era fabricada na Universidade de Loma Linda, na Califórnia. Por ter apelo à saudabilidade, a alfarroba passou a fazer parte da alimentação da família.

“Ao retornarmos para o Brasil, identificamos uma lacuna no mercado com a falta de um produto alternativo que pudesse atender consumidores que, por questões de saúde, ideologia ou preferência de sabor, não consumiam o chocolate convencional”, conta Eloísa. Assim começou a empreitada. Foram quase quatro anos de pesquisa e desenvolvimento até a abertura oficial da empresa, em 2002, mas o produto só foi divulgado no mercado no final de 2003.
A matéria-prima é importada, já que a alfarrobeira é uma árvore nativa de clima desértico, não existente no Brasil. Portugal, Espanha, Itália e Grécia estão entre os maiores produtores. “Contudo, pelas suas propriedades múltiplas, vários países do Norte da África estão investindo pesado no cultivo da alfarrobeira. Há, também, em outros continentes, como a Ásia e Oceania”, conta Eloísa, uma grande entusiasta e estudiosa do tema.
A Carob House chegou até a apoiar um estudo de tese de doutorado de um aluno de Engenharia Agrônoma da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que desenvolveu o plantio de alfarrobeiras no estado, através da criação de um ambiente climatizado que permitisse o seu cultivo. “Elas estão crescendo”, celebra Eloísa. A alfarrobeira é conhecida por seu crescimento e sua longevidade: pode demorar até uma década para começar a dar frutos.
Internacionalização
Hoje, Eloísa define a Carob House como uma boutique de alimentos: com tecnologia de ponta e instalações modernas e um número pequeno de funcionários dedicados. “Tudo é cuidadosamente pensado para que o produto chegue ao nosso consumidor final levando consigo toda essa história e cultura que permeia a proposta de um produto diferenciado que faz bem à saúde.”
Em 2022, a convite do governo de Friburgo, na Suíça, a Carob House se instalou por lá. Na Carob House Swiss, a ideia é trabalhar o conceito de que a alfarroba pode coabitar tranquilamente com o chocolate, atendendo ao público que busca opções mais saudáveis para o dia a dia, uma tendência mundial que ganhou corpo pós-pandemia.
Da Suíça, a empresa pretende atingir novos mercados além do brasileiro por meio da internacionalização dessa tendência. “Não exportamos produtos. Exportamos conceito. Internacionalização, para mim, vai para além de encher um contêiner e cruzar o oceano, sem saber se vai voltar a fazer isso outra vez”, define a criadora da Carob House.

Para isso, ela atua em várias frentes. Recentemente, Eloísa participou de uma rodada de negócios halal na Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP). “Vejo muita conexão do meu produto com o mundo árabe e principalmente com o halal, considerando que o nosso processo de produção naturalmente se enquadra nos critérios religiosos da certificação. Nossa planta fabril é 100% vegana”, conta. As fórmulas da Carob House são patenteadas, de modo que não há concorrentes no Brasil.
A ligação da alfarroba com os árabes, aliás, é histórica. Na Grécia Antiga, as sementes de alfarroba (kerátion) eram usadas como medida para pesar pedras preciosas. Mais tarde, os mercadores árabes usaram essa unidade de medida, mas com o nome qirat. Logo, na Espanha e em Portugal o termo virou quilate, como se usa até hoje.
Paulistana neta de mineiros de Passos, Eloísa Helena estudou Direito e já lançou até um livro de poesias na Bienal do Livro de São Paulo, em 1984. Na trajetória anterior à criação da Carob House, também trabalhou em uma multinacional do setor financeiro (enquanto desenvolvia seu projeto ao lado do marido). Com quase 25 anos de existência, a empresa não passará para as mãos de seus filhos que, com suas próprias profissões, não se interessam pela sucessão da empresa.
“Enquanto isso, o pai cuida da produção e a mãe de todo o resto, até o dia em que esse legado for passado adiante para se perpetuar através dos tempos”, diz ela, com a certeza de que sua obra continuará presente, e se expandindo, para além de sua própria existência – longeva como uma alfarrobeira.
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Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA


